quinta-feira, março 3

 

Produtividade: o que a algazarra encobre


Razões objectivas do fraco índice de produtividade

«(…) Jaime Lacerda, vice-presidente da Associação Industrial Portuguesa, alinhando pelo diapasão, afirma que as empresas podem produzir o mesmo com menos trabalhadores, responsabilizando a protecção do emprego por agravamento dos custos de produção das empresas, adiantando que, por isso, a margem de manobra para aumentar as remunerações é escassa, asserção esquisita num país onde legislação recente colocou os trabalhadores em situação de grande precariedade.

(…) Sabendo-se que a produtividade assenta em dois eixos principais: o empenho que o trabalhador põe na execução da sua tarefa e a qualidade dos equipamentos que o empresário coloca à sua disposição, prestar-se-á um inestimável serviço ao desenvolvimento do país se e quando patrões, sindicatos, políticos, economistas e demais "opinion makers" se derem ao trabalho de inventariar os diversos sectores da economia, identificarem um ou dois dos mais badalados (têxteis e calçado) e, através de observações directas, imparciais e tecnicamente aceitáveis, demonstrarem de que lado anda o "busílis" da questão: se na sornice dos trabalhadores, se na obsolescência dos equipamentos.

(…) Se as conclusões apontarem para causas do tipo de equipamentos obsoletos, sobrefacturação na aquisição de matérias-primas, subfacturação ou ausência de facturação nas vendas, imputação aos custos empresariais de aquisição de bens e serviços (i.e. viaturas topo de gama para uso particular, despesas de representação sem qualquer relação com o negócio da empresa, eventuais custos justificados com obras em património empresarial, quando o foram em património pessoal, etc.), então o discurso deve ser outro, como diferente deve ser a forma de o poder político e judicial se relacionar com este segmento populacional.

Qualquer que seja a conclusão recolhida, dever-se-á aproveitar para esclarecer que aplicação foi dada a benefícios concedidos aos empresários para remodelarem o seu parque de máquinas e que alterações, reais, produziram os subsídios atribuídos com vista a aumentar o nível profissional dos seus colaboradores, respostas de importância capital para eventuais políticas destinadas a fortalecer as nossas exportações.

Num hipotético cenário de que o calcanhar de Aquiles está em comportamentos censuráveis de empresários e não em falta de empenho dos trabalhadores, ou de ausência de habilitações literárias para a cabal execução das tarefas que lhes são cometidas, então o futuro de Portugal e dos portugueses manda que se provoque uma ruptura no mundo empresarial, imponho que num prazo máximo de cinco anos o valor do salário mínimo dos trabalhadores portugueses terá de acompanhar o salário mínimo dos nossos parceiros europeus, promovendo a aproximação faseadamente, com início imediato.

Não ignoramos que uma decisão deste cariz provocará uma forte reacção das associações representativas dos empresários, mas é nossa firme convicção de que, se formos capazes desta audácia, começaremos a sentir uma verdadeira e necessária "revolução" nos costumes dos patrões portugueses; deixaremos de ouvir a "cassete" da baixa produtividade; os contratos de trabalho serão menos contratos a termo e mais contratos que permitem a empresa beneficiar da experiência do trabalhador e, por último, o ruído de que toda a actividade económica se afundará não terá final diferente do que foi a introdução do salário mínimo. Nessa época comércio e indústria não se aguentariam e, comprovadamente, a invocada tragédia não ocorreu. (...)»

[A. Álvaro de Sousa,
carta escrita ao Público]

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