terça-feira, março 8

 

O MITO DA MULHER: O «HOME» — SOLIDÃO E AR CONDICIONADO [VII]


Cada época dispõe dos seus mitos convenientes. A actualidade de qualquer deles está na projecção irreal que transferem dos valores organizados para os promover. Contudo, a sua permanência tem limites que são os de uma realidade-base em que assentam e que pretendem alienar. E daí que, a propósito do Home (ainda em processo de entronização), se fale sobretudo da Mulher dos Três K e da Mulher Vitoriana, dois exemplares já estabilizados historicamente e ambos vindos de uma mesma raiz: a segregação do individuo feminino em nome de fatalismos naturais.

Entretanto, o pequeno e amável universo concentraccionário que é o Home contém em si mesmo, a negação lógica que o destrói: se é em nome do perfeito ambiente familiar que ele se funda, e se a maior parte da vida da família se realiza fora de casa, a mulher não estará progressivamente a afastar-se da comunidade de interesses dos restantes membros? O seu isolamento, sempre crescente em relação ao exterior, não a impedirá de uma compreensão integral do marido e dos filhos?

Uma parte altamente prestigiada dos investigadores das ciências do comportamento afirmam que si. O parto sem dor, O birth control e a própria industrialização doméstica são sinais de liberdade, respostas eloquentes às condenações biológicas e outras. As novas correntes da Psicanálise revolucionam as teses intocáveis, a Igreja coloca O Evangelho no Mundo Moderno (Jean Daniélou, S.J.), isto é, encara sob novos dados a questão das «hierarquias naturais» (Pes. Cardonnel, Dubarle, Jolif; Pastores Bosc e Dumas). No pedestal dos medalhões mitológicos, o Home fechará, pelo menos, o ciclo das configurações deturpadas de certos aspectos da Mulher.
.
[José Cardoso Pires, O Tempo e O Modo, 25/26, Os Mitos, p. 310-318, 1965]

Comments: Enviar um comentário

<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?