terça-feira, março 8

 

O MITO DA MULHER: O «HOME» — SOLIDÃO E AR CONDICIONADO [I]


Todo o mito envolve uma alienação de liberdade. Desde os doutores da Bíblia aos cientistas do comportamento humano da actualidade, o dossier Mulher é, afinal, a panorâmica dos sucessivos mitos que a ajustam a determinado molde social — portanto, a determinada influência de responsabilidade. Os ingredientes variam com a temperatura histórica mas a figura ideal inspira-se na mesma fórmula de princípio: le deuxième sexe não é o outro sexo mas o que vem depois do homem (nasceu de uma costela de Adão, não se esqueça…), a mulher em plano secundário no esquema do estatuto público.

«Cá em casa manda Ela, quem manda n’Ela sou Eu», anuncia o azulejo de boas-vindas que ornamenta a casa portuguesa. E na ingénua declaração contem-se o Ponto Um do ideário primitivo da esposa-à-margem do colectivo e, simultaneamente, a base do código familiar em que se apoiam o machismo, no plano sentimental, e o feudalismo económico, no plano das estruturas sociais.

D. Francisco Manuel de Melo definiu-a, com vénias galantes, como ser frágil e sujeito a tentações; instrumento do diabo, lhe chamaram as cruzadas medievais, os exorcismos e as demonologias que constam do Formicarium ou do Malleus Maleficarum. Apesar dos séculos de intervalo, o acordo é evidente.

Mas a dona de recato, que é um exemplar-mito de D. Francisco Manuel, sofreu as correcções do tempo. A Carta de Guia de Casados, esse manual das inferioridades da mulher, ordenou-lhe que se resumisse aos filhos e à cultura de almofada e bastidor e ela, mal ou bem, aprendeu a escrever com a ponta da agulha e a ler pela mão do confessor. Em poucos anos o deslumbramento da femme savante levava-a das fronteiras do lar à vida social dos salões dourados. Estava esboçado o mito romântico, o novo perfil feminino: galanteria e belas letras. Modelos a copiar: George Sand e Mme. Staël.

O eco dessa promoção feminina atingiu tremulamente a província portuguesa da Europa. Vem à memória o nome da Marquesa de Alorna, evidentemente. Mas o seu a seu dono: antes dela inscreve-se uma pioneira esquecida — Teresa Margarida da Silva Horta, escritora de vanguarda e autora do primeiro (?) romance feminista, Aventuras de Diófanes. Prisioneira de Pombal, para terminar.

«Nas mulheres a injustiça dos homens lhes tira a liberdade assim que nascem...» — eis, numa linha, o programa de Teresa Margarida e o curioso é que a frase não lhe pertence mas a um dos espíritos do seu círculo que recebera, como ela, as luzes do século: Matias Aires.

Sociólogo, matemático, redactor de Reflexões (várias) e de um estudo sobre A Arquitectura Portuguesa (1753), este homem de peregrinações europeias (como Ribeiro Sanches, como Verney, como Luís da Cunha) foi um dos raros portugueses a preocupar-se com o assunto tabu. Depois dele, só o Judeu e o Garção, ambos de relance, e um esforçado e medíocre Manuel de Figueiredo (Apologia das Damas) ousaram esboçar novos rascunhos para a mulher do Romantismo que Garrett iria desenhar em corpo inteiro... e à portuguesa, já se vê.

Somente, Garrett revela-se (contra sua vontade, admito) um ourives de mítificação feminina. Bucólico e a cheirar a loções civilizadas de Picadilly. Escreve O Toucador mas acrescenta-lhe na portada a designação de Períodico sem Política e faz política ao contrário: reduz o progresso das damas a modas de Paris, poesia de assembleia, etiqueta, jogos de salão — os mesmos elixires com que foi parcialmente descrita a elegante dos salões franceses para a poderem eleger como mito (conveniente) do Romantismo: a figurinha de Saxe.

Um caso entre muitos, Garrett. Se virmos bem, a nossa literatura transpira vários incensos da mitificação feminina quando precisamente julga desmontar a «vida contemporânea». Júlio Dinis considera o belo sexo como um ser resignado, só instinto. Eça vê-o como objecto de tentação (Padre Amaro), presa fácil na ausência do braço vigilante do marido (leia-se Os Maias, leia-se O Primo Basílio). E nos escritores dos nossos dias, mesmo naqueles de formação materialista, são frequentes os indícios de machismo:

1.º) o recurso a imagens de erotismo primário como abonações da qualidade de mulher (égua, flor sanguínea, lua, ancas luarentes, enigma, etc.); 2.º) paralelismo com rituais simbólicos (tatuagens, ferra de cavalos) e 3.º) a verificação, quase sistemática, de as heroínas não terem passado sentimental (complexo de virgindade).

[José Cardoso Pires, O Tempo e O Modo, 25/26, Os Mitos, p. 310-318, 1965]

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