terça-feira, março 8

 

O MITO DA MULHER: O «HOME» — SOLIDÃO E AR CONDICIONADO [II]


Império (e, logicamente, Raça, Expansão, Povoamento) são ideias associadas a um estatuto familiar rigoroso. A voz moralizante de Gil Vicente acerca dos desconcertos da lar é sempre justificada em função dos conquistadores em demanda de novas terras. A célebre carta da rainha Vitória condenado os movimentos feministas coincide com a fase de reafirmação da Coroa. Escreve ela: «A Rainha sente-se a tal ponto indignada com esta questão que a custo consegue manter a serenidade».

A questão era salvaguardar o puritanismo contra a revoada dos anjos sufragistas. A esses e ao gosto elegante dos salões franceses, a matriarca imperial respondia com as tintas mais duras da austeridade. O quadro passa a ser outro: pesado e matronal. O mito sofre uma nova metamorfose: a da mulher vitoriana, para usar a nomenclatura dos tratadistas.

Mais violento, o império do III Reich programou o ideal feminino em alíneas autoritárias e irreversíveis. Por ordem: Kinder (filhos), Küche (cozinha) e Kirche (igreja) — a Mulher dos três K. vimo-la em estátuas gigantescas, possante, ventre sensual e rosto decidido voltado para a expansão. Em pleno ar livre: o lar, na paisagem hitleriana, não dispunha dos individualismos que o distanciassem do Estado.

«A mãe alemã é o grande capital do Nacional-Socialismo», declarara o ministro Goebbels que, na véspera da derrocada, se suicidaria com a esposa e os filhos. E Schlierbach pormenorizara que a «higiene matrimonial», os delitos contra a raça se consideravam actividades tão nocivas ao Estado como a alta-traição, o tráfico de divisas, o bolchevismo, etc. — Collotti, A Alemanha Nazi.

O mito dos 3 K recrutara os seus advogados do diabo nos eugenistas em uniforme e nos estrategas do programa anti-semita. Paradoxalmente todos apoiavam a sentença de um judeu — Freud — segundo a qual o destino é ditado pela anatomia…

Adiante. Poucos anos depois, o mesmo «slogan» serviria ao Império Americano para situar a mulher no seu individualismo biológico. Teve a palavra um socialista liberal, Adlai Stevenson: «A participação feminina na vida moderna deve fazer-se unicamente através da sua actividade de esposa e mãe».

Nessa altura os Estados Unidos acabavam de sair de uma guerra e de fazer as estatísticas dos homens perdidos; tinham repartido o mundo em Yalta. Precisavam, de futuro, de colocar a mulher. O novo mito feminino forjava-se nos lobbies do Congresso, nos departamentos da Informação.

Entretanto, o emblema já tinha as coordenadas definidas. De há muito que o Código Civil, a Política e os relatórios da Ciência fechavam o horizonte consentido ao lar. A irresponsabilidade parcial da mulher, a sua posição de segregada do pacto social, estavam mais do que justificadas.

[José Cardoso Pires, O Tempo e O Modo, 25/26, Os Mitos, p. 310-318, 1965]

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