terça-feira, março 8

 

O MITO DA MULHER: O «HOME» — SOLIDÃO E AR CONDICIONADO [III]


Hoje, 1965, as empresas fabris domésticas introduziram, nos países em crise de crescimento industrial, um novo vocábulo: Home.

Como snack-bar, barbecue, hobby, frigidaire, self-service, termos internacionalizados e todos eles da vida corrente familiar, Home aparece no dicionário das classes médias da França, da Bélgica ou da Dinamarca, no sentido de lar funcional, de lar post-artesanal. Significa para a dona de casa desses países uma solução de ajustamento às novas características de um quotidiano em que a carência e custo do pessoal doméstico e, simultaneamente, a função tempo-distância-transporte comprometem a sua economia, as horas de convívio familiar e a sua liberdade individual. Home é a nova face do Ocidente no universo do lar, mas uma face que engloba também valores espirituais e sentimentos e não simples referências económicas. Implica necessariamente numa ideia de mulher, traduz uma conquista da housewife americana que, aos olhos da ocidental, goza dos prestígios de uma igualdade de direitos cívicos, dispõe de inegável abundância de bens de consumo e conta, no seu curriculum, com a experiência de ter enfrentado, antes de ninguém, as transformações que a expansão industrial está originando na Europa.

Bem entendido, Hollywood, a literatura e o instinto de reacção ao «standard» e ao «materialismo da existência» abalam, e continuam a abalar, o fascínio da pax americana. O fenómeno dos hipsters, diagnosticado por Norman Mailler & Outros, surge como um impasse da juventude em rebelião; os inadaptados dos romances de Salinger e de Kerouac, as peças de Albee e os apuramentos de Kinsey apavoram as boas consciências. Para encurtar razões, a célula familiar comporta-se de maneira pouco estimulante.

Em socorro disto, o mandato de Kennedy lança a vaga das reformas corajosas. O anti-americanismo universal diminuem velozmente, suscitando uma impressão de moralização e de retorno às constantes tradicionais. Na bolsa dos valores éticos a cotação da mulher ianque regista uma subida. A aventureira do divórcio e da alimony (indemnização conjugal), a assexuada ou a devoradora de homens foram olvidadas como subprodutos circunscritos às comédias de costumes e aos erotismos de exportação. O resto do tempo o diria, e o resto era o mito: aquilo que está para lá da acção imediata ou do objectivo imediato. O Home, neste caso.

Mesmo para a ocidental alérgica ao american style, esse modelo tinha as aliciações de uma solução prática, de modo a poder ser adoptado unicamente pelo seu conteúdo material. Que se copiassem os super-mercados mas que se preservasse o gosto. Se isso fosse possível, claro.

[José Cardoso Pires, O Tempo e O Modo, 25/26, Os Mitos, p. 310-318, 1965]

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