terça-feira, março 8

 

O MITO DA MULHER: O «HOME» — SOLIDÃO E AR CONDICIONADO [IV]


Mito? Mito para quem?

É evidente que cada extracto social tem as suas configurações-limite cuja sublimação transporta necessariamente à mitologia. Mas o mito, creio eu, requer antes de mais nada uma universalidade de dados reais para poder ser aceite na irrealidade que propõe. E uma vez que a realidade lar significa um destino histórico da mulher ou, pelo menos, um compromisso que ela pretende tornar mais acessível, o Home é o limite para que tendem as camadas femininas não proletarizadas em face do quotidiano do após-guerra.

Consciente ou inconscientemente, não importa. Num inquérito do Candide (Abril, 1965), Natacha e Jean Duche, ao fazerem o balanço de uma adolescência (Des Jeunes Filles Parlent), levam a concluir que na generalidade subsiste uma predisposição, pelo menos mental, para o Home. Na realidade, as entrevistadas que não ambicionam um futuro de donas de casa expõem uma atitude em relação ao amor e ao homem que, indirectamente, as conduzirão à sociedade conjugal nas coordenadas paternalistas. Paralelamente, a socióloga Betty Friedan apresenta resultados semelhantes em The Feminine Mystique, com data de Nova Iorque, 1959. Les jeunes esprits (féminins) se rencontrent...

Mas o mito serve, o mito é útil. Principalmente porque, acabada a guerra e reconduzida a mulher ao lar, dezenas de «trusts» converteram o seu dispositivo de produção em artigos domésticos ou afins.

As fibras artificiais, até então reservadas ao arsenal bélico, passaram a bens de consumo e simplificaram o vestuário e a decoração; a moda, industrializada, deixando de constituir um artesanato evoluído, facilitou a vida social feminina; os detergentes, os revestimentos sintéticos e a mecanização, substituindo o trabalho assalariado, isolaram ainda mais a dona de casa. De novo, Betty Friedan: «Os decoradores propõem quadros e murais nas cozinhas porque a cozinha passou da vida da mulher (...) Praticamente, ela só sai para fazer compras, passear o bebé ou acompanhar o marido».

Vendo bem as coisas, havia vantagens em fixá-la ao lar, quanto mais não fosse porque as indústrias orientadas na modernização doméstica não podiam deter-se. Assim, a máquina criava necessidades para novas máquinas, o desejo provocava novos desejos.

Os resultados não se fazem tardar. Em Male and Female, um estudo do comportamento in a changing (sic) world, a célebre antropologista Margaret Mead desenha o círculo vicioso que encerra a americana média: «Os novos equipamentos deixam-lhe cada vez mais tempo livre. Como demonstra o relatório de Brian Mawr, a actividade doméstica ocupa à mulher 60,55 horas nos aglomerados rurais, 78,35 h. nas famílias das cidades de menos de 100 000 habitantes e mais de 100 horas nos grandes centros urbanos».

A housewife bem comportada não tem estes números trágicos na agenda. A europeia ainda menos. Desconhecendo que a perfeita americana dispõe apenas de 4,77% de liberdade individual, o Home continua nas revistas e nos catálogos como um pequeno acre de Deus.

Entretanto, cadeias de rádio e de televisão, organizações particulares, a Imprensa, empenham-se na divulgação do mito: a dona de cãs é um consumidor de publicidade, um cliente localizado a horas certas. Por seu lado, o jornalismo feminino desenvolve-se, as tiragens aumentam e os redactores ajeitam a pena ao gosto da leitora: a partir de certa altura, as heroínas das novelas são estudantes ou profissionais que «escolheram a liberdade» votando-se ao lar. O retrato oficial é o da jovem sorridente na cozinha metalizada e o perfil psicológico dá-o Ladies Home Journal, Junho 59, nestes termos: «Quando os homens conversam ela jamais se intromete. Não pretende tomar parte nas discussões do marido nem nos problemas que o ocupam porque o seu bom-senso lhe recomenda que é preferível ser ele a solicitá-la».

Não resisto ao confronto com D. Francisco Manuel de Melo (1951): «Nos cuidados dos homens não se metem as mulheres, fiadas em que têm como nós entendimentos». O marialva da pax ruris reencontra a actualidade na pax americana...

[José Cardoso Pires, O Tempo e O Modo, 25/26, Os Mitos, p. 310-318, 1965]

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