terça-feira, março 8

 

O MITO DA MULHER: O «HOME» — SOLIDÃO E AR CONDICIONADO [V]


Bombardeamento de Bikini, derrota da Coreia, lutas raciais e McCarthy, as fracturas, em resumo, que se operaram na consciência americana estremeceram a confiança elementar e perturbaram a estabilidade psicológica da mulher média dos Estados Unidos. Simultaneamente, a falta de actividade cívica e a crença num praticismo científico (acentuação, talvez, pelo contacto imediato com uma realidade mecanizada), tudo isso levou a desprevenida dona de casa a procurar a solução e a descarga das suas alterações na vitamina Psicanálise.

O libelo é banal, bem sei. Nas teses sobre U.S.A., o capítulo da Psicanálise tem o lugar das calúnias e das virtudes. Todavia, não é o método clínico que está em causa. Nem o revisionismo dos seus mais actualizados cientistas. O que se considera é a apropriação da doutrina de modo a torná-la fundamento da mitologia do Home.

O postulado das inferioridades femininas («O destino é imposto pela anatomia» — Freud clamavit) justifica-lhe socialmente o casamento como meta irreversível e a definição da mulher como personalidade marcada por um complexo de castração, que se compensa sexualmente por um protesto viril, convém aos privilégios da mentalidade paternalista. Além disso, «é sempre em função das ligações com o passado, e não em função de qualquer futuro, que a Psicanálise explica o indivíduo», observa Simone de Beauvoir, e este ponto tranquiliza ainda mais o conservantismo dos receosos do mundo de amanhã.

Nada obsta, portanto, à divulgação das soluções freudianas que, a breve trecho, seriam uma prática confessional, um derivativo da solidão da dona de casa ianque. Isso não aconteceu por acaso, como não foi por acaso que proliferaram o sociodrama e as terapêuticas de grupos. Os interesses que juntavam essas pessoas criavam-lhes um sentido de comunidade e de «apostolado» que se dedica à descoberta do erro, à criação de uma nova cofiança. Daí que a Psicanálise — cito outra vez Betty Friedan — seja hoje «a panaceia americana, uma religião. Tornou-se uma ocupação do espírito, mobilizou o pensamento de uma grande massa que já não encontra justificações suficiente na igreja, na pátria ou no dinheiro e que está cansada de se sentir responsável pelos linchamentos e pelos campos de concentração nas Índias e na África».

Perante tão complexa diagnose não há dúvida que é mais imediato e menos corrosivo exercer uma terapêutica ao nível dos sentimentos e dos reflexos, ao nível da personalidade e da família, do que remexer nas causas colectivas dessas perturbações. Evidentemente.

[José Cardoso Pires, O Tempo e O Modo, 25/26, Os Mitos, p. 310-318, 1965]

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