terça-feira, março 8

 

O MITO DA MULHER: O «HOME» — SOLIDÃO E AR CONDICIONADO [VI]


Ao bem gosto e à decência assusta tanto o puritanismo masculinizado das sufragistas como o exibicionismo do sex appeal para marinheiro ver e recortar. Desde o símbolo de Jayne Mansfield, extra-conjugal e laivado de um erotismo de impotência, até à esposa feliz que centraliza a representação do Home, processa-se uma verdadeira revisão do conceito americano de feminino.

O próprio novíssimo evangelho (de Freud) apadrinha essa evolução, visto que alguns dos seus apóstolos não só condenam qualquer actividade feminina que não seja doméstica, como atribuem à emancipação e à cultura as dificuldades físicas experimentados no amor. Helen Deutsch, com a sua autoridade reconhecida, fala por todos: «A mulher paga as suas aquisições intelectuais com a perda de preciosas qualidades femininas. As informações colhidas confirmam que a mulher intelectual é masculina».

Somem-se a esta declaração os resultados negativos que Kinsey retirou das 5940 americanas do seu relatório, considere-se o sonho do casamento como meio de integração social, e compreender-se-á a ânsia de feminilidade das raparigas americanas sob a bandeira do Home. Exteriorizações desse estado de espírito? Várias e em toda a parte. G..., ao regressar dos Estados Unidos, contou-me que viu crianças de dez e doze anos vestidas de senhorinhas, de saltos altos e cabelo arranjado. As investigações de Brian Mawr assinalam que é vulgar as estudantes utilizarem uma linguagem diante dos rapazes diferente daquela que usam entre elas. E, por fim, The Feminine Mystique revela outros dados avulsos: «Os fabricantes lançaram no comércio soutiens e seios artificiais para meninas de dez anos (…) Num número de Outono de 1960, o New YorK Times anunciava um vestido infantil proclamando: Também Ela Pode Vir a Conquistar Um Marido.(…) As alunas de uma universidade usam ostensivamente o emblema WAM — wives and mothers, esposas e mães — e o próprio estabelecimento difundiu o seguinte lema: A instrução que ministramos nesta Casa não se destina a fazer génios mas autênticas esposas». E etc..

(Mais uma vez cedo às comparações. D. Francisco Manuel de Melo: «O melhor livro é a almofada e o bastidor». Júlio Dinis: «Por quem é, deixe-me ser mulher. Não sabe que odeio a lógica

O preconceito anti-intelectual, que está patente no código marialva, é, ao fim e ao cabo, uma das premissas da Mulher Mistificada 1965).

[José Cardoso Pires, O Tempo e O Modo, 25/26, Os Mitos, p. 310-318, 1965]

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