quinta-feira, março 3

 

O BUSTO DE NAPOLEÃO


«Em 1837, António Bernardo da Costa Cabral, deputado ao Congresso Constituinte, tinha um único casaco, com uma gola ensebada de pele de cabrito e os cotovelos rotos. Usava camisas coçadas e botas de camponês. A mulher não saía por vergonha dos vestidos e, em casa, uma casa «nua e triste», segundo um frequentador habitual, havia, a título de ornamento, um espelho estragado, um papagaio de barro e o busto de Napoleão.

O busto de Napoleão era um programa. Durante cem anos, em Portugal, em Espanha, em França, nos pequenos principados italianos e alemães, jovens ardentes partiram das suas aldeias de província, esfaimados e maltrapilhos, em direcção aos sótãos de Lisboa ou Paris, de Turim ou Madrid. Iam à conquista do mundo: de dinheiro, de glória e de poder. Chamavam-se Julien Sorel, Rastignac, Rubempré ou coisa que o valha e sentiam neles o destino de um novo Napoleão. Napoleão provara que se podia ser tudo. De pouco mais que um miserável camponês corso chegara a pouco menos que dono da Europa. As carreiras, como ele dissera, estavam abertas aos talentos. Todas as carreiras a todos os talentos. Nomeadamente, a carreira política.

Na política inglesa, isto não aconteceu. Um ou outro «talento» conseguiu introduzir-se na classe dirigente, mas, fora Disraeli, nenhum passou de lugares secundários e subordinados. Em Inglaterra, entendia-se que para governar eram precisas duas qualificações que normalmente os admiradores de Napoleão não tinham, como ele antes não tivera: nascimento e fortuna. Nos nossos tempos democráticos e republicanos, esta exigência parece aberrante, ou até imoral, e é fácil não se ver a sua notável utilidade. O nascimento assegurava que a hierarquia e o prestígio de um indivíduo não eram afectados pela sua posição política e que, por conseguinte, ele não seria movido pelo desejo egoísta de se promover na sociedade ou de ocupar nela um lugar visível. A fortuna assegurava que ele não usaria os cargos que eventualmente ocupasse para lucro próprio. Em conjunto, nascimento e fortuna garantiam o que se considerava a qualidade essencial de um político e de um estadista: a independência. Ou, por outras palavras, a indiferença a ganhos pessoais e a capacidade de resistir aos poderes que tentassem coagi-lo: ás grandes instituições (à Igreja e ao Exercito, por exemplo), aos chefes de partido ou de facção e mesmo (quando apareceu) ao eleitorado. O político e, sobretudo, o estadista devia decidir em absoluta liberdade. Só assim serviria bem ao seu país. A política não era uma carreira, era um dever dos privilegiados.

A democracia abriu a política aos talentos, mas como carreira, e, nos casos extremos, acabou por fecha-la a toda a gente excepto aos carreiristas, ou seja às pessoas mais dependentes e menos livres. Imaginemos os nossos políticos: os do governo ou os dos secretariados do PS. Que independência têm? Em primeiro lugar, que independência económica? Regra geral, nenhuma: a maior parte trabalha directa ou indirectamente para o Estado. Se cair em desgraça regressa aos antigos empregos, quase sempre desinteressantes e mal pagos. Se se portar bem, talvez apanhe, ou venha a apanhar um prémio de consolação: um lugar na Europa, uma embaixada, a presidência de uma empresa pública. Pode contar-se com eles, ou com elas, para defenderem em situações difíceis para o que acham justo e necessário? Com a esmagadora maioria, não pode. Em público a esmagadora maioria é invariavelmente unânime no seu amor e admiração pelo poder estabelecido, mesmo se em segredo rosne como os cães. Rosna e não morde, porque o seu futuro material está em jogo e com o dinheiro não se brinca.

Não há políticos com dinheiro ou com bons empregos privados, que não precisam da política para viver? Se descontarmos os que precisam da política para tráfico de influência (porque andam pelos ministérios a arranjar contratos, subsídios, autorizações e trapalhadas equivalentes); se descontarmos os que pagaram os seus empregos com favores aos futuros patrões; se descontarmos os representantes laicos da Igreja e de outros centros de pressão; se descontarmos todos esses, há muito poucos. E ainda menos, se se levar em conta que, numa era de publicidade, a política confere um prestígio espúrio, susceptível de ser transaccionado como qualquer mercadoria. Dispersos por comissões, fundações, universidades (particulares), jornais e dezenas de organismos indiscretos, estão centenas de idiotas crónicos, a pretexto da política.

Pior ainda: em sociedades de massa como a nossa o reconhecimento é metade da vida. Observem-se as pobres figuras que ocupam a cena portuguesa. Se não fossem políticos, o que seriam? Maus empresários, maus advogados, maus engenheiros, maus economistas, maus académicos. Praticamente nenhum se distinguiu em nada e vários se distinguiram pela sua enorme indistinção. Se não fossem políticos, não existiam. A luz da política é que lhes dá uma existência precária, entre a obscuridade de onde vieram e as trevas a que, tarde ou cedo, voltarão. Pendurados por um fio, não falam nem se mexem com medo que o milagre acabe. O sr. ministro e o sr. secretário sem V. Ex.ª, transformados no sr. Lopes e no sr. Silva, banidos do Telejornal e da Olá!, dos centros de mesa e da inauguração da sede dos bombeiros, literalmente morrem. Não têm substância, têm posição. Ou melhor, a sua substância é a sua posição.

Os políticos democráticos dependem. Dependem dos votos, o que se justifica, e se justificaria mais, se eles os não comprassem como os compram. Dependem dos partidos que os apoiam e dos interesses que financiam esses partidos. Dependem dos seus chefes e dos seus clientes. Dependem dos jornais e da televisão. Dependem do Estado que os alimenta e do poder que os cria. Não são livres. Não são livres de agir racionalmente ou contra os interesses que os pagam ou toleram. Não são livres de dizer o que pensam aos eleitores, aos chefes, aos clientes, aos jornais, à televisão e até a si mesmos. As sociedades democráticas foram pouco a pouco eliminando a verdadeira dissidência política. A liberdade fundava-se no poder e, quando nos tornamos todos iguais, acabou a liberdade e nasceu o «consenso».

Os filhos dos merceeiros de Algodres, como Costa Cabral, já não compram o busto de Napoleão para se contemplarem nele. Há muito tempo que conquistaram o mundo e o fizeram, no Ocidente democrático, à sua imagem e semelhança. Um mundo de «vencedores» e de conformistas, de Reagans, Thatchers e Cavacos, a que é estranha a própria ideia de crítica e a que ninguém consegue resistir, por iníquo, insensato e vulgar que seja. António Bernardo Costa Cabral foi finalmente derrubado pela Câmara dos Pares. Não pela Câmara dos Deputados, que ele fabricava. Pela Câmara dos Pares.»

[Vasco Pulido Valente, O Independente, 24 de Março de 1989]

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