quinta-feira, março 31

 

Helen Frankenthaler


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O' Neill no Pula Pula - post n.º 3


«Começava a comer a sopa pelos bordos do prato; depois, desinteressava-se.»

 

O caneiro de Alcântara


A malta da discoteca está de regresso à Câmara. Tem seis-meses-seis pela frente. Se a lei atrapalha, Napoleão, Eduarda de seu nome próprio, dá a volta ao texto: «
É uma forma diferente de trabalhar.» Com certeza que é. E é precisamente por isso que não seria totalmente descabido que a Inspecção-Geral da Administração do Território (ou a Inspecção-Geral de Finanças ou o Tribunal de Contas) desse uma vista de olhos à papelada dos terrenos de Alcântara. Ou até, que diabo!, a Procuradoria-Geral da República, que não há-de passar os dias inteiros a fazer comunicados a anunciar que não investiga seja o que for: «Informa-se que não foi, até ao momento, instaurado pelo Ministério Público qualquer processo-crime relacionado com a adjudicação de um sistema de comunicações para as polícias, da responsabilidade do ex-ministro da Administração Interna».

 

31 de boca - uma forma peculiar de desburocratização do Estado


Adjudicação do SIRESP STOP Negócio de 538 milhões STOP Assinaturas de Daniel Sanches e Bagão Félix três dias após as legislativas STOP
Parecer oral do auditor jurídico do Ministério da Administração Interna.

AA, co-autor de um dos blogues nascidos dos escombros do 20 de Fevereiro, pareceu ter ficado mal disposto por o Pula Pula ter feito alusão ao negócio do SIRESP. Aguarda-se um comentário sobre a problemática dos pareceres orais em negócios envolvendo o Estado.

 

Contradição nos termos


Estão a ver quem é Couto dos Santos, aquele secretário de Estado de Cavaco Silva, que, depois de umas trapalhadas, foi empurrado para ministro da Educação, e que, com mais umas trapalhadas no curriculum, se viu forçado a pedir asilo à associação dos amigos de Ludgero Marques? Imaginam-no com palpitações intelectuais? A verdade é que agora é um homem de Cultura: presidente do conselho de administração da Casa da Música, oferece ao povo do Norte Lou Reed e Alfred Brendel, Marisa e Joe Lovano. A realidade ultrapassa sempre a ficção.

quarta-feira, março 30

 

O' Neill no Pula Pula - post n.º 2


"Ele a esfaquear a mulher e a Volta a passar! «Que fazer?» Largou a faca, correu para a estrada e aplaudiu às mãos ambas os ciclistas, como qualquer outro."

terça-feira, março 29

 

O' Neill no Pula Pula - post n.º 1


«Regra para lojistas: Não pôr os cotovelos no balcão

 

Cenas da vida empresarial


Na sequência da tentativa de impedir, na última semana, a descarga de um navio carregado com madeira exótica no porto de Leixões,
ambientalistas da Greenpeace e da Quercus bloquearam hoje o acesso à Vicaima - Indústria de Madeiras e Derivados, S.A., cujo lema é «Portas inspiradas na vida». A empresa é acusada pelos ambientalistas de trabalhar com madeira exótica não certificada proveniente da Amazónia.

Ao chegarem esta manhã às instalações, os administradores da Vicaima não gostaram do que viram. O proprietário, Álvaro Pinho da Costa Leite, que também possui o Finibanco, tratou logo de demonstrar o seu desagrado, sovando um operador de câmara da SIC; um outro administrador, filho do proprietário, não quis ficar atrás do pai e foi aos fagotes de um dos manifestantes que estava acorrentado aos portões da empresa. À antiga portuguesa, como se vê.

A Greenpeace e a Quercus agradecem a publicidade gratuita. O mundo fica a conhecer melhor o tecido empresarial português – e como o tempo não passa em Vale de Cambra.

segunda-feira, março 28

 

Marcelo e o PEC


A gente ouve Marcelo a discorrer sobre os países que cumprem os limites do défice. Fica a saber que os maus alunos são a França e a Alemanha. Fica a saber também que Portugal está, pela mão de Barroso e Ferreira Leite, entre os melhores alunos, aos quais os cábulas não querem deixar fazer exame. Tudo bem. O problema está em voltar a pegar no Expresso e verificar que o défice do governo de Santana/Portas/Bagão disparou para mais de seis por cento. Ana Sousa Dias, como se sabe, pode receber prendas, mas não pode fazer perguntas.

 

E as outras?


«
Em 1980, os velhos ministros de Salazar já ensinavam na Universidade Católica, que desde essa altura se tornou na principal escola de quadros da direita.»

 

E a Igreja?


Vasco Pulido Valente no
Público de Domingo:
«Que num debate sobre a direita, a uns dias do referendo sobre o aborto, e quando se recomenda o "debate ideológico", a Igreja não se mencione é um contra-senso ou uma fuga.
Ontem, em conversa com este jornal, as cabeças pensantes da direita portuguesa conseguiram o milagre de falar da direita sem falar da Igreja. Voluntária ou involuntária, esta omissão é curiosíssima. Por várias razões. Primeiro, porque a história e a própria existência da direita sempre esteve, e continua a estar, ligada à Igreja. O miguelismo foi uma aliança entre o trono e o altar e o anti-clericalismo dividiu os campos durante todo o século XIX e mais de metade do século XX. Ninguém conseguia ficar neutro ou sequer à margem. Ou se estava de um lado ou se estava do outro. A literatura (incluindo o ensaio) reflecte, aliás, muito fielmente o que sucedia na sociedade e na política. De Garrett a Sérgio, corre, página a página, um ódio inextinguível à Igreja e ao padre, que nenhum católico conseguiu contrariar ou sequer mitigar. A Monarquia caiu em grande parte por causa da "questão religiosa" e a República ou, mais precisamente, o Partido Democrático de Afonso Costa não passou em grande parte uma perseguição endémica à Igreja.
Mas, no fim, a Igreja ganhou. Salazar era a sua criatura e o Estado Novo o seu regime. Muito se tem escrito sobre a independência que Salazar supostamente assegurou ao Estado. Não assegurou nada. A Ditadura vivia do facto, para ela feliz, de existir um pároco em cada paróquia. Não precisava de um partido único para doutrinar, vigiar e reprimir a população. A Igreja bastava e, quando ela faltou, depois do Concílio e de Paulo VI, tudo tremeu e se desfez. Caetano, coitado, acabou sem fé. Mas, durante o PREC, a Igreja resistiu e ainda em 1979, na campanha da AD, assisti a muita missa em que se proibia o voto no PS, por ser obviamente um "partido marxista". Em 1980, os velhos ministros de Salazar já ensinavam na Universidade Católica, que desde essa altura se tornou na principal escola de quadros da direita.
Fora esta realidade crua e dura, também não se vê bem como qualquer "refundação" do CDS ou do PSD possa a prazo prescindir dos valores da Igreja e do seu apoio institucional activo. Não por acaso aumenta constantemente o número de políticos que exibem com clamor o seu catolicismo. Eles sabem que precisam de uma referência ao mesmo tempo popular e sólida para moderar ou conter o "politicamente correcto". Que num debate sobre a direita, a uns dias do referendo sobre o aborto, e quando se recomenda o "debate ideológico", a Igreja não se mencione é um contra-senso ou uma fuga.»

 

Diz o roto ao nu


Rainier do Mónaco, que está gravemente doente, recebeu uma benção de João Paulo II, que também está gravemente doente. Que critérios adopta o Vaticano para privilegiar Rainier?

sábado, março 26

 

… e legisla... e legisla... e legisla


Entram hoje em vigor as alterações ao Código da Estrada. Ainda não há muito tempo li algures que prescrevem todos os anos centenas de milhares de coimas devido à falta de meios para aplicar o Código da Estrada. É mais barato legislar do que fazer cumprir as leis em vigor.

 

É lúgubre


Vasco Pulido Valente no Público de hoje:

«Apareceu em cena um novo grupo com o propósito pouco original de salvar a Pátria e "refundar" a direita, neste caso o PSD. O chefe é o miraculado António Borges (que Deus salvou de um desastre de avião para nosso futuro gozo e benefício) e os comparsas já anunciados Leonor Beleza, Rui Rio, Aguiar Branco, Jorge Bleck (quem?...), Silveira Botelho e Alexandre Relvas. Como de costume, o chefe foi à televisão (à RTP, evidentemente) dizer de sua justiça e, como de costume, não tinha nada a dizer. Tudo espremido, Borges não passou da velha panaceia liberal, mil vezes repetida desde Thatcher e Reagan: reduzir o Estado, baixar impostos, privatizar e desregular. Falou também na "integridade" da política e no espírito de serviço público, duas baboseiras sem sentido, que ele piedosamente toma a sério. Se ele quer de facto, e jurou que sim, "discutir ideias", tem de arranjar primeiro meia dúzia delas.

O mal disto não é o exercício em si, que de resto a lei garante e protege. O mal é a espécie de indivíduos que hoje sentem em si próprios a irresistível vocação de nos pastorear. De onde vêm eles? Que tradições representam? Quem os recomenda e apoia fora do pequeno mundo em que circulam? Ninguém sabe. Aconteceu o mesmo com o Compromisso Portugal e o Portugal Positivo. Um certo sucesso, uma certa competência e muita "modernidade" saloia chegaram para convencer personagens dolorosamente modestas da sua importância e lucidez. Para governar bem, julgam elas, basta aplicar as boas regras, como qualquer gestor em qualquer empresa ou em qualquer país "competitivo". A suspeita de que há uma diferença entre Portugal e a Irlanda ou, por exemplo, a Goldman Sachs não penetra, nem pode penetrar, naquelas cabeças.

Embora substancialmente melhor e com uma vida que de Boliqueime a São Bento lhe ensinou muita coisa, Cavaco inaugurou a estirpe dos políticos que não conheciam Portugal: a história, a sociedade, a cultura. Estes de agora só vão até ontem. Antes de Cavaco o país não existia e hoje só existe como abstracção estatística. Daí a presunção absurda de que ele é uma massa moldável, a que basta aplicar as pressões convenientes, com o indispensável complemento de optimismo e fé: o famoso "acreditar em nós" tão útil no futebol e na economia. Não se consegue imaginar indigência mental mais devastadora e lúgubre. Mas com certeza o PSD vai gostar.»

quinta-feira, março 24

 

O vigor canalizado para boas causas


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Deus exemplifica aqui.

 

Primeiras páginas do século passado [18]


Assim ia o país no dia 30 de Outubro de 1999. Marcelo, o professor que costuma deixar a excelente Ana Sousa Dias aos tremeliques, confessava-se ao Expresso: «Não tenho perfil para candidato a Belém». Note-se: o que aparentemente lhe falta não é perfil para presidente, mas para candidato… Para ter de se fazer à estrada. Cerca de cinco anos depois, mais precisamente ontem, num jantar/debate intitulado «Conversas com Marcelo», no feudo de Alberto João, que não apoia o outro professor, Marcelo lá foi dizendo: «Em função ao futuro não vale a pena fazer declarações dogmáticas e definitivas no sentido de que, eu, nunca mais vou fazer...», rematando assim: «Nunca, nunca, nunca, é difícil dizer nunca». E por que está o outro professor em vantagem na corrida para Belém? Marcelo descortina três razões: primeiro, porque «está em fim de carreira», contrariamente a Marcelo, subentende-se; segundo, porque «mostra vontade de ser candidato», diversamente de Marcelo, que não tem perfil… para candidato; terceiro, porque «beneficia de um contexto favorável devido à actual maioria de esquerda, na lógica, referiu, de que os portugueses não gostam de pôr "todos os ovos no mesmo cesto"» - o que a realidade política vem comprovando de cinco em cinco anos, como se sabe. Cristo... Páscoa, diz-vos alguma coisa? A gente ainda se vai divertir muito.

 

Eu que não sou de intrigas


Constou-me que o Rodrigo Moita de Deus foi deixado sozinho em casa.

quarta-feira, março 23

 

Um adeus português


«Já sabemos, país, que és um homenzinho...» Vai. A gente vai-se vendo por aqui e por ali.

 

Mary-Ann


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Ronald B. Kitaj, Mary-Ann, 1980

 

Que fazer à noiva do Bagão?


Não gosto de Catalina. Não é por a senhora ter vindo aos trambolhões da UMAR para os braços do Bagão. Não gosto de Catalina porque a senhora esteve anos a fio a revolver-se no lamaçal da Casa Pia e só tarde de mais descobriu o horror. Não gosto de Catalina porque a senhora, de braço dado com Roberto Carneiro, quer transformar definitivamente a Casa Pia num gueto. Ao fazer da instituição uma «escola profissionalizante», circunscreve-a aos mais pobres – cortando as pontes com outros extractos da população que também a frequentam por enquanto. E, ao fazê-lo, decreta que os pobres não podem ser «doutores». Catalina é parte do problema – e não da solução da Casa Pia. Como pensa o Governo resolver o problema?

 

Habituem-se!


O circunspecto Ministério das Finanças está diferente. Ao contrário dos outros departamentos do Governo, aqui palra-se muito – alto e em bom som. Não era hábito do Terreiro do Paço discorrer na praça pública sobre a situação concreta dos contribuintes – até agora. Ontem, graças a um comunicado do Ministério das Finanças, que quebra a relação de confidencialidade em que assenta o sigilo fiscal, ficou a saber-se que o BCP recebeu um reembolso de IVA indevido, no valor de 42 milhões de euro, em resultado de uma operação cujos contornos são muito discutíveis (e que estão mal descritos
aqui e ali). Costumávamos ter governos agitados - com ministérios das finanças discretos. Agora, temos o oposto. Habituem-se!

Em tempo – Este episódio que envolve o BCP dá-nos uma ideia de como se desenvolvem os grupos financeiros em Portugal. E de como os fins justificam os meios. Acontece, no entanto, que nem sempre as multinacionais de auditoria vendem ideias que não suscitem dúvidas «sobre a legitimidade e ou regularidade tributária de todo este negócio.» O reinado de Jardim Gonçalves acaba mal.

 

Falar em financês


Pode ter sido insuficiência dos jornalistas que narraram o que se passou na Assembleia da República aquando da discussão do programa do Governo. Mas a verdade é que, em matéria fiscal, o que veio a público é surpreendente. Diz-se que o ministro das Finanças se comprometeu a aligeirar o sigilo bancário e a legislar para melhor combater as «facturas-carrossel». Sucede que estes dois propósitos fazem parte da Lei do Orçamento do Estado para 2005: as alterações ao sigilo bancário constam do artigo 40.º, n.º 1 (artigo 63.º-B da Lei Geral Tributária); e o artigo 30.º, n.º 12, adita o artigo 72.º-A ao Código do IVA, precisamente sobre a responsabilidade solidária pelo pagamento do IVA em falta. Ninguém informou previamente o ministro das Finanças?

 

O PS face às negociatas a coberto do Estado


O PS quer dar um sinal de que as coisas vão, a partir de agora, ser diferentes? Então esclareça as situações que vão sendo conhecidas, não temendo levar até às últimas consequências as investigações. Mas se quiser que algo mude para que tudo fique na mesma, então o actual governo pode produzir mais legislação, em lugar de aplicar a que está em vigor.

 

A política dos valores: alguns exemplos


1.º exemplo:

"
«Portas gasta 47 milhões de euro já depois das eleições - O ex-ministro da Defesa autorizou mais um negócio durante a gestão da anterior maioria. Treze dias depois das eleições legislativas comprou 24 torpedos»."

2.º exemplo:

"
O ex-ministro da Administração Interna, Daniel Sanches, assinou um despacho conjunto com o responsável pela pasta das Finanças, Bagão Félix, três dias após as eleições legislativas, adjudicando um sistema de comunicações, no valor de mais de 500 milhões de euros, a um consórcio liderado pela Sociedade Lusa de Negócios (SLN), uma holding para a qual o próprio Daniel Sanches trabalhou, antes de integrar o Governo de Santana Lopes.
Manuel Dias Loureiro, deputado do PSD e presidente da mesa do congresso, também está ligado a este grupo como administrador não executivo. O ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais de Cavaco Silva, Oliveira e Costa é o presidente da SLN.
"

3.º exemplo:

"
O estudo encomendado pelo Ministério da Administração Interna sobre a estratégia de combate aos incêndios florestais conclui pela necessidade de compra de seis aviões Canadair. Negócio no valor total de 150 milhões de euros e que será concretizado através da Omni - Aviação e Tecnologia, representante exclusiva das aeronaves em Portugal. A Omni faz parte do universo do Banco Português de Negócios (BPN), ao qual o ministro da Administração Interna, Daniel Sanches, esteve ligado como administrador de várias empresas antes de entrar para o Governo de Santana Lopes. E o BPN, por sua vez, está integrado na holding Sociedade Lusa de Negócios (SLN), à qual está ligado o deputado e dirigente do PSD Manuel Dias Loureiro."

terça-feira, março 22

 

Valor, preço e lucro


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Ronald B. Kitaj, Value, price and profit, 1963

segunda-feira, março 21

 

Gosto muito de te ver, leãozinho



 

Os amigos são para as ocasiões


Vá lá saber-se porquê, há por aí gente que não gosta de Narciso Miranda.
Luís Nazaré não compreende tal animosidade. Se a próxima campanha de marketing de Narciso tiver algum efeito prático, Nazaré compromete-se a fazer-se sócio do Leixões (e do Leça, não?). Eu vou mais longe: se Vital Moreira retirar a password a Nazaré, impedindo-o de continuar a escrever no Causa Nossa, eu faço-me sócio da Académica.

 

Acerca dos pregadores de moral


Luís Salgado de Matos é um homem de muitos ofícios. Ele é assessor, ao que se julga político, do Presidente da República – e assessor em regime profissional, isto é, remunerado, com subsídios de férias e de Natal, etc., etc.. Ele é também investigador do Instituto de Ciências Sociais e é, além disso, professor da Universidade Católica. Ele é ainda cronista de temas políticos do Público e da Rádio Renascença – cronista regular, naturalmente remunerado.

O que é intrigante é saber se há coincidência entre as análises políticas que elabora para Sua Excelência o Presidente da República e as outras que faz para o comum dos mortais, aqueles que são leitores do Público e aqueles outros (ou os mesmos) ouvintes da Rádio Renascença. E das duas, uma: ou as opiniões que iluminam o Senhor Presidente da República e aquelas outras que nos iluminam a nós, leitores e ouvintes, são coincidentes, e o Orçamento do Estado poderia então poupar aos contribuintes os salários e subsídios que lhe são pagos pela Presidência da República, ou não são coincidentes, e confrontamo-nos com o paradoxo de não ouvir as opiniões que pagamos e de apenas podermos ouvir (ou ler) as que não pagamos.

A moral da história é que, em boa ética republicana – de que o assessor/ investigador/ professor/ cronista parece ser um devoto apóstolo –, Luís Salgado de Matos, por ser assessor de assuntos políticos do Presidente da República, e de ser regularmente remunerado por isso, deveria coibir-se de ganhar dinheiro expendendo as suas opiniões políticas igualmente remuneradas em órgãos da comunicação social. Sobretudo quando as suas opiniões se limitam a «explicar» por que é do nosso interesse colaborarmos na redução das remunerações e dos direitos sociais. Ou dito de outra forma: ou há moralidade ou…

domingo, março 20

 

Do hemiciclo para as quatro linhas


O clube de futebol representativo de seis milhões de portugueses já concluiu sete jogos do campeonato com mais jogadores do que as equipas que defrontou. É o método de Hondt aplicado ao que se passa «dentro das quatro linhas».

sábado, março 19

 

MacGuffin, um blogger às direitas



Imagem roubada ao… Contra a Corrente

Dois anos a dar ao dedo: é obra! Parabéns, MacGuffin, pelo Contra a Corrente, de que sou um leitor inveterado, embora um «discordante» crónico.


 

O comprometido espectador


«Uma vez dada a palavra às armas, a finalidade passa a importar mais do que a origem. Quais são os objetivos dos beligerantes? Quais seriam os resultados prováveis da vitória de um ou de outro? Em suma, que se pretende com a guerra? Que diferença essencial haveria entre os dois mundos, sob o domínio de Atenas e de Esparta? Sob o domínio do II ou do III Reich e sob o domínio dos russos e anglo-saxões?»

[Raymond Aron, «Paz e Guerra entre as Nações», Brasília, Editora Universidade de Brasília, Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, 2002, pág. 145]

sexta-feira, março 18

 

A pujante escola de Luís Delgado


«Estamos, apesar de tudo, numa fase natural do estado de graça, a que todos os governos têm direito. E que tem vantagens universais - ou alguém acredita que será no meio da balbúrdia que o País encontra a solução para as inúmeras crises que o apoquentam?»

Editorial de hoje do DN

 

«Razão antes do tempo»


«
Aron (…), até 1942, sempre se recusou a condenar liminarmente Vichy e o armistício, em que via vantagens reais para o povo francês.»

quinta-feira, março 17

 

Franco alçado


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«Franco desaparece del paisaje de Madrid»

 

Chicago boys: teoria aplicada


Uma nova investigação do senado americano concluiu que Augusto Pinochet possuía nos Estados Unidos uma fortuna calculada em 13 milhões de dólares. O ditador chileno utilizou passaportes falsos para a abertura de contas.

Uma parte dos depósitos foi confiada a uma subsidiária do Banco Espírito Santo: les bons esprits se rencontrent.

 

O móbil do crime


Os jornalistas vendem o que os outros fazem. Pode um semanário como O Crime publicar um editorial a arrasar os criminosos, contribuindo assim para matar a sua galinha dos ovos de ouro?

terça-feira, março 15

 

«Chamem-me o que quiserem»*


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* Pedro Santana Lopes, quando questionado hoje pelos jornalistas sobre se deveria ser tratado por presidente da Câmara


 

«Os medicamentos de venda livre devem estar disponíveis nos supermercados?»


«Este inquérito foi suspenso devido à constatação de uma fraude na votação. Foram detectadas máquinas que contornavam o sistema de validação concebido para impedir a repetição do voto pela mesma pessoa e que votavam sistematicamente na opção NÃO.»

Inquérito promovido pela edição on-line do Público

domingo, março 13

 

A aspirina no centro do mundo


Sócrates fez um aviso público às corporações. A distribuição da aspirina converteu-se no símbolo da luta contra os privilégios - nalguns casos, medievais - das corporações.

 

TPC - Exercícios práticos


«O banco suíço UBS fez as contas e chegou à conclusão que o peso dos lucros nas empresas dos sete países mais ricos do mundo atingiu no ano passado o rácio mais alto de sempre em relação ao PIB (14 por cento). Os lucros depois de impostos das empresas norte-americanas atingiram em 2004 os valores mais elevados dos últimos 75 anos. Em relação a 2003, os lucros operacionais de 350 empresas europeias listadas pela Standard and Poor"s registaram um aumento médio de 78 por cento. A edição mais recente da Forbes notou que, no ano passado, o número dos afortunados com mais de mil milhões de dólares aumentou de 587 para 691.

Pode-se argumentar que, em boa parte, os bons resultados das empresas se deve a fortes ganhos de produtividade, à excelência da gestão ou ao momento único que resulta da viragem do ciclo económico. Pode-se também afirmar como válida a tese segundo a qual, em alguns países, os lucros beneficiam não apenas milionários, mas também as famílias que canalizaram parte das suas poupanças para o mercado de capitais, ou até os desempregados, destinatários naturais do reinvestimento. Tudo isso pode ser verdade, mas também é certo que esta conjuntura contrasta com o agravamento do desemprego na Europa, com a precariedade do emprego nos Estados Unidos e, principalmente, com o desequilíbrio crescente entre o rendimento disponível das camadas da população mais rica e mais pobre das economias avançadas.

Ainda parece ser cedo para adivinhar a tendência do capitalismo nos próximos anos, mas os sintomas recentes mostram que o agravamento das iniquidades da redistribuição de riqueza são uma ameaça potencial aos consensos políticos e ao modelo económico construídos nas últimas décadas. As lutas sociais que a combinação de lucros exponenciais com salários congelados deixa adivinhar, não é bom augúrio.»

 

A reinvenção do jazz


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Dave Douglas


Ontem, no CCB, um concerto sublime: «música para montanhas imaginárias». Além do mais, Bush ficou com as orelhas a arder.


sábado, março 12

 

Bem prega Frei Tomás...


Conta hoje o Expresso que o governo Santana/Portas decidiu conceder mais 90 dias – perdoando juros compensatórios e coimas – à Igreja Católica, para que esta instituição se resolva a começar a pagar impostos nos termos da nova concordata. A decisão do Governo viola não só a lei como contraria a jurisprudência sobre a matéria. Sendo que um dos temas recorrentes das prédicas do Cardeal Patricarca de Lisboa é o do dever moral de os os cidadãos (e os católicos, em particular) pagarem impostos, é caso para recordar os usos e costumes de Frei Tomás.

 

Para que o ex-poder não caia na rua...


... o Expresso anuncia que um das possibilidades para arranjar sustento a Santana Lopes é atribuir-lhe «um cargo simbólico como, por exemplo, consultor da Caixa Geral de Depósitos – à imagem do que sucedeu com António Guterres quando abandonou S. Bento, em 2002.» Quando, dentro de dias, forem publicados os relatórios e contas anuais das instituições financeiras, os nossos liberais de estimação não deixarão de realçar as virtudes da gestão privada. Sem mencionar as peripécias que envolvem a gestão das entidades que fazem parte do sector público empresarial.

sexta-feira, março 11

 

«Economia portuguesa volta a entrar em recessão técnica»


Contas feitas: a herança da coligação Barroso/Santana/Portas é
esta (episódio n.º 1). O Rui M. Cerdeira Branco indica, no Adufe e na GLQL, o link para o documento elaborado pelo INE.

quinta-feira, março 10

 

Um mal (quase) geral


«Eu queria poder pensar demorando-me.»

 

Ainda a entrevista de Castells ao Público: «A bolha europeia»


PÚBLICO – Um modelo capitalista como o Europeu, com o seu modelo social, pode sobreviver num mundo em que outros tipos de capitalismo — sobretudo o chinês — impõem regras muito mais duras? Ou a Europa é uma bolha que pode rebentar?

MANUEL CASTELLS – É frágil. Falando claro: só é possível em termos económicos com o aumento da produtividade. Está certo que desejemos ser competitivos vivendo melhor e não vivendo pior. Mas isso só pode ser alcançado pela inovação tecnológica e organizativa. Temos de nos transformar numa verdadeira economia do conhecimento (na prática, há bastante pouco conhecimento na nossa economia). Se pensarmos no investimento em I&D em proporção do PIB, vemos que a Europa está mal. A Finlândia está bem — investe 3,2 por cento — mas Portugal está muito abaixo da média europeia.

Na Europa — e em Portugal, em particular — o problema são as empresas. As empresas não investem em I&D. Acreditam que comprar a tecnologia já chega. Mas não chega, porque ela é cara, é má, e a empresa muitas vezes não a consegue adaptar às suas necessidades.

Por outro lado, além do aumento da produtividade a partir do desenvolvimento da economia do conhecimento, é preciso aproveitar a extensão do mercado. O desenvolvimento da China dá-nos acesso a novos mercados. Nesse capítulo a Finlândia está, mais uma vez, a fazer as coisas muito bem. Há mais de 300 empresas finlandesas na China. Não para explorar o trabalho barato dos chineses mas para criar centros tecnológicos. Em troca, a China dá-lhes acesso ao seu mercado.

 

Manuel Castells em entrevista ao Público


PÚBLICO - Passados cinco anos desde a aprovação da "estratégia de Lisboa", de cuja concepção foi um dos inspiradores, arriscamo-nos a dizer que ela falhou. O fosso entre as economias americana e europeia tem continuado a crescer em termos de produtividade e de competitividade. Como explica isto?

MANUEL CASTELLS – (...) A estratégia de Lisboa pretendia fundamentalmente aproximar a Europa em termos de produtividade e competitividade da economia americana, gerando inovação mas mantendo a coesão social, o modelo social europeu. Isto resultou no plano de acção e-Europa que, muito acertadamente, percebeu que, no caso europeu, o sector público podia ser o motor dessa mudança, coisa que não acontece nos EUA, como se sabe.
O que se pretendia era criar um círculo virtuoso entre a transformação do sector público (saúde, educação, administração pública) e o desenvolvimento tecnológico.

Houve bastantes avanços mas, se considerarmos os objectivos, temos de concordar que, em lugar de haver convergência com a produtividade e a competitividade da economia americana, houve divergência.

Porquê? Quais foram as resistências, os obstáculos?

Não se evoluiu no desenvolvimento de novas formas de organização, não se mudou a saúde, a educação, a administração. Avançou-se nas redes de comunicações, o que é muito importante porque as redes são a infra-estrutura, mas é o mais fácil de fazer. É verdade também que a coesão social se manteve, mas é bom recordar que a ideia original da "agenda de Lisboa" era precisamente que, para manter a coesão social a prazo, era necessário inovar mais e produzir mais. Caso contrário, com o envelhecimento da população e a resistência da Europa à imigração, essa coesão social não será sustentável a médio prazo.

O primeiro erro da "agenda de Lisboa" foi ter adoptado uma perspectiva muito estatista. Não contou com a sociedade civil, com os inovadores. E quando se fala de inovação é preciso falar de inovadores. A Europa só tem sabido pensar em termos dos Estados ou das grandes empresas, quando a imensa maioria das empresas são pequenas e médias. Há aqui algo que falhou. A Europa tentou dizer à sociedade e às empresas como deviam fazer, em vez de libertar a energia inovadora da sociedade.

Creio que a Comissão Europeia fez o que tinha a fazer razoavelmente bem - as directivas, as recomendações, os documentos, as estratégias. Mas a Europa não é a Comissão. Isso é um mito. A Comissão tem um orçamento pequeno e nenhum poder. O poder está no Conselho de Ministros.

Mas o mau resultado não foi igual para todos. Os nórdicos seguiram o caminho apontado pela "agenda de Lisboa" e estão a ter resultados excelentes. Os países de modelo anglo-saxónico portam-se melhor do que a média. Como explica que o modelo nórdico tenha sido o de maior sucesso?

Tem razão quando diz que o mau resultado não é igual para todos. O problema é, antes de mais, da Alemanha, que é o centro da economia europeia, mas cuja economia e tecnologia não funcionam segundo um modelo de inovação. A Espanha foi um desastre absoluto desde o ano 2000 - não na política económica mas na política de inovação e da sociedade de informação -, e está atrasada em todos os indicadores. A Itália foi outro desastre, em termos de inovação e de modernização da administração. Temos três países grandes que não fizeram nada. A França é diferente. Está bem em termos de produtividade nas empresas, mas não na modernização da administração - que é um dos grandes objectivos de Lisboa.

Eu diria que há dois modelos que estão a funcionar e que são muito diferentes: o de Inglaterra e o da Irlanda, embora esta última seja um caso atípico, porque os líderes da competitividade e da produtividade são grandes multinacionais. A Irlanda criou as bases tecnológicas, científicas e de capital humano para poder atrair as multinacionais. O problema é que elas, um dia, vão-se embora para a China ou para o Leste.

Quando falamos de "modelo nórdico" também não devemos generalizar demasiado. A Noruega não faz muito em matéria de inovação tecnológica. Na realidade vive da renda do petróleo. Se não fosse um país tão frio, julgaríamos que era um emirado. A Suécia sempre foi uma grande potência económica, não progrediu muito nos últimos anos em termos de produtividade e competitividade, mas já era competitiva no passado. O que é interessante é a Finlândia e a Dinamarca - com governos de orientações políticas distintas. Nos dois casos, houve uma tentativa séria de construir um modelo que reproduz, em boa parte, a estratégia de Lisboa. Isso não acontece por acaso, porque a "agenda de Lisboa" já se inspirou naquilo que eles estavam a fazer.

Diria, pois, que nos países em que o Estado entendeu que o seu papel era dinamizar a inovação, apoiar o empreendedorismo e fazer da inovação tecnológica e social uma força dinâmica, a acção do Estado facilitou este processo. Nos países em que o Estado, ou adoptou um modelo neoliberal, deixando tudo para o mercado resolver, ou é prisioneiro de interesses corporativos, tanto de empresas como de sindicatos - como é o caso da Alemanha -, aí não houve qualquer avanço. (...)

No livro que escreveu em 2002 com Pekka Himanen, fala de três modelos de desenvolvimento da sociedade de informação: Silicon Valley, Singapura e o modelo finlandês. Disse agora que a "agenda de Lisboa" falhou porque os países europeus não souberam seguir o modelo finlandês (e não podiam seguir os outros). São os únicos três modelos possíveis ou pode haver muito mais?

O estudo sobre a Finlândia mostrou que a sociedade da informação mais avançada do mundo (segundo todas as estatísticas), que era também a economia europeia mais produtiva e mais competitiva, possuía um modelo de inovação e de crescimento económico totalmente diferente do de Silicon Valley, apresentando os mesmos resultados em termos de inovação e uma coesão social e qualidade de vida muito superior. O interesse de Singapura é que os chineses o adoptaram como modelo, estão a tentar um megamodelo de Singapura, porque é um modelo de Estado autoritário com economia de mercado, inovação e desenvolvimento tecnológico. Em Singapura funciona. Não sabemos se vai funcionar na China.

A mensagem central desse estudo é que cada cultura e cada sistema institucional têm de encontrar o seu próprio modelo a partir de um núcleo comum de princípios: o papel central das tecnologias de informação e comunicação e da inovação, o conhecimento como matéria-prima, a ideia de que o valor acrescentado está mais no processo do que o produto. A Coreia está a fazê-lo, aproximando-se do modelo de Singapura. O Japão não conseguiu fazê-lo e está em queda livre desde 1990. Na realidade, quando estamos a falar de modelos de inovação tecnológica estamos a falar de muito poucos países: da Escandinávia, dos EUA e de algumas zonas asiáticas como a Coreia, Singapura, e Bangalore e Bombaim na Índia. E das redes de inovação entre estes centros de inovação. A maior parte do mundo está fora deste processo.

Na Europa, são os países meridionais os mais atrasados. Está a estudar o modelo catalão. Será que é possível um modelo meridional, diferente, compatível com a cultura católica e mediterrânica?

Quanto ao catolicismo, é preciso ser prudente. Pode existir como matriz histórica, mas em Espanha menos de 10 por cento da população vai à missa ao domingo. E a cultura fundamental em Silicon Valley pertence a chineses e indianos, que não são protestantes nem católicos.

Pekka Himanen e Linus Torvalds escreveram um livro muito interessante sobre isto, que compara a ética hacker com a ética protestante da revolução industrial.
Para os inovadores o trabalho é um prazer, onde o jogo e a inovação se misturam. Ganhar dinheiro é a última das suas preocupações.

Quanto ao modelo meridional, se existe, não o encontrámos, a não ser que se queira transformar a incapacidade em modelo e se decida que vamos fazer parques temáticos para os turistas chineses, japoneses e americanos. A Catalunha entrou, nos últimos anos, nesta dinâmica, no "turismo de sol e lua", praia e divertimentos nocturnos, mas esse modelo é insustentável porque é mais fácil fazê-lo noutros países do Terceiro Mundo, mais baratos e menos deteriorados ambientalmente.

A questão é: ou há uma dinâmica interna muito forte das pequenas empresas e dos empreendedores, dos inovadores e das universidades, (como é o caso de Silicon Valley), ou tem de haver uma política de Estado que impulsione esse desenvolvimento tecnológico a longo prazo.

Essas políticas têm de ter efeitos a curto prazo, porque precisam de base política para continuar, mas há que definir, como fez a Finlândia, o médio e longo prazo, investir dinheiro - que também é preciso - e ter a coragem política de fazer reformas sérias na administração, na universidade, no sistema de ciência e tecnologia. Nesta matéria, tanto em Espanha como em Portugal e Itália, nos últimos anos a evolução tem sido ao contrário. (...)

Que oportunidades são essas que os governos têm de criar?

Há duas coisas importantes: uma é a criação de um sistema de verdadeiro capital de risco - que é diferente de subsídios - que permita a quem tem um projecto de inovação tecnológica ou económica transformá-lo numa empresa sem ter de arriscar a sua vida toda nisso. Em Silicon Valley os mecanismos de capital de risco foram absolutamente fundamentais. Na Finlândia, como as instituições financeiras nacionais são extremamente conservadores - na Europa é assim -, o governo criou uma empresa pública, que depende do Parlamento e que actua como capitalista de risco. E que também investe em todo o mundo, incluindo em Silicon Valley, para aprender como se fazem as coisas. Isso agora é menos importante, mas foi decisivo em meados dos anos 90.

Outro exemplo finlandês muito importante é o Tekes, um organismo transversal, que identifica os projectos de inovação de empresas e universidades, que organiza as ligações entre as empresas e as universidades e que financia projectos em função das prioridades estratégicas do país.

Mas nenhum destes mecanismos serve de nada se não houver uma mudança da máquina administrativa.

Mas é possível promover uma cultura de inovação e do empreendedorismo onde ela não existe?

Creio que é possível. Em parte, essa responsabilidade cabe aos meios de comunicação. Os media são muito pouco dados a explicar estas histórias. (...)

No seminário que organizou houve uma sessão sobre o Governo Electrónico (e-Governo). Por que é que isso é tão importante? Porque se gasta menos recursos que podem ser aplicados noutro lado, ou há um impacte directo da inovação do Estado no tecido económico?

Por um lado, há ganhos de produtividade do Estado. Outra coisa fundamental é a interligação das diferentes administrações e serviços permitir maior eficácia e rapidez da administração. Mas há mais. É muito difícil para uma administração dinamizar a inovação no tecido produtivo se ela própria não sofrer uma transformação tecnológica, organizativa e cultural. Para já não falar do efeito de transparência.

Na maioria dos países europeus, sobretudo nos países do Sul, os cidadãos não confiam na administração - com ou sem razão, todas as sondagens o confirmam. Isso é um obstáculo a tudo: ao pagamento de impostos, por exemplo. A transparência administrativa é fundamental tanto para a gestão como para a política. A tecnologia não garante a transparência. Mas se há um registo electrónico de todos os actos, a corrupção ou a má gestão tornam-se mais difíceis.

Há quem pense que a única coisa que precisamos de fazer é investir na educação e que o resto virá por si. Pensa que sim?

Não é verdade. Se se investe mais dinheiro para fazer a mesma coisa, o único resultado que se atinge é uma maior taxa de abandono escolar. Há que investir mais (porque a inovação não é barata), mas de maneira distinta. O que o ensino secundário obrigatório até aos 16 anos está a provocar em países como Espanha e Portugal é uma taxa de abandono escolar muito mais alta entre os 14 e os 16 anos.

Mas pode investir-se em educação com outros critérios, noutros sistemas de ensino...

Se se trata de investir para transformar o sistema educativo, é claro que o devemos fazer. Precisamos de investir em formação profissional de um novo tipo (mais do que em educação tradicional); precisamos de investir numa educação que possua maior interacção com o novo sistema tecnológico - mas dentro dos próprios currículos e não ao lado, não estou a falar de aulas de Internet. Aquilo que precisamos de investir na educação não são forçosamente mais recursos: é mais inovação administrativa, mais inovação cultural.

Disse que a Europa tinha em relação aos EUA dois problemas: a falta de capital de risco mas também a dificuldade com a imigração. Ora, a Finlândia é um país muito fechado a imigrantes. A Europa precisa ou não de imigrantes?

Neste momento, na Finlândia, esse é um dos grandes debates. O modelo é insustentável por esse lado: os finlandeses são demasiado poucos e demasiado velhos. Faz falta gente para tratar dos idosos e gente que trabalhe para sustentar a segurança social. Mas hoje a maioria dos países europeus estão a receber muita imigração. Barcelona passou, em cinco anos, de 3 por cento de população estrangeira para 12 por cento e as previsões para dez anos são de 27. É impressionante. A primeira coisa é reconhecer que é um facto que não pode ser travado.

Mas, em termos de qualificação, a imigração europeia é comparável à que chega à Califórnia?

Podemos ter aí grandes surpresas. A municipalidade de Barcelona fez recentemente um inquérito sobre o nível educativo dos imigrantes e descobriu que havia mais diplomados universitários entre eles do que na população nativa: 27 contra 17 por cento!

Mas essa formação universitária é utilizada? Em Portugal há engenheiros ucranianos a trabalhar nas obras...

A capacidade de absorver essa mão-de-obra qualificada depende da existência de postos de trabalho tecnologicamente avançados. Eles trabalham na construção porque é isso que se faz em Portugal. Não são os imigrantes que têm baixas qualificações, é o país que tem baixas qualificações. (...)

As PME são as empresas mais flexíveis e as que criam mais empregos. Qual é o seu problema?
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Massa crítica. Podem concentrar-se, mas ao fazê-lo perdem flexibilidade. A resposta pode ser a cooperação, a construção de redes de empresas. Não é fácil fazê-lo numa cultura de desconfiança, mas se houver incentivos fiscais à cooperação, por exemplo, isso é um incentivo. Também se pode fornecer assessoria gratuita via Internet a estas empresas. Não é o Estado a produzir nem a mandar. O Estado pode criar condições tecnológicas e organizativas que permitem o desenvolvimento da rede.

 

«O futebol é mesmo assim»?


O Sporting não se comportou lá muito bem na época 2004/5. Mas o «grupo de trabalho» que foi entregue este ano a José Peseiro tem menos 13 pontos do que a equipa tinha na mesma altura da época passada. Talvez se justificasse que os media perguntassem a Dias da Cunha se tem uma explicação para a situação.

 

«Eles falam, falam, falam, mas eu não os oiço a dizer nada.»


Reagindo ao anúncio de que Jorge Coelho irá substituir José Magalhães na Quadratura do Círculo, Paulo Gorjão chama a nossa atenção para um estudo divulgado pelo DN, no qual se sublinha que, «ao longo das duas últimas décadas, não se refrescaram as vozes que diária ou semanalmente dissertam sobre questões que marcam a vida nacional». Esta substituição sugere-nos três questões:

1. Que tipo de relacionamento mantém a SIC, uma estação privada de televisão, com o poder político, que a leva a acolher, por norma, a «ortodoxia» dos vários partidos?
2. Não tendo, notoriamente, Jorge Coelho o dom da palavra, que critérios terão presidido à sua escolha?
3. É legítimo concluir que é durante a silly season, quando os «porta-vozes autorizados» gozam férias, que lemos e ouvimos os comentários mais estimulantes sobre a realidade nacional, muitas vezes feitos por «gente desconhecida» que vem preencher as férias dos bonzos?

quarta-feira, março 9

 

A lógica dos lobbies


Se não tiveres conseguido um ministério, luta por uma secretaria de Estado. E, depois, ainda há as remodelações, não te esqueças.

 

1857… 1908… 1910… 2005


Antecipando o Dia Internacional da Mulher,
Maria Filomena Mónica traçou, no Público, o paradigma da mulher moderna: «As mulheres modernas são também supostas ser boas na cama, profissionais competentes e estrelas nos salões.» Os serviços da presidência da República fizeram saber que Jorge Sampaio iria associar-se à efeméride exaltando o «trabalho invisível da mulher». Para tanto, o Presidente da República decidiu distinguir 30 mulheres. Se queremos também homenagear as 130 mulheres de Nova Iorque que, em 1857, morreram em luta pela melhoria das condições de trabalho, ponhamos os olhos nas senhoras que foram condecoradas por Jorge Sampaio: Rosalina Machado, Judite Sousa, Isabel Mota, Ana Benavente, Isabel Corte-Real…

Em tempo – Ninguém se lembrou de condecorar o Eng. Jardim Gonçalves, chairman do BCP, que tem feito o que pode para manter a Mulher em bom recato?

terça-feira, março 8

 

A mão invisível que embala a segurança social


A reforma da segurança social, eufemismo para a privatização do produto dos descontos de quem «trabalha por conta de outrem», vai de vento em popa por esse mundo fora. A reforma levada a cabo no
Chile, que já aparenta ter idade mais do que suficiente para ser considerada maior e vacinada, cumpre os objectivos estabelecidos: por um lado, «muitos fundos ficaram aquém das expectativas (em rentabilidade) e acima do esperado (em fees ocultos, por vezes representando 1/3 dos resultados)»; por outro lado, «em alguns casos as pensões privadas não ultrapassam hoje 1/3 do valor que teriam se o pensionista tivesse optado pelo antigo sistema público» (com «a diferença adicional de que a pensão privada tem uma vigência máxima de 20 anos e a pública é vitalícia»). Depois não digam que não foram avisados.

 

O MITO DA MULHER: O «HOME» — SOLIDÃO E AR CONDICIONADO [I]


Todo o mito envolve uma alienação de liberdade. Desde os doutores da Bíblia aos cientistas do comportamento humano da actualidade, o dossier Mulher é, afinal, a panorâmica dos sucessivos mitos que a ajustam a determinado molde social — portanto, a determinada influência de responsabilidade. Os ingredientes variam com a temperatura histórica mas a figura ideal inspira-se na mesma fórmula de princípio: le deuxième sexe não é o outro sexo mas o que vem depois do homem (nasceu de uma costela de Adão, não se esqueça…), a mulher em plano secundário no esquema do estatuto público.

«Cá em casa manda Ela, quem manda n’Ela sou Eu», anuncia o azulejo de boas-vindas que ornamenta a casa portuguesa. E na ingénua declaração contem-se o Ponto Um do ideário primitivo da esposa-à-margem do colectivo e, simultaneamente, a base do código familiar em que se apoiam o machismo, no plano sentimental, e o feudalismo económico, no plano das estruturas sociais.

D. Francisco Manuel de Melo definiu-a, com vénias galantes, como ser frágil e sujeito a tentações; instrumento do diabo, lhe chamaram as cruzadas medievais, os exorcismos e as demonologias que constam do Formicarium ou do Malleus Maleficarum. Apesar dos séculos de intervalo, o acordo é evidente.

Mas a dona de recato, que é um exemplar-mito de D. Francisco Manuel, sofreu as correcções do tempo. A Carta de Guia de Casados, esse manual das inferioridades da mulher, ordenou-lhe que se resumisse aos filhos e à cultura de almofada e bastidor e ela, mal ou bem, aprendeu a escrever com a ponta da agulha e a ler pela mão do confessor. Em poucos anos o deslumbramento da femme savante levava-a das fronteiras do lar à vida social dos salões dourados. Estava esboçado o mito romântico, o novo perfil feminino: galanteria e belas letras. Modelos a copiar: George Sand e Mme. Staël.

O eco dessa promoção feminina atingiu tremulamente a província portuguesa da Europa. Vem à memória o nome da Marquesa de Alorna, evidentemente. Mas o seu a seu dono: antes dela inscreve-se uma pioneira esquecida — Teresa Margarida da Silva Horta, escritora de vanguarda e autora do primeiro (?) romance feminista, Aventuras de Diófanes. Prisioneira de Pombal, para terminar.

«Nas mulheres a injustiça dos homens lhes tira a liberdade assim que nascem...» — eis, numa linha, o programa de Teresa Margarida e o curioso é que a frase não lhe pertence mas a um dos espíritos do seu círculo que recebera, como ela, as luzes do século: Matias Aires.

Sociólogo, matemático, redactor de Reflexões (várias) e de um estudo sobre A Arquitectura Portuguesa (1753), este homem de peregrinações europeias (como Ribeiro Sanches, como Verney, como Luís da Cunha) foi um dos raros portugueses a preocupar-se com o assunto tabu. Depois dele, só o Judeu e o Garção, ambos de relance, e um esforçado e medíocre Manuel de Figueiredo (Apologia das Damas) ousaram esboçar novos rascunhos para a mulher do Romantismo que Garrett iria desenhar em corpo inteiro... e à portuguesa, já se vê.

Somente, Garrett revela-se (contra sua vontade, admito) um ourives de mítificação feminina. Bucólico e a cheirar a loções civilizadas de Picadilly. Escreve O Toucador mas acrescenta-lhe na portada a designação de Períodico sem Política e faz política ao contrário: reduz o progresso das damas a modas de Paris, poesia de assembleia, etiqueta, jogos de salão — os mesmos elixires com que foi parcialmente descrita a elegante dos salões franceses para a poderem eleger como mito (conveniente) do Romantismo: a figurinha de Saxe.

Um caso entre muitos, Garrett. Se virmos bem, a nossa literatura transpira vários incensos da mitificação feminina quando precisamente julga desmontar a «vida contemporânea». Júlio Dinis considera o belo sexo como um ser resignado, só instinto. Eça vê-o como objecto de tentação (Padre Amaro), presa fácil na ausência do braço vigilante do marido (leia-se Os Maias, leia-se O Primo Basílio). E nos escritores dos nossos dias, mesmo naqueles de formação materialista, são frequentes os indícios de machismo:

1.º) o recurso a imagens de erotismo primário como abonações da qualidade de mulher (égua, flor sanguínea, lua, ancas luarentes, enigma, etc.); 2.º) paralelismo com rituais simbólicos (tatuagens, ferra de cavalos) e 3.º) a verificação, quase sistemática, de as heroínas não terem passado sentimental (complexo de virgindade).

[José Cardoso Pires, O Tempo e O Modo, 25/26, Os Mitos, p. 310-318, 1965]

 

O MITO DA MULHER: O «HOME» — SOLIDÃO E AR CONDICIONADO [II]


Império (e, logicamente, Raça, Expansão, Povoamento) são ideias associadas a um estatuto familiar rigoroso. A voz moralizante de Gil Vicente acerca dos desconcertos da lar é sempre justificada em função dos conquistadores em demanda de novas terras. A célebre carta da rainha Vitória condenado os movimentos feministas coincide com a fase de reafirmação da Coroa. Escreve ela: «A Rainha sente-se a tal ponto indignada com esta questão que a custo consegue manter a serenidade».

A questão era salvaguardar o puritanismo contra a revoada dos anjos sufragistas. A esses e ao gosto elegante dos salões franceses, a matriarca imperial respondia com as tintas mais duras da austeridade. O quadro passa a ser outro: pesado e matronal. O mito sofre uma nova metamorfose: a da mulher vitoriana, para usar a nomenclatura dos tratadistas.

Mais violento, o império do III Reich programou o ideal feminino em alíneas autoritárias e irreversíveis. Por ordem: Kinder (filhos), Küche (cozinha) e Kirche (igreja) — a Mulher dos três K. vimo-la em estátuas gigantescas, possante, ventre sensual e rosto decidido voltado para a expansão. Em pleno ar livre: o lar, na paisagem hitleriana, não dispunha dos individualismos que o distanciassem do Estado.

«A mãe alemã é o grande capital do Nacional-Socialismo», declarara o ministro Goebbels que, na véspera da derrocada, se suicidaria com a esposa e os filhos. E Schlierbach pormenorizara que a «higiene matrimonial», os delitos contra a raça se consideravam actividades tão nocivas ao Estado como a alta-traição, o tráfico de divisas, o bolchevismo, etc. — Collotti, A Alemanha Nazi.

O mito dos 3 K recrutara os seus advogados do diabo nos eugenistas em uniforme e nos estrategas do programa anti-semita. Paradoxalmente todos apoiavam a sentença de um judeu — Freud — segundo a qual o destino é ditado pela anatomia…

Adiante. Poucos anos depois, o mesmo «slogan» serviria ao Império Americano para situar a mulher no seu individualismo biológico. Teve a palavra um socialista liberal, Adlai Stevenson: «A participação feminina na vida moderna deve fazer-se unicamente através da sua actividade de esposa e mãe».

Nessa altura os Estados Unidos acabavam de sair de uma guerra e de fazer as estatísticas dos homens perdidos; tinham repartido o mundo em Yalta. Precisavam, de futuro, de colocar a mulher. O novo mito feminino forjava-se nos lobbies do Congresso, nos departamentos da Informação.

Entretanto, o emblema já tinha as coordenadas definidas. De há muito que o Código Civil, a Política e os relatórios da Ciência fechavam o horizonte consentido ao lar. A irresponsabilidade parcial da mulher, a sua posição de segregada do pacto social, estavam mais do que justificadas.

[José Cardoso Pires, O Tempo e O Modo, 25/26, Os Mitos, p. 310-318, 1965]

 

O MITO DA MULHER: O «HOME» — SOLIDÃO E AR CONDICIONADO [III]


Hoje, 1965, as empresas fabris domésticas introduziram, nos países em crise de crescimento industrial, um novo vocábulo: Home.

Como snack-bar, barbecue, hobby, frigidaire, self-service, termos internacionalizados e todos eles da vida corrente familiar, Home aparece no dicionário das classes médias da França, da Bélgica ou da Dinamarca, no sentido de lar funcional, de lar post-artesanal. Significa para a dona de casa desses países uma solução de ajustamento às novas características de um quotidiano em que a carência e custo do pessoal doméstico e, simultaneamente, a função tempo-distância-transporte comprometem a sua economia, as horas de convívio familiar e a sua liberdade individual. Home é a nova face do Ocidente no universo do lar, mas uma face que engloba também valores espirituais e sentimentos e não simples referências económicas. Implica necessariamente numa ideia de mulher, traduz uma conquista da housewife americana que, aos olhos da ocidental, goza dos prestígios de uma igualdade de direitos cívicos, dispõe de inegável abundância de bens de consumo e conta, no seu curriculum, com a experiência de ter enfrentado, antes de ninguém, as transformações que a expansão industrial está originando na Europa.

Bem entendido, Hollywood, a literatura e o instinto de reacção ao «standard» e ao «materialismo da existência» abalam, e continuam a abalar, o fascínio da pax americana. O fenómeno dos hipsters, diagnosticado por Norman Mailler & Outros, surge como um impasse da juventude em rebelião; os inadaptados dos romances de Salinger e de Kerouac, as peças de Albee e os apuramentos de Kinsey apavoram as boas consciências. Para encurtar razões, a célula familiar comporta-se de maneira pouco estimulante.

Em socorro disto, o mandato de Kennedy lança a vaga das reformas corajosas. O anti-americanismo universal diminuem velozmente, suscitando uma impressão de moralização e de retorno às constantes tradicionais. Na bolsa dos valores éticos a cotação da mulher ianque regista uma subida. A aventureira do divórcio e da alimony (indemnização conjugal), a assexuada ou a devoradora de homens foram olvidadas como subprodutos circunscritos às comédias de costumes e aos erotismos de exportação. O resto do tempo o diria, e o resto era o mito: aquilo que está para lá da acção imediata ou do objectivo imediato. O Home, neste caso.

Mesmo para a ocidental alérgica ao american style, esse modelo tinha as aliciações de uma solução prática, de modo a poder ser adoptado unicamente pelo seu conteúdo material. Que se copiassem os super-mercados mas que se preservasse o gosto. Se isso fosse possível, claro.

[José Cardoso Pires, O Tempo e O Modo, 25/26, Os Mitos, p. 310-318, 1965]

 

O MITO DA MULHER: O «HOME» — SOLIDÃO E AR CONDICIONADO [IV]


Mito? Mito para quem?

É evidente que cada extracto social tem as suas configurações-limite cuja sublimação transporta necessariamente à mitologia. Mas o mito, creio eu, requer antes de mais nada uma universalidade de dados reais para poder ser aceite na irrealidade que propõe. E uma vez que a realidade lar significa um destino histórico da mulher ou, pelo menos, um compromisso que ela pretende tornar mais acessível, o Home é o limite para que tendem as camadas femininas não proletarizadas em face do quotidiano do após-guerra.

Consciente ou inconscientemente, não importa. Num inquérito do Candide (Abril, 1965), Natacha e Jean Duche, ao fazerem o balanço de uma adolescência (Des Jeunes Filles Parlent), levam a concluir que na generalidade subsiste uma predisposição, pelo menos mental, para o Home. Na realidade, as entrevistadas que não ambicionam um futuro de donas de casa expõem uma atitude em relação ao amor e ao homem que, indirectamente, as conduzirão à sociedade conjugal nas coordenadas paternalistas. Paralelamente, a socióloga Betty Friedan apresenta resultados semelhantes em The Feminine Mystique, com data de Nova Iorque, 1959. Les jeunes esprits (féminins) se rencontrent...

Mas o mito serve, o mito é útil. Principalmente porque, acabada a guerra e reconduzida a mulher ao lar, dezenas de «trusts» converteram o seu dispositivo de produção em artigos domésticos ou afins.

As fibras artificiais, até então reservadas ao arsenal bélico, passaram a bens de consumo e simplificaram o vestuário e a decoração; a moda, industrializada, deixando de constituir um artesanato evoluído, facilitou a vida social feminina; os detergentes, os revestimentos sintéticos e a mecanização, substituindo o trabalho assalariado, isolaram ainda mais a dona de casa. De novo, Betty Friedan: «Os decoradores propõem quadros e murais nas cozinhas porque a cozinha passou da vida da mulher (...) Praticamente, ela só sai para fazer compras, passear o bebé ou acompanhar o marido».

Vendo bem as coisas, havia vantagens em fixá-la ao lar, quanto mais não fosse porque as indústrias orientadas na modernização doméstica não podiam deter-se. Assim, a máquina criava necessidades para novas máquinas, o desejo provocava novos desejos.

Os resultados não se fazem tardar. Em Male and Female, um estudo do comportamento in a changing (sic) world, a célebre antropologista Margaret Mead desenha o círculo vicioso que encerra a americana média: «Os novos equipamentos deixam-lhe cada vez mais tempo livre. Como demonstra o relatório de Brian Mawr, a actividade doméstica ocupa à mulher 60,55 horas nos aglomerados rurais, 78,35 h. nas famílias das cidades de menos de 100 000 habitantes e mais de 100 horas nos grandes centros urbanos».

A housewife bem comportada não tem estes números trágicos na agenda. A europeia ainda menos. Desconhecendo que a perfeita americana dispõe apenas de 4,77% de liberdade individual, o Home continua nas revistas e nos catálogos como um pequeno acre de Deus.

Entretanto, cadeias de rádio e de televisão, organizações particulares, a Imprensa, empenham-se na divulgação do mito: a dona de cãs é um consumidor de publicidade, um cliente localizado a horas certas. Por seu lado, o jornalismo feminino desenvolve-se, as tiragens aumentam e os redactores ajeitam a pena ao gosto da leitora: a partir de certa altura, as heroínas das novelas são estudantes ou profissionais que «escolheram a liberdade» votando-se ao lar. O retrato oficial é o da jovem sorridente na cozinha metalizada e o perfil psicológico dá-o Ladies Home Journal, Junho 59, nestes termos: «Quando os homens conversam ela jamais se intromete. Não pretende tomar parte nas discussões do marido nem nos problemas que o ocupam porque o seu bom-senso lhe recomenda que é preferível ser ele a solicitá-la».

Não resisto ao confronto com D. Francisco Manuel de Melo (1951): «Nos cuidados dos homens não se metem as mulheres, fiadas em que têm como nós entendimentos». O marialva da pax ruris reencontra a actualidade na pax americana...

[José Cardoso Pires, O Tempo e O Modo, 25/26, Os Mitos, p. 310-318, 1965]

 

O MITO DA MULHER: O «HOME» — SOLIDÃO E AR CONDICIONADO [V]


Bombardeamento de Bikini, derrota da Coreia, lutas raciais e McCarthy, as fracturas, em resumo, que se operaram na consciência americana estremeceram a confiança elementar e perturbaram a estabilidade psicológica da mulher média dos Estados Unidos. Simultaneamente, a falta de actividade cívica e a crença num praticismo científico (acentuação, talvez, pelo contacto imediato com uma realidade mecanizada), tudo isso levou a desprevenida dona de casa a procurar a solução e a descarga das suas alterações na vitamina Psicanálise.

O libelo é banal, bem sei. Nas teses sobre U.S.A., o capítulo da Psicanálise tem o lugar das calúnias e das virtudes. Todavia, não é o método clínico que está em causa. Nem o revisionismo dos seus mais actualizados cientistas. O que se considera é a apropriação da doutrina de modo a torná-la fundamento da mitologia do Home.

O postulado das inferioridades femininas («O destino é imposto pela anatomia» — Freud clamavit) justifica-lhe socialmente o casamento como meta irreversível e a definição da mulher como personalidade marcada por um complexo de castração, que se compensa sexualmente por um protesto viril, convém aos privilégios da mentalidade paternalista. Além disso, «é sempre em função das ligações com o passado, e não em função de qualquer futuro, que a Psicanálise explica o indivíduo», observa Simone de Beauvoir, e este ponto tranquiliza ainda mais o conservantismo dos receosos do mundo de amanhã.

Nada obsta, portanto, à divulgação das soluções freudianas que, a breve trecho, seriam uma prática confessional, um derivativo da solidão da dona de casa ianque. Isso não aconteceu por acaso, como não foi por acaso que proliferaram o sociodrama e as terapêuticas de grupos. Os interesses que juntavam essas pessoas criavam-lhes um sentido de comunidade e de «apostolado» que se dedica à descoberta do erro, à criação de uma nova cofiança. Daí que a Psicanálise — cito outra vez Betty Friedan — seja hoje «a panaceia americana, uma religião. Tornou-se uma ocupação do espírito, mobilizou o pensamento de uma grande massa que já não encontra justificações suficiente na igreja, na pátria ou no dinheiro e que está cansada de se sentir responsável pelos linchamentos e pelos campos de concentração nas Índias e na África».

Perante tão complexa diagnose não há dúvida que é mais imediato e menos corrosivo exercer uma terapêutica ao nível dos sentimentos e dos reflexos, ao nível da personalidade e da família, do que remexer nas causas colectivas dessas perturbações. Evidentemente.

[José Cardoso Pires, O Tempo e O Modo, 25/26, Os Mitos, p. 310-318, 1965]

 

O MITO DA MULHER: O «HOME» — SOLIDÃO E AR CONDICIONADO [VI]


Ao bem gosto e à decência assusta tanto o puritanismo masculinizado das sufragistas como o exibicionismo do sex appeal para marinheiro ver e recortar. Desde o símbolo de Jayne Mansfield, extra-conjugal e laivado de um erotismo de impotência, até à esposa feliz que centraliza a representação do Home, processa-se uma verdadeira revisão do conceito americano de feminino.

O próprio novíssimo evangelho (de Freud) apadrinha essa evolução, visto que alguns dos seus apóstolos não só condenam qualquer actividade feminina que não seja doméstica, como atribuem à emancipação e à cultura as dificuldades físicas experimentados no amor. Helen Deutsch, com a sua autoridade reconhecida, fala por todos: «A mulher paga as suas aquisições intelectuais com a perda de preciosas qualidades femininas. As informações colhidas confirmam que a mulher intelectual é masculina».

Somem-se a esta declaração os resultados negativos que Kinsey retirou das 5940 americanas do seu relatório, considere-se o sonho do casamento como meio de integração social, e compreender-se-á a ânsia de feminilidade das raparigas americanas sob a bandeira do Home. Exteriorizações desse estado de espírito? Várias e em toda a parte. G..., ao regressar dos Estados Unidos, contou-me que viu crianças de dez e doze anos vestidas de senhorinhas, de saltos altos e cabelo arranjado. As investigações de Brian Mawr assinalam que é vulgar as estudantes utilizarem uma linguagem diante dos rapazes diferente daquela que usam entre elas. E, por fim, The Feminine Mystique revela outros dados avulsos: «Os fabricantes lançaram no comércio soutiens e seios artificiais para meninas de dez anos (…) Num número de Outono de 1960, o New YorK Times anunciava um vestido infantil proclamando: Também Ela Pode Vir a Conquistar Um Marido.(…) As alunas de uma universidade usam ostensivamente o emblema WAM — wives and mothers, esposas e mães — e o próprio estabelecimento difundiu o seguinte lema: A instrução que ministramos nesta Casa não se destina a fazer génios mas autênticas esposas». E etc..

(Mais uma vez cedo às comparações. D. Francisco Manuel de Melo: «O melhor livro é a almofada e o bastidor». Júlio Dinis: «Por quem é, deixe-me ser mulher. Não sabe que odeio a lógica

O preconceito anti-intelectual, que está patente no código marialva, é, ao fim e ao cabo, uma das premissas da Mulher Mistificada 1965).

[José Cardoso Pires, O Tempo e O Modo, 25/26, Os Mitos, p. 310-318, 1965]

 

O MITO DA MULHER: O «HOME» — SOLIDÃO E AR CONDICIONADO [VII]


Cada época dispõe dos seus mitos convenientes. A actualidade de qualquer deles está na projecção irreal que transferem dos valores organizados para os promover. Contudo, a sua permanência tem limites que são os de uma realidade-base em que assentam e que pretendem alienar. E daí que, a propósito do Home (ainda em processo de entronização), se fale sobretudo da Mulher dos Três K e da Mulher Vitoriana, dois exemplares já estabilizados historicamente e ambos vindos de uma mesma raiz: a segregação do individuo feminino em nome de fatalismos naturais.

Entretanto, o pequeno e amável universo concentraccionário que é o Home contém em si mesmo, a negação lógica que o destrói: se é em nome do perfeito ambiente familiar que ele se funda, e se a maior parte da vida da família se realiza fora de casa, a mulher não estará progressivamente a afastar-se da comunidade de interesses dos restantes membros? O seu isolamento, sempre crescente em relação ao exterior, não a impedirá de uma compreensão integral do marido e dos filhos?

Uma parte altamente prestigiada dos investigadores das ciências do comportamento afirmam que si. O parto sem dor, O birth control e a própria industrialização doméstica são sinais de liberdade, respostas eloquentes às condenações biológicas e outras. As novas correntes da Psicanálise revolucionam as teses intocáveis, a Igreja coloca O Evangelho no Mundo Moderno (Jean Daniélou, S.J.), isto é, encara sob novos dados a questão das «hierarquias naturais» (Pes. Cardonnel, Dubarle, Jolif; Pastores Bosc e Dumas). No pedestal dos medalhões mitológicos, o Home fechará, pelo menos, o ciclo das configurações deturpadas de certos aspectos da Mulher.
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[José Cardoso Pires, O Tempo e O Modo, 25/26, Os Mitos, p. 310-318, 1965]

segunda-feira, março 7

 

Voltar a tomar chá com a Maria (com o Tejo como fio do horizonte)


Há dias,
Paulo Gorjão, aparentemente sem saber se deveria acreditar no que lia, perguntava, com a subtileza que o caracteriza, se estávamos a assistir a uma nova guinada do inimitável Eduardo Prado Coelho, ao manifestar apoio, ainda que de forma discreta, à candidatura presidencial de Cavaco Silva. Há percursos que vão sempre na direcção do vento. Já há quase quarenta anos, quando Marcello Caetano foi nomeado presidente do Conselho de Ministros, EPC, respondendo a um inquérito [«Como encara o actual momento político?»], procurava convencer-nos de que havia sinais «que justificam plenamente um certo optimismo…»* Como queriam que EPC mudasse depois, se a idade nunca fez bem a ninguém?

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* Veja-se o que pensava EPC, o então autodenominado marxista, acerca da «renovação na continuidade»:


sábado, março 5

 

Por que Sócrates escolheu Freitas?


1. Tenho uma vaga ideia de que a política externa portuguesa é, no essencial, definida no âmbito da NATO e da UE. A nomeação de Freitas do Amaral não irá, por isso, quebrar o sossego no Palácio das Necessidades. Tal como as coisas parecem passar-se, haverá provavelmente uns 30 diplomatas que poderiam cumprir, sem sobressaltos, a função. Por que então Sócrates escolheu Freitas para ministro dos Negócios Estrangeiros?

2. À primeira vista, Freitas do Amaral poderia ser um bom ministro da Reforma Administrativa. Conhece a matéria e, se tivesse o apoio do primeiro-ministro, poderia dar uma volta à Administração Pública. Mas essa tarefa pode desgastar politicamente quem se disponha a cumpri-la cabalmente.

3. Ser ministro dos Negócios Estrangeiros, pelo contrário, parece ser uma coisa aliciante. O titular do cargo não se expõe demasiado – e costuma aparecer nas sondagens como um dos ministros mais populares. Significa isto que, se tudo correr como é habitual, Freitas do Amaral será, dentro de alguns meses, um dos membros do Governo com uma imagem (mais) positiva. Para alguma emergência de última hora, Sócrates fica com um candidato presidencial de reserva. No bolso.

4. Por outro lado, a escolha de Freitas pode ter sido uma forma de travar as ambições de Jaime Gama, que é tradicionalmente o dono, no PS, dos «Negócios Estrangeiros». Sócrates deu a Gama o Ministério da Defesa (Luís Amado), mas retirou-lhe o Palácio das Necessidades. Tendo em conta a diminuta equipa que o apoia, Jaime Gama indicaria José Lello ou Miranda Calha para a pasta que coube a Freitas do Amaral?

sexta-feira, março 4

 

«Sete medidas para um programa de esquerda»*


«Estas sete propostas, naturalmente, não pretendem constituir um programa de governo, mas no seu conjunto teriam maior impacto no nosso futuro que muitos programas a que temos sido sujeitos. A maioria das medidas são, mais ou menos, conhecidas e até têm sido levadas a cabo nalguns países europeus. O que este texto tem de novo é a defesa articulada de medidas que poderiam ser o sal num programa de esquerda para mudar o país. Obviamente, cada uma delas teria que ser devidamente enquadrada num conjunto mais vasto.

1. Acabar com o sigilo fiscal (a par de uma declaração de riqueza) constitui a minha primeira proposta, seguindo, aliás, a prática dos países escandinavos. O acesso geral aos rendimentos brutos de cada um seria uma forma muito eficaz de controlo pelos cidadãos da evasão fiscal. Este combate terá sempre um impacto pequeno na consolidação orçamental, mas por razões de moralidade e equidade é absolutamente necessário prosseguir essa luta. Acabar com o sigilo bancário é menos eficaz e teria efeitos muito negativos no sistema de pagamentos a retalho, actualmente um dos mais eficientes do mundo, com os correspondentes custos para o consumidor. Não deixa de ser exemplar o que se passou na vizinha Espanha, em que o fim do sigilo bancário para efeitos fiscais levou ao surgimento de 'gangs' especialistas em extorsão (pelas contas bancárias fica-se a saber a vidinha de cada um...) e de acordo com os 'rankings' mundiais a Espanha continua a ter níveis de corrupção semelhantes a Portugal. Note-se que o sigilo bancário para efeitos fiscais já foi muito suavizado no segundo governo socialista e, naturalmente, não existe para crimes graves como tráfico de droga, prostituição, lavagem de dinheiro...

2. A segunda medida proposta também teria impacto fundamental na moralização da vida pública portuguesa: alterar a lei da droga. A droga deveria ser distribuída gratuitamente por receita médica, acabando, assim, com a possibilidade de realização de lucros ao maior negócio provavelmente existente em Portugal. O marketing dos traficantes deixaria de existir, "dealers" deixariam de ter interesse em seduzir os nossos filhos, a sociedade e as instituições seriam menos corrompidas e todos estaríamos mais seguros. Neste aspecto o exemplo dos suíços - também eles são um pequeno país - deveria ser tomado como referência.

3. Na área partidária é fundamental acabar com o financiamento privado dos partidos. Esta terceira proposta de financiamento exclusivamente público, que há muito vem sendo falada, permitiria isolar os partidos de compromissos pouco claros e de conflitos de interesses a que estão sujeitos, ficando mais imunes a "lobbies" ilegítimos, quando não mesmo ilegais.

4. Mas é também necessário atrair mais e melhores pessoas para a actividade política. Há dias, por mero acaso, revi a lista dos deputados-constituintes de 1975-76. De facto, estava lá o melhor que o país tinha e, comparativamente, a situação actual é triste e paupérrima, pese embora o empenho de algumas andorinhas em fazerem a Primavera... Sugiro, assim, como quarta proposta, que o vencimento das pessoas em cargos públicos seja (apenas como exemplo) 50 por cento acima da média dos rendimentos do trabalho declarados em IRS nos 3 anos anteriores a tomar posse! Em cargos estritamente políticos é necessário remunerar a função, mas também a pessoa. Desta forma afastar-se-iam da política os menos honestos e poderíamos contar com pessoas mais qualificadas. O impacto na despesa pública seria mais que compensado pelos resultados na qualidade e transparência da governação do país.

5. Noutra área bem diferente, pelo menos aparentemente, seria fundamental acabar com a dependência do financiamento das câmaras em relação a novos projectos urbanísticos. Esta quinta proposta, seria essencial para acabar com a construção indiscriminada, em prejuízo da indústria do turismo de qualidade, da preservação do património arquitectónico e arruinando o ordenamento do território, já para não referir as mais que indesejáveis dependências (de partidos e câmaras) face a empresas de construção civil.

6. Simultaneamente, sexta proposta, seria levantado um imposto sobre a terra: meio cêntimo por metro quadrado, por exemplo. Este imposto seria muito fácil de cobrar e não prejudicaria os mais pobres, o que não deixa de ser muito interessante, pois a teoria económica ensina que os "melhores" impostos são também em geral socialmente injustos. Este caso é a excepção. Mas os efeitos secundários do imposto sobre a terra seriam muito mais importantes. As terras improdutivas seriam postas no mercado, naturalmente os preços cairiam o que beneficiaria o investimento no sector primário. O emparcelamento surgiria sem imposição estatal, o abandono das terras seria penalizado, a dita desertificação seria contrariada... e até os fogos de Verão teriam mais dificuldade em se propagar...

7. Por último, não posso deixar de referir uma medida que me é particularmente cara e que defendo há anos e anos: introduzir o inglês na pré-primária. Já que outra linguagem ninguém ouve, saliente-se que esta é a forma mais barata para o Estado de ensinar inglês. Mas muito mais importante, alteraria a prazo a especialização e as vantagens competitivas na localização da actividade económica, factor essencial no mundo globalizado de mobilidade de capitais. Há muito que se refere uma banalidade: "o modelo português de desenvolvimento está esgotado"! Mas a generalização, desde a pré-primária, do ensino do inglês faria mais pelo desenvolvimento que as dezenas de "pedipes" levadas a cabo nos últimos 20 anos! E mais barato, mais uma vez...

Um velho professor meu avisou-me um dia que nunca se põe mais de uma ideia num artigo. Eu ousei falar em sete, mas com a consciência de que cada uma delas merecia um artigo, em especial o problema do sigilo fiscal como contraponto ao sigilo bancário, a alteração das leis da droga e o imposto sobre a terra.

Mais ainda, a lista é manifestamente incompleta. Por exemplo, apenas para falar do ensino superior necessitaria de vários artigos.

No entanto, com estas sete medidas teríamos a prazo, mais ou menos curto, políticos, partidos e um Estado mais fortes e independentes para enfrentarem os grandes "lobbies" e as forças corporativas mais imobilistas. E elas são muitas, desde logo o poder económico, mas também os professores (incluindo os universitários), os juízes, os médicos, os jornalistas...

Um aviso importante: defendendo estas medidas, perder as eleições poderá ser uma honra, mas é também muito provável!»
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* Luís Campos e Cunha, Público, 5 de Setembro de 2004 (sublinhados da pulga)

[Texto reproduzido no Pula Pula Pulga (1.ª Série) em 9 de Setembro de 2004]

 

New skin for the old ceremony


Paulo Gorjão disse o essencial sobre a intenção manifestada por Fernando Ruas de interpor um processo contra Saldanha Sanches*: trata-se de uma clara manobra de intimidação. Mas esta atitude do presidente da Associação Nacional de Municípios (ANM) pode ter em vista dois outros objectivos: um interno (autarcas) e outro externo (media e opinião pública).

Tomando a ANM por uma associação sindical de autarcas (e não de municípios...), é provável que muitos presidentes de câmara tenham reclamado junto de Fernando Ruas a assumpção de uma atitude de desagravo. O presidente da ANM, para evitar problemas internos, decide-se então a fazer uma declaração «burocrática», na qual dá conta de que vai recorrer para os tribunais – mesmo que depois não venha a fazê-lo. E a verdade é que, ainda há poucos meses, Saldanha Sanches fez umas declarações similares – e Fernando Ruas afirmou então que iria processá-lo judicialmente… sem o ter feito.

Por outro lado, parece que é dos «manuais» que, quando confrontados com declarações como as que Saldanha Sanches produziu, os visados recorram aos jornais, desmentindo o que foi dito e revelando a intenção de recorrer aos tribunais. Mesmo que depois não o façam, é o que fica na memória dos jornalistas e dos poucos leitores que, ao fim de uns dias, ainda se recordam do episódio.

Não foi Paulo Portas que publicou, há quase três anos, anúncios em vários jornais a comunicar que iria interpor uma acção contra o Expresso, exigindo uma indemnização de um milhão de contos por ter publicado elementos sobre o caso Amostra/Moderna? Algum jornalista voltou a questionar Paulo Portas sobre este propósito não consumado?

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* Haverá corrupção onde houver dinheiro e se revelar débil o sistema de controlo. Como está referido
aqui e ali, não estou seguro de que a análise de Saldanha Sanches não esteja algo desfocada (ou, ao menos, incompleta).

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