quarta-feira, fevereiro 2

 

Um «centrão» de geometria variável


Ontem, Luís Lavoura comentou um post do Pula Pula sobre o PP. Sustenta este leitor – e a sua posição é tanto mais surpreendente quanto Luís Lavoura parece assumir-se como votante de esquerda – que o crescimento do PP será «positivo para a democracia portuguesa». Deixando de lado a primeira das razões que invoca (que pressupõe uma outra variante da neutralidade da política, agora tão em voga), concentremo-nos no seguinte: o crescimento do PP «à custa do PSD», segundo Luís Lavoura, «tendencialmente, reduz o Centrão da corrupção e dos grupos de pressão».

O problema parece estar colocado de pernas para o ar. Haverá corrupção e grupos de pressão onde houver poder e dinheiro, gente disposta a vender-se ou a ceder a pressões e um controlo débil das actividades dos políticos. Ora o acesso de um partido marginal à área do poder não reduz automaticamente esses problemas – pelo contrário, alarga o espectro dos potenciais alvos, como se o centrão se expandisse, deslocando-se para a direita. A designação «centrão» parece-me, de resto, equívoca. Mistifica mais do que esclarece.

A situação actual deve ser lida à luz da nova realidade: o PP já possui ministros e secretários de Estado e assessores e membros de conselhos de administração e directores-gerais e… Por que haveria de ser tudo diferente com o PP (tanto mais que o passado recente até nos deveria pôr de sobreaviso)?

Ou dito de outro modo: será que Luís Lavoura acredita que nas câmaras «comunistas» o que o «centrão» representa não passa do átrio dos paços do concelho? Há nas vereações do PCP algum mecanismo específico que estimule o controlo por parte dos eleitores (e esta é a questão nuclear)?

Comments:
exactamente!
e a essa questão nuclear todos sabemos a resposta!: NÂO!
abraço.
 
Repare a pulga que, no meu comentário, eu disse que será positivo para a democracia portuguesa que o CDS cresça à custa do PSD. Não disse, em abstrato, que é positivo que o CDS cresça, e muito menos disse que é positivo que o CDS cresça à custa do PS ou do PCP.

Considero preferível uma situação em que o CDS tenha 15% dos votos e o PSD 20%, a uma situação em que o PSD tenha 30% dos votos e o CDS apenas 5%. Apesar de em ambos os casos a soma dos dois partidos ser 35%.

O ponto é que "zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades". E há também que fomentar uma pluralidade de posições, de opções políticas, mesmo dentro da direita. A direita liberal é diferente da direita conservadora - da mesma forma que a esquerda liberal é diferente da esquerda estatista (comunista ou social-democrata).

E é bom que todas as opções políticas tenham partidos diferenciados e viáveis ao seu dispôr.

No quadro político atual, Portugal aproxima-se dos E.U.A. - com dois partidos que são, na verdade, duas facções de um mesmo partido.

Com um CDS crescido à custa do PSD, o panorama enriquecer-se-á.
 
Bem posta a questão da corrupção !
 
e' isso que dizes oh pulga !
 
Quando é para sacar eles entendem-se. Veja-se o caso das câmaras municipais em que não há uma maioria de um partido: os vereadores dos vários partidos (incluindo o PC) entendem-se sobre o bolo a repartir. O dinheiro fala mais alto. Não será o facto dos partidos terem votações semelhantes que fará com que diminua a corrupção. A dispersão de votos contribuirá para que haja uma maior repartição do referido bolo entre os partidos mais votados. Só um controlo forte das actividades dos partidos e dos seus membros é que poderá fazer com que a corrupção diminua. Outro exemplo é o das principais sociedades de advogados. Os principais partidos estão lá todos representados. Aliás, se se fizer uma análise mais cuidada deve-se chegar à conclusão que algumas dessas sociedades terão tido nos vários governos (desde há décadas) um seu representante. Eventualmente o mesmo se passará nas principais empresas de construção civil, telecomunicações etc. etc. etc......
 
Primeiro: O Sr. Luís Lavoura vem agitar a questão do crescimento do CDS à custa do PSD (no que poderia chamar-se Judite de Sousa, ou travestir-se de n jornalistas da nossa praça!), o que é apenas uma das maneiras de entender o possível crescimento do partido do Caldas. Os que agitam esta «ameaça» fazem-no com um objectivo bem claro: «puxar» pelo ressentimento profundo que existe em cada social-democrata contra Portas, o velho verdugo do PSD nos tempos do independente. Portanto, alimentar este fantasma interessa ao PSD, tanto quanto a todos os outros partidos, com excepção do próprio CDS.
Segundo: No que será, decerto, uma dificuldade minha, não consigo perceber as vantagens desta transferência de votos do PSD para o CDS, tal como o Sr. Luís Lavoura as enuncia, embora pudesse apontar outras, se a expectativa de significativa transferência de votos entre ambos os partidos fosse mais do que o temor de uns quantos e a esperança de alguns.
Terceiro: Centrão e corrupção – o Pula Pula resumiu, magnificamente a questão. No entanto, e apesar da certeira referência ao poder autárquico,para entender como certa a sua conclusão de que «o acesso de um partido marginal à área do poder não reduz automaticamente esses problemas – pelo contrário, alarga o espectro dos potenciais alvos, como se o centrão se expandisse» há que ser isento, logo não pode reduzir-se o redireccionamento apenas no sentido da direita, pois ele verificar-se-á na direcção do partido marginal, seja este de esquerda, ou de direita.
Quarto: Das suas intenções saberá o Sr. Luís Lavoura, mas não é despiciendo analisar as consequências, para a governabilidade, de um efectivo crescimento dos partidos marginais, à direita e à esquerda. Se não estou em erro, JPP terá sido dos primeiros a ensaiar essa reflexão; não me parece, contudo, que esta questão esteja a ser objecto de um debate sério nesta campanha. O que, de resto, não admira, porque nada está.
 
Precisamente, o que eu digo é que as consequências para a governabilidade do crescimento de novos partidos são positivas. Porque passa a haver mais possibilidades de alianças. Os governos deixam de ser PS ou PSD mais uns apêndices, e passam a ser "de geometria variável". É difícil alcançar maiorias absolutas mas, havendo muitos partidos com uma representação parlamentar substancial, a possibilidade de formar diversas coligações passa a ser maior.

As consequências para a democracia são também positivas, porque os negócios entre os partidos são sempre feitos mais ou menos às claras, ao contrário daquilo que acontece com os negócios no interior de cada partido. Assim, por exemplo, no governo anterior era claro que o CDS obrigava o PSD a não permitir a liberalização do aborto. Enquanto que no governo de Guterres a negociata sobre o mesmo assunto era feita em segredo no interior do PS, neste governo a negociata foi feita às claras. Ora, os negócios políticos devem ser feitos às claras, para que o povo saiba claramente qual é a posição de cada um.

Se o PS tiver maioria absoluta, podemos ter a certeza de que a condução da política do país, nas suas diversas vertentes, vai ser objeto de negociações internas, secretas, entre as diversas facções e os diversos grupos de pressão no interior do PS. O povo não poderá escrutinar essas negociações. Num governo de coligação com dois, três ou mais partidos, pelo contrário, as opções políticas são debatidas entre os partidos, e o povo pode saber quem defende o quê.
 
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