quinta-feira, janeiro 20

 

Semana dedicada ao «ADESIVISMO»¹ [conclusão]


«Como vimos, o “adesivismo” teve início em Outubro de 1910. Prosseguiu atribuladamente nos anos seguintes, inflectindo cada vez mais para a força política ascendente, isto é, para os “afonsistas” ou democráticos. E foi exactamente sob o primeiro governo monocolor democrático que se esclareceu definitivamente a atitude da República perante os conversos. Tornou-se então evidente que o regime evoluía para uma República com (ex-) monárquicos. Em Julho de 1913, O Dia publicitava que a “adesivagem já tem que farte: estão em praça 35 lugares em S. Bento a 3$333 réis por dia e por cabeça. – Eleição em Novembro. Trata-se no Terreiro do Paço. É não perder tempo! Toca a oferecer. Na verdade, mal foi empossado, Afonso Costa dedicou-se a preparar a máquina eleitoral à boa velha maneira e sem quaisquer rodeios.

O acolhimento que prestou aos políticos profissionais era indissociável da sua condição de donos de zonas de influência. Conforme observava O Dia, “é inexplicável a solicitude, o empenho, com que os jornais republicanos procuram atrair às anunciadas eleições suplementares vários antigos monárquicos […] com a preferência, que é deveras curiosa, entre tantas dezenas de homens públicos, dos que foram, durante longos anos, ministros, pares, deputados monárquicos”.

Os adesivos “afonsistas” provieram de todas as antigas facções da Monarquia, além de individualidades extra-partidárias. Dentre as últimas destacam-se o oficial do Exército Correia Barreto, que na República ascendeu a ministro, organizador do grupo político-militar dos Jovens Turcos e presidente do Congresso; o general António do Carvalhal, 1.º comandante da divisão militar de Lisboa e deputado; o oficial da Armada Victor Hugo de Azevedo Coutinho, presidente da Câmara dos Deputados e chefe do célebre governo dos “miseráveis”.

Muitos dos ex-“franquistas” que se ligaram a Afonso Costa desempenharam cargos e funções de enorme relevância política e militar. É o caso de Leote do Rego, membro dos Jovens Turcos e um dos chefes do golpe de 14 de Maio de 1915; Norton de Matos, igualmente filiado nesse grupo, governador de Angola, ministro e estratega militar da intervenção de Portugal na Guerra mundial; Alfredo Rodrigues Gaspar, presidente da Câmara dos Deputados, ministro e presidente de ministério; Vitorino Magalhães, ministro e presidente de ministério; Freire de Andrade e Abel Fontoura, ministros.

Políticos ex-progressistas, como Catanho de Meneses, Cerveira de Albuquerque e Júlio Dantas, também guarneceriam governos de colaboração democrática. Por outro lado, Barbosa de Magalhães e Levy Marques da Costa contam-se entre os ex-dissidentes progressistas que singraram na política através do Partido Democrático; o primeiro foi deputado, presidente do Senado e ministro.

Quanto aos ex-regeneradores “teixeiristas”, cumpre referir figuras como Ernesto de Vilhena, Arantes Pedroso, Ernesto Navarro, Jaime de Sousa e Melo Barreto, todos ministros de elencos democráticos, além de Nicolau de Mesquita, várias vezes governador civil de Vila Real. Melo Barreto e Nicolau de Mesquita eram muito íntimos do último presidente de ministério da Monarquia. Fizeram carreira política por Trás-os-Montes, precisamente um dos bastiões de Teixeira de Sousa.

Esta província é das que melhor ilustra a continuidade dos feudos caciquistas. A demissão do administrador do concelho de Chaves, em Fevereiro de 1911, alertou a opinião da capital para o entendimento que se havia estabelecido entre o governador civil de Vila Real e elementos “teixeiristas” e “alpoinistas”, sugerindo-se o envolvimento de Afonso Costa nessas movimentações. Por meados de 1913, o “bando” transmontano de Teixeira de Sousa voltava à ribalta, sendo então acusado por democráticos flavienses de “inspirar” as festas de comemoração do combate de Chaves e de ter “assaltado” a política local.

Isto não impediria Bernardino Machado e Afonso Costa de patrocinarem, em Julho de 1914, a candidatura de Teixeira de Sousa a administrador da Companhia dos Caminhos-de-Ferro. Após o derrube da ditadura de Pimenta de castro, o favorecido iria retribuir com ajuda eleitoral, sendo para efeito visitado por Afonso Costa na sua casa de Sanfins. Note-se que por esse tempo uma nova Lei eleitoral atribuía aos distritos de Bragança e Vila Real dois dos melhores quocientes de representação parlamentar de todo o País.

Contudo, já antes de 1915 vinha Teixeira de Sousa assegurando votos e deputados aos “afonsistas”. Discursando no funeral do ex-chefe regenerador, em 8 de Junho de 1917., Melo Barreto lembrava, reconhecido, ao povo transmontano que, “sob o patrocínio e carinho de Teixeira de Sousa, há já mais de dez anos que me dais os vossos votos, para que vos represente no Parlamento. Ou seja: da Monarquia para a República, sem solução de continuidade!»

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¹ Fernando Farelo Lopes, Poder Político e Caciquismo..., cit., pp. 48-50.

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