quarta-feira, janeiro 19

 

Semana dedicada ao «ADESIVISMO»¹ [3]


«Os “adesivos” integraram-se com a relativa facilidade nas comissões republicanas e nos órgãos da Administração local e central. Muitos deles limitaram-se a permanecer nos cargos e postos que ocupavam. Por exemplo, o chefe de gabinete de Marnoco e Sousa, ministro da Marinha do último governo da Monarquia, não foi exonerado e passou a servir o novo ministro, Amaro de Azevedo Gomes.

Tais sucessos indignavam certa imprensa republicana. Sob o título sugestivo de “A Monarquia acabou!”, um editorial d’O Século lembrava que o regime deposto se não resumia a D. Manuel e aos seus cortesãos; era todo um sistema político, com os seus homens públicos, os seus partidos, os seus caciques, as suas clientelas. Admitindo embora que um cidadão monárquico pudesse aderir, o editorial já não aceitava “o acto de solidariedade política dum partido”.

No entanto, esses apelos não tinham grande eficácia. Em Novembro, o general Raposo Botelho e Manuel Mansilha, ministros do último governo da Monarquia, foram nomeados para o Supremo Tribunal de Defesa Nacional e para a Inspecção da Fazenda numa das colónias, respectivamente. A colocação de políticos “teixeiristas” e de outras facções ex-monárquicas prosseguiu nos meses seguintes.

Condicionantes e limitações de natureza económica, cultural e política impediam a República de actuar de modo diferente, como de resto se aperceberam os sectores oposicionistas mais advertidos. Enquanto o deixaram sobreviver, o Correio da Manhã procurou demonstrar que o novo regime não podia suprimir as dependências que prendiam os eleitores aos influentes, pelo menos durante o lapso em que persistissem as raízes e causas sociais do caciquismo. Previu mesmo que o entendimento com os caciques monárquicos se tornaria imprescindível na fase de preparação das eleições, primeiro passo com vista ao restabelecimento da normalidade constitucional; então, “a República terá de bater à porta do cacique […], oferecer a estrada, promover a ponte, negociar o despacho, e até virar uma boa canada na tasca ou na adega, para solenizar a convenção eleitoral”.

Na realidade, as coisas foram menos simples do que isso. A imprensa “afonsista” empenhou-se em denunciar o cacique monárquico e o “influente reaccionário”, alertando para a possibilidade de eles virem a condicionar o voto e corromper o futuro Parlamento. Alguns dirigentes moderados, como Brito Camacho, tinham dúvidas acerca da sinceridade de todos os ex-monárquicos, sobretudo de um que aderiu “oferecendo milhares de homens, sobre quem exercia predomínio”. Entretanto, militantes radicais e carbonários já haviam iniciado a depuração de inúmeras comissões administrativas e partidárias, numa intensa e vasta “montaria” aos “adesivos” e “talassas”.

O “adesivismo” tornou-se uma questão politicamente complexa. Abriu brechas nas hostes republicanas, entre “almeidistas” e “afonsistas”, entre as cúpulas moderadas e as bases radicais. Estariam em jogo, para lá dos ideais, interesses menos puros, já que uma das razões da campanha desencadeada contra os conversos terá sido a urgência de excluí-los da concorrência com as clientelas republicanas no provimento de lugares e na consolidação de influências.

Todavia, a rede lançada aos “adesivos” tinham malhas relativamente amplas. Enquanto militantes republicanos perseguiam ex-monárquicos por todo o lado, “o sr. Bernardino Machado, não tendo engenheiros suficientes para a montagem das máquinas eleitorais, e sabendo que Alpoim & Cª é uma firma de primeira ordem, adere-lhe com toda a força estomacal no Hotel de Inglaterra”. E apesar das conhecidas ligações de Bernardino Machado aos “afonsistas”, estes não se eximiram de acusar o Directório, até então controlado pelos moderados, de ter facilitado o acesso de “adesivos” à Assembleia Constituinte.»

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¹ Fernando Farelo Lopes, Poder Político e Caciquismo..., cit., pp. 46-8.

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