terça-feira, janeiro 18

 

Semana dedicada ao «ADESIVISMO»¹ [2]


«Implantada a República, as organizações monárquicas dissolveram-se de imediato. Segundo um ex-dirigente do Partido Progressista, tal facto acarretou a suspensão ou a adesão ao novo regime dos jornais que as apoiavam. Trata-se de uma interpretação questionável, já que o seu autor se esqueceu de relacionar aquela adesão com a de antigos chefes, “marechais” e respectivas redes, cuja amplitude passamos a descrever.

Pelo que acima dissemos acerca dos alinhamentos políticos nos últimos anos da Monarquia, não surpreenderá a pronta adesão de Alpoim e de quase toda a comissão executiva da Dissidência-Progessista. O mesmo fizeram, mais cedo ou mais tarde, as restantes individualidades da facção, em particular, o escritor Abel Botelho, os professores universitários Caeiro da Mata, Pedro Martins e Francisco Fernandes, o visconde do Ameal, o visconde de Peralva, os advogados Sousa Costa e Pereira dos Reis, bem como o funcionário e jornalista Santos Tavares.

As redes provinciais seguiram um movimento. Em Aveiro, aderiram todos os parentes e amigos do dr. Barbosa de Magalhães, incluindo o director da folha dissidente local (O Campeão das Províncias). Em Seia, terra natal de Afonso Costa, o dr. Mota Veiga levou para a República todos os elementos do grupo, facto prontamente comunicado ao ministro da Justiça do Governo Provisório. O dr. Egas Moniz preferiu dirigir-se a António José de Almeida para transmitir a sua adesão e a dos seus amigos do concelho de Estarreja e do distrito de Aveiro. Em diversas localidades, como Mesão Frio, Tarouca, Gouveia e Moimenta da Beira, os “alpoinistas” aderiram rapidamente e por vezes substituíram os inexistentes republicanos no acto de proclamação do regime.

Quanto ao Partido Regenerador, influentes e clientelas locais precederam amiúde os chefes e “marechais” na declaração formal de adesão. Os de Borba converteram-se em massa, comunicando-o prontamente a Teófilo Braga. No dia 7, a revolução era aclamada pelo “monarquismo” de Vila Real, no qual avultavam os amigos do último presidente de ministério da Monarquia, Teixeira de Sousa. Em Gavião, aderiram o administrador do conselho, os vereadores, empregados municipais e influentes regeneradores (8 de Outubro). No dia seguinte aderiram os sessenta membros da facção da Guarda, bem como os filiados do Louriçal (S. Fiel). É inútil prosseguir, tantos foram os locais em que as clientelas acataram o “ideal novo”.

No dia 16 de Outubro, O Século publicava as primeiras declarações políticas de Teixeira de Sousa. O ex-chefe regenerador informa então que os seus amigos o haviam convencido a adiar a resolução de se afastar da política, e que de momento tinha como única certeza que “toda a tentativa de restauração seria inútil e inconveniente”. Em suma, não declarava abandonar a política e, se nela continuasse, não seria no campo monárquico.

A conversão de personalidades regeneradoras tomou o aspecto de debandada. O último ministério da Monarquia forneceu seis ilustres “adesivos”, para não referir os chefes de gabinete, secretários, etc.. Os conselheiros da Coroa quedaram-se pelos quatro, mas os deputados superaram a dezena. Foram inúmeros os funcionários, juízes, militares, jornalistas e professores regeneradores que quiseram participar no novo regime.

Menos numerosa foi a “adesivagem” provinda das (reduzidas) hostes “franquistas”. A imprensa não menciona adesões organizadas na província, com excepção de Abrantes e Amarante, aqui devido à influência do ex-padre do Reino Teixeira de Vasconcelos. Particularmente visados pelas autoridades e bases republicanas, os regenerados-liberais forneciam destacados elementos às lutas restauracionistas.

As circunstâncias descritas explicam o denodo com que tiveram de actuar os “franquistas” que aspiravam a um lugar na República. Se a sua adesão assumiu “proporções de escândalo”, não foi tanto pela amplitude como pelo passado político do grupo e pelo facto de nela se integrarem individualidades que tinham exercido os mais elevados cargos no regime deposto. Dentre essas individualidades sobrelevam o general José de Morais Sarmento, ministro da Guerra e par do Reino; o tenente-coronel Freire de Andrade, governador geral de Moçambique e ajudante-de-campo do Rei, além do membro da “glorioso plêiade” africanista de António Ennes; o conselheiro Teixeira de Vasconcelos, par do Reino e governador civil do Porto; o oficial da Armada Leote do Rego, deputado, ajudante-de-campo do Rei e frequentador do paço real. Podemos ainda referir Oliveira Muzanty, oficial da Armada e governador da Guiné, e Ferreira de Almeida, secretário da legação em Londres e “cronista elegante” em vários jornais “franquistas”. Os militares estavam amplamente representados nos conversos do grupo.

O Partido Progressista foi o que menos gente ilustre deu à República. Ainda assim, forneceu-lhe ex-deputados, como Augusto de Castro, João Ribeiro Coelho e Júlio Dantas. Este “voltou costas às marquesas monárquicas, e passou a fazer mesuras e versos às Severas e Joaquinas dos Cordões republicanos”. De resto, a “adesivagem” foi musa inspiradora de outros poetas do “progressismo” (Afonso Lopes Vieira e Henrique Lopes Mendonça).

As adesões dos progressistas raramente se efectuaram de forma organizada ou colectiva. Na Póvoa de Varzim, o Partido decidiu reconhecer “a salutar acção do novo regime em Portugal” e cooperar com o “republicanismo” local. Os membros da Caldas da Rainha aderiram à República “com o mesmo calor e sinceridade com que defendemos a Monarquia”. Particularmente elucidativa é a situação de Aveiro, onde a transição para a República parecia inserir-se nas habituais guerras de campanário: os seguidores do conde de Águeda, cuja influência vinha sendo disputada nos últimos anos pelo dissidente Egas Moniz, responderam à imediata adesão deste com a “leal e desinteressada” adesão dos seus 125 elementos e a promessa de dávida de sete deputados pelo círculo.

Não consta que tenham surgido conversões significativas da facção “henriquista”. Quanto a outros grupos, apenas merecerá referência a dos “amaralistas”, do Almirante Ferreira do Amaral, ex-par do Reino, ex-ministro da Marinha e primeiro presidente de ministério do reinado de D. Manuel II.

Apesar da lista de adesões que apresentámos, a qual não é exaustiva, convirá sublinhar que a maioria dos dirigentes partidários, pares do Reino, deputados e governadores civis da Monarquia findou a sua actividade política no dia 5 de Outubro. Tão-pouco se esquecerá que muitos permaneceram na expectativa e que uma minoria se dispôs a combater a República desde a primeira hora.»

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¹ Fernando Farelo Lopes, Poder Político e Caciquismo..., cit., pp. 42-6.

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