segunda-feira, janeiro 17

 

Semana dedicada ao «ADESIVISMO»¹ [1]


«O termo “adesivismo” exprime o processo de conversão de políticos, facções e jornais monárquicos ao regime implantado em 1910. Enquanto fenómeno maciço, o “adesivismo” é inseparável da proeminência das relações clientelares, bastando evocar a “desideologização”, o pragmatismo e a instabilidade que regem o vínculo de patrocinato no caciquismo de transição. Contudo, para melhor compreensão do fenómeno, há que acrescentar a esta explicação genérica uma referência aos alinhamentos político-partidários no quadro da desagregação dos partidos rotativos e da polarização da cena política nos finais da Monarquia.

Em seguida ao Regicídio de 1908, uma revista católica vaticinava que as forças políticas iriam organizar-se em dois grupos rivais: o “conservador”, que reuniria os partidários de João Franco (regeneradores-liberais ou “franquistas”) e os nacionalistas (católicos); e o “avançado”, constituído pelos republicanos e pelos dissidentes-progressistas liderados por José de Alpoim. Com efeito, os dissidentes eram o caso mais evidente de “colagem” ao Partido Republicano, embora a facção regeneradora “teixeirista” também procurasse identificar-se com este Partido, o qual chegou a ver em Teixeira de Sousa o representante de “um certo liberalismo de inspiração republicana”.

Em Janeiro de 1908, os dissidentes-progressistas envolveram-se com os republicanos numa malograda revolução, e o seu chefe terá contribuído para o Regicídio. Alpoim foi um dos mais ferrenhos anticlericais no seio do regime. Veio a preconizar que a Monarquia “avançasse para a esquerda até se aproximar, o mais possível, do modelo da Constituição belga”. As suas posições em matéria eleitoral tornaram-se praticamente idênticas às do Partido Republicano.

Em contrapartida, nas vésperas da revolução republicana os “franquistas” e os nacionalistas integraram o “bloco de defesa monárquica”, juntamente com o pequeno Partido Legitimista e os regeneradores “henriquistas”, a par de activistas católicos e de oficiais ligados às colónias. Esse “bloco” representava não só uma oposição ao último governo da Monarquia, chefiado por Teixeira de Sousa, como também o renascimento da táctica contra-revolucionária que tinha sido ensaiada em 1907-1908, sob a ditadura de João Franco, e abandonada após o Regicídio. O seu objectivo consistia em “provocar a revolução e esmagá-la, isto é, entrar em ditadura e tornar ilegal o PRP”, tanto mais que a via de “acalmação” tentada por D. Manuel II e pelas autoridades governativas se revelava incapaz de travar a ascensão dos republicanos.»
___________
¹ Fernando Farelo Lopes, Poder Político e Caciquismo na 1.ª República Portuguesa, Estampa, Lisboa, 1993, pp. 41-2.

Comments: Enviar um comentário

<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?