segunda-feira, janeiro 24

 

O homem é perigoso


Vasco Pulido Valente no Público de Domingo:

«Enquanto por cá nos distraíamos com os mil desastres do nosso pobre Portugal, Bush tomava posse e anunciava a sua política. “A América neste novo século”, disse ele, “proclama a liberdade para todo o mundo”. E disse mais: que a América não vai ignorar a “tirania”, seja ela qual for, nem principalmente desculpar os tiranos. Segundo parece, para ele, expandir a liberdade é o imperativo e “o apelo do nosso tempo”. À minha geração, o discurso de Bush lembra logo outro, feito no mesmo lugar e na mesma cerimónia. “Que as nações saibam, as que estão connosco e as que não estão, que pagaremos qualquer preço, suportaremos qualquer carga, aceitaremos qualquer sacrifício, apoiaremos qualquer amigo, combateremos qualquer inimigo, para garantir a sobrevivência e o sucesso da liberdade”. Estas palavras messiânicas são de Kennedy e na altura emocionaram muita gente. Só que o messianismo conduziu a América ao Vietnam, a uma guerra fútil e perdida e a uma crise de confiança no Ocidente inteiro, que durou até Reagan e à sra. Thatcher: vinte anos, quase dia a dia. Mas nem Kennedy foi original. Em 1917, Wilson também entrou na guerra com a ideia heróica de “tornar o mundo seguro para a democracia”. E, sem consultar a Inglaterra e a França, produziu os “catorze pontos” que iam impor esse prodígio. “A Deus bastaram dez”, preveniu um cínico. De facto os “catorze pontos” criaram o caos na maior parte da Europa, contribuíram largamente para a emergência do comunismo russo, do nazismo e do fascismo, tornaram inevitável a II Guerra e ainda hoje exigem uma “força de paz” na Bósnia.

O idealismo americano trouxe invariavelmente consigo a pior miséria e a pior violência. E atenção: Lincoln, Roosevelt e Truman não pertencem à escola. Para lá da retórica, tinham objectivos limitados. Lincoln manter a União; Roosevelt liquidar Hitler e o império japonês; e Truman não permitir a expansão do comunismo. Wilson, Kennedy e Bush, pelo contrário, partilham a paixão moral e a arrogância do poder, que, em nome da liberdade, sempre destruiu a liberdade. O programa de Bush, agora reiterado na sua definitiva forma, não promete nada de bom. Já o levou ao Iraque, um sarilho sem fim, e não tardará que o leve ao Irão e à Coreia do Norte. O homem passou o limite do senso, da responsabilidade e do realismo. O homem é perigoso.»

Comments:
Grandes verdades.
 
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