sexta-feira, janeiro 21

 

O bom aluno

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Vasco Pulido Valente no Público de hoje:

«A primeira campanha de Guterres foi precedida por um ajuntamento que se chamou “Estados Gerais”. A ideia era coleccionar as reivindicações de toda a gente para depois prometer tudo a toda a gente. Brandindo o documento que saiu desse exercício, quinhentas páginas de loucura à solta, o presuntivo primeiro-ministro declarou no Coliseu que tinha ali, na sua mão, um “contrato de legislatura”. O facto de o “contrato” ser inteiramente incumprível não o perturbou. Vivia num Portugal da sua privada fantasia e nem o “programa de governo”, de que se esperava algum juízo, o fez descer à realidade do mundo. Não há maneira de saber se esta inconsciência na altura o ajudou. Mas com certeza que a prazo o prejudicou. A desilusão com o “guterrismo” contribuiu em grande parte para o “pântano” final e para o abjecto colapso do engenheiro, que já nem em si próprio acreditava.

Sócrates, como bom aluno, aprendeu a lição. Fala pouco e por generalidades, nunca diz nada de verdadeiramente relevante, foge a qualquer obrigação específica e se, por acaso, cai na asneira de anunciar a mais leve felicidade futura, trata logo de se desmentir ou mandar que o desmintam. As “Novas Fronteiras” (que raio de nome) não produziram, evidentemente, nenhum “contrato”. Nem o messiânico Vitorino produzirá um “programa” susceptível de amarrar o PS a políticas que se possam definir ou a objectivos que se possam medir. Pior: Sócrates também não quer debates, com medo que o forcem a esclarecer a ambiguidade geral da sua posição, ou que o limitem agora e no governo. Alguns críticos da esquerda e da direita tomam isto por incompetência. Erro deles. Sócrates, muito simplesmente, acha que, por horror a Santana, o país lhe passará um cheque em branco e não está disposto a concessões. Talvez se engane e Santana não chegue para o eleger, pelo menos com maioria absoluta. Só que, se não se enganar, fica com as mãos livres, como, tirando Cavaco, ninguém antes dele. Ganhou o partido e, se apanhar de graça o resto, ou seja, Portugal, irá para onde bem lhe apetecer. Com Deus, com o Diabo ou provavelmente com os dois. Sem “desiludir”, porque não prometeu, e sem resistência, porque é neutro e vazio.»

Comments:
José Sócrates não vai poder queixar-se de falta de alertas. A não ser que não goste de ler e o seu estado-maior seja incompetente ou desonesto.
 
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