sexta-feira, janeiro 28

 

Ninguém é responsável


Há em Portugal uma generalizada cultura da irresponsabilidade. Não é só ao nível do Estado e da Administração Pública que tal cultura está instalada. Nas grandes empresas privadas circula um intenso anedotário sobre decisões erradas de consequências catastróficas, pelas quais ninguém é responsabilizado.

Também na Igreja Católica a realidade não é diferente. Centremo-nos na figura de D. José Policarpo. Ninguém desconhece que foi ele o grande impulsionador do projecto TVI como televisão da Igreja. Tal projecto, cuja viabilidade económica como televisão católica ninguém com conhecimento do assunto assegurava ser possível (dada a reduzida dimensão do mercado publicitário), foi como se sabe um fracasso estrondoso.

D. José Policarpo fez tudo para levar avante tal projecto, desdenhando outras hipóteses mais prudentes, como a de a Igreja ficar apenas com algumas horas de emissão diária na televisão do Estado (independentemente da «justeza» da medida). Por sua determinação promoveu-se uma gigantesca operação de caça-níqueis por todo o país: ordens religiosas, outras instituições da Igreja, misericórdias, etc. foram chamadas a pôr os respectivos fundos ao serviço da futura televisão católica. Supondo responder ao chamamento da religião, viúvas remediadas e chefes de família piedosos investiram os seus esforçados pés-de-meia nas acções da TVI. E até mesmo a Universidade Católica – que está sempre a reclamar fundos do Orçamento do Estado, como se se tratasse de um estabelecimento público – foi bafejada com a oportunidade de investir várias dezenas de milhares de contos em tão devoto projecto. Não levou muito tempo até que todos estes investidores vissem totalmente fracassado
o projecto em que se haviam mobilizado.

Ficará para o anedotário nacional a história da velhinha mal informada sobre a evolução do projecto que, numa noite de insónias, resolveu ligar a TVI, que era suposto ser a televisão da sua igreja, e apenas viu aquilo que julgava ser propaganda do demónio.

Depois deste fracasso, D. José Policarpo ascendeu às glórias cardinalícias – e até se fala dele para papa ou, pelo menos, para um alto cargo na Cúria Pontifícia. Caro leitor, diga lá quem é que se preocupa com a responsabilidade em Portugal?

Comments:
Caro Pulga

Prefiro um sonhador do que um homem da regisconta. Por vezes os sonhadores falham mas a dignidade humana reside precisamente em aspirar ao mais alto.

A fronteira que separa o sonho possível do sonho impossível é por vezes simplesmente conjuntural mas a fronteira entre a competência e a incompetência é estrutural.

Que preferia? Um nazi estruturalmente competente ou um nazi estruturalmente incompetente?
 
Caro timshel

Não tenho a certeza de ter percebido o que quis dizer. A verdade é que D. José tem o direito de ter os sonhos que quiser, mas para a «realização» de tais sonhos não deve arriscar o dinheiro que não é dele, deixando velhinhas sem um tostão, ordens religiosas de tanga e por aí fora...

Duvido até que algumas das instituições que fizeram parte do projecto pudessem afectar fundos a coisas destas. Afinal, a TVI era (e é) uma sociedade anónima.
 
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