quarta-feira, janeiro 26

 

Joaquim Fortunato: «revolución o muerte»


Joaquim Fortunato, que exerce as funções de presidente da Associação de Empresas de Construção e Obras Públicas (AECOPS), pôs o dedo no nariz à classe política: «Ou há um pacto de regime ou se faz uma revolução, para que entre uma nova classe política. Tem de haver uma política coerente, uma estratégia para os grandes projectos de infra-estruturas que tenham o acordo dos dois principais partidos, para não haver sobressaltos.»

O mote está dado: os empreiteiros não estão dispostos a aturar «sobressaltos». Mesmo tratando-se de uma entrevista a um jornal de circulação restrita – o DN (suplemento Negócios de segunda-feira passada) –, vale a pena analisar as palavras do presidente da AECOPS. Diz o porta-voz dos empreiteiros:

«Há várias questões que condicionam a produção no sector. Logo à partida, não podemos continuar a viver num regime em que o governo chega, estabelece prioridades, define as infra-estruturas necessárias ao desenvolvimento do País e, quando as empresas começam a preparar-se, a criar gabinetes de estudo, a admitir técnicos, a encomendar projectos, a constituir consórcios para concorrer e executar essas obras, vem outro Governo e diz que tudo aquilo é um disparate, que não se vai fazer. E pára tudo

Esqueçamo-nos de que a AECOPS faz parte da CIP – cujo programa de festas se resume a reclamar a diminuição do peso do Estado na sociedade. Joaquim Fortunato dá-nos uma visão idílica da actividade dos empreiteiros: gabinetes de estudos, admissão de técnicos, encomenda de projectos… A realidade é um pouco menos complexa: as grandes empresas de obras públicas são, hoje em dia, meros intermediários entre o Estado e os pequenos empreiteiros, recorrendo ao expediente da subempreitada. E, quanto aos «gabinetes de estudo» e «encomendas de projectos», qualquer pessoa que vagamente acompanhe o sector sabe como os engenheiros que trabalham para o Estado são assediados para fornecer os elementos que dispõem, suprindo de uma assentada as lacunas dos gabinetes de estudos ou das encomendas de projectos.

Acresce que, para Joaquim Fortunato, a política acabou (com excepção, talvez, das discussões na blogosfera): «Tem de haver um entendimento entre os principais partidos, pelo menos entre os que têm possibilidades de ser Governo – o PS e o PSD -, sobre os grandes projectos estruturantes para o País. São questões técnicas e é como tal que têm de ser tratadas, não como questões políticas. (…) Estou convencido de que os políticos ainda não perceberam isso. Por isso, temos defendido insistentemente, sobretudo nos últimos tempos dado o estado do País, a necessidade de um pacto de regime

Mas, afinal, o que amargura Joaquim Fortunato? A concorrência (e o esmagamento das margens de lucro), lamentando que o sector esteja menos protegido do que outros que continuam sob guarda-chuvas protectores. A palavra ao presidente da AECOPS: «A crise arrasta-se há três/quatro anos, período em que houve uma quebra de produção de quase 20%. Uma das consequências imediatas foi a redução do número de postos de trabalho. Só em 2004 perderam-se 36 mil. Há empresas a desaparecer, sobretudo pequenas, mas também médias. E as grandes atravessam dificuldades. Por tudo isto, a concorrência agravou-se, os preços baixaram muito, o número de propostas por concurso aumentou e temo que as empresas entrem em disparatesTrocado por miúdos: «o que acontece nestas fases é o “salve-se quem puder”, o tentar ganhar, ou pelo menos manter quotas de mercado, muitas vezes à custa de preços anormalmente baixos, esperando que, durante a execução da obra, se consiga “virar a mesa”, o que gera conflitos com os donos de obra e resulta em diminuição da qualidade, de incumprimento de prazos e levanta problemas éticos

A curiosidade de Helena Santareno, a jornalista que conduziu a entrevista, não foi mais além. Nós ficámos sem conhecer os mecanismos que levam à derrapagem dos preços das obras («esperando que, durante a execução da obra, se consiga “virar a mesa”, o que gera conflitos com os donos de obra e resulta em diminuição da qualidade, de incumprimento de prazos e levanta problemas éticos.»). Num país civilizado, quando o presidente de uma associação empresarial se propõe derrubar a classe política, mas ao mesmo tempo fala em «problemas éticos» nas obras, isto teria consequências – ou estarei a ver mal a coisa?

Comments:
Não se iluada, Pula pulga, com o facto de se tratar de "um jornal de circulação restrita": a mensagem passará na mesma. Se necessário fôr, por outrs vias. E a mensagem é: o Estado tem que promover novas obras públicas. Mesmo que o dinheiro para as pagar escasseie. É preciso um TGV, é preciso um aeroporto, são precisos programas Polis, são precisos campeonatos de vela ou de ténis ou de futebol ou seja do que fôr mas que sejam pagos por "imobiliário", são precisas barragens mesmo que não se saiba o que fazer à água, são precisos hoteis. E é obrigação do Estado fazer isso tudo.

O PS e o PSD não farão orelhas moucas.
 
Os partidos políticos precisam dos grandes empresários da construção civil como de pão para a boca e, como tal, não podem fazer muitas ondas.... e mais não digo.
 
Estes empreiteiros perderam a vergonha.
 
Sempre a mamarem na teta do estado e sempre a vociferarem contra o estado.
 
O Sr. Fortunato esqueceu-se de dizer que as grandes empresas de construção (e não só) estão nas mãos de estrangeiros. As que ainda estão com accionistas nacionais ... é só uma questão de tempo para passarem para os estrangeiros. Vão para os "compromissos disto e daquilo" dizerem que querem os centros de decisão em Portugal e de seguida vendem as empresas. Enfim, temos os empresários, políticos (etc, etc) que temos (ou merecemos)
 
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