segunda-feira, janeiro 24
Interesses – os «grandes» e os «intermédios»
Quem acompanha o Pula Pula sabe que não concordo com Saldanha Sanches (ou com Maria José Morgado) quando, referindo-se aos interesses instalados, coloca o acento tónico num triângulo cujos vértices serão as autarquias, os clubes e os construtores civis. Ainda há dias falei disto. Parece uma adaptação aos tempos que correm das teses leninistas: o problema são os pequenos e médios porque com os grandes a gente entende-se…
A este propósito, vale a pena ler as considerações de Marçal Grilo em entrevista ao Público e à RR, na qual o ex-ministro da Educação de Guterres distingue claramente a existência de interesses «grandes» e «intermédios». Reproduzo o seguinte excerto da entrevista:
«No ano passado disse que Portugal tinha um único partido com duas secções: uma na rua de São Caetano, sede do PSD, outra no Largo do Rato, sede do PS. Acha mesmo que a 20 de Fevereiro os portugueses vão ter de escolher entre duas secções do mesmo partido único?
Em termos de projectos, em termos de programas, em termos de grandes desígnios para o país em áreas como a política externa, a defesa, a economia, as diferenças são muito pequenas, mas até não haveria mal entre escolher entre uma secção e a outra. Onde está a perversão é que estes dois partidos foram tomados por interesses muito parecidos, interesses intermédios existentes na sociedade portuguesa.
Está a falar de quê? De corporações...
Estou a falar de corporações, de grupos de interesses económicos. Não os grandes, mas os intermédios...
Imobiliário por exemplo?
Por exemplo. Tem uma enorme importância para estes partidos. Os dois partidos deixaram-se infiltrar. Na sua origem eram muito diferentes, logo a seguir à Revolução, até pela sua génese, hoje são muito parecidos. Quando se vai pela província verificamos é que as pessoas são praticamente as mesmas. São recrutadas da mesma forma, financiadas da mesma forma e promovidas da mesma forma. Ao recrutarem nas mesmas classes sociais, nas mesmas áreas profissionais, os partidos confundem-se um com o outro.»
«Tudo isto é de uma grande exactidão - inclusive a ênfase de Marçal Grilo de que se trata de "interesses intermédios" e não dos "grandes interesses" como muitas vezes erradamente se mistura. Estes actuam mais ao nível do topo dos partidos e nos sectores não escrutinados dos governos, como os assessores, consultores, etc., exercendo o seu poder mais na base da pressão, da negociação e da troca de favores, do que na corrupção.»
