segunda-feira, janeiro 24

 

Ascensão e queda

.
Vasco Pulido Valente no Público de Sábado:

«Quem está à espera que Santana Lopes, perante um mau resultado ou até uma catástrofe, dignamente se demita na noite de 20 de Fevereiro vai ter uma surpresa. Se for fiel à sua personagem (e a que pode ele ser fiel se não a isso?), Santana começará por culpar tudo e todos pela sua derrota, dedicará o seu martírio ao PSD e a Sá Carneiro e, no fim, chorando e suspirando, dirá que oferece ao seu partido a sua preciosa vida e que, em nome do seu “sonho”, continua presidente. Para ele, só ele existe. Mesmo hoje, em campanha, não há frase, não há discurso em que não acabe por reduzir o universo a si próprio: eu assim e eu assado, eu cozido e eu frito, e eu, e eu, e eu, sempre o “eu”, sempre ele. Um general destes, quando perde, não se mata: manda fuzilar o sargento. Para remover Santana, será necessário que o arrastem aos berros para o meio da rua.

Mas não faltam candidatos para essa esforçada operação. Ultimamente, a lista de putativos sucessores de Santana, antes reduzida a Marques Mendes, não pára de crescer: Manuela Ferreira Leite, Rui Rio, Morais Sarmento, Aguiar Branco, Dias Loureiro, o perene Marcelo, Arnaut, António Borges (a título de D. Sebastião), o inexcedível Menezes, filho querido de Gaia, e outras variedades sortidas. Um dos pretendentes já explicou esta abundância com uma simples pergunta: “Por que não eu?” E, de facto, depois de Santana, por que não qualquer paisano sem cadastro e com as quotas pagas? Na balbúrdia desapareceram as diferenças. Ministros de Santana, funcionários de Santana, dirigentes do PSD que elegeu e apoiou Santana querem de repente substituir Santana, como se tivessem chegado ontem da lua na mais perfeita e santa virgindade. Gente que promoveu Barroso, e que Barroso promoveu, lava as mãos do desastre que ele irresponsavelmente provocou. E o exaltado grupinho de notáveis, que nunca vê, nunca ouve e nunca fala e que deixou com deleite passar a procissão, também levanta o seu dedinho para reclamar o bolo. Parece que o PSD sofre de uma amnésia colectiva.

O espectáculo da ascensão e queda de Santana Lopes não é edificante. Muito poucos correram o risco de resistir à ascensão e ao seu prólogo, o tristíssimo consulado de Barroso. Muitos se atropelam agora para explorar em seu proveito a presuntiva queda. No buraco onde o meteram, o PSD não precisa de votos, precisa principalmente de uma grande vassourada. E de alguma memória.»

Comments: Enviar um comentário

<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?