segunda-feira, janeiro 17

 

A arte de mergulhar


Vasco Pulido Valente no Público de Sábado, dia 15:

«Luís Nobre Guedes queria fazer uma conferência de imprensa. Por qualquer razão, Santana não queria que ele a fizesse. Luís Nobre Guedes não se comoveu e ameaçou bater com a porta. No dia seguinte, a conferência de imprensa era feita, precedida de grandes protestos de lealdade de Nobre Guedes. Este episódio inaugurou uma nova fase do Governo: o Governo em que ninguém governa. Veio a seguir a questão Pôncio. Santana meteu o dito Pôncio na lista do PSD do Porto. Rui Rio não gostou e, muito lealmente, claro, também ele ameaçou. Logo Pôncio saiu a correr da lista do PSD do Porto, vociferando contra Santana. Esta semana foi a vez de Sarmento. Sarmento andou a mergulhar na ilha do Príncipe. Em Paris, Santana caiu infantilmente na provocação de um jornalista e confirmou que, na verdade, o caso o “incomodava”. Isto naturalmente enfureceu Sarmento, que se demitiu. Aterrado Santana convocou dois socorristas (Arnaut e Relvas) para convencer Sarmento a não se demitir e Sarmento, magnânimo, não se demitiu, no meio de grandes protestos de indefectível lealdade. Mais: com imensa misericórdia até jurou que não pretendia suceder a Santana. Agora, só falta saber quem será o próximo ministro ou próximo cacique que resolve dar um encontrão ao primeiro-ministro: com a máxima lealdade e apreço, evidentemente.

Santana não está demissionário, “em gestão” ou seja o que for. Santana já não manda nada no Governo ou no partido. Nem sequer manda em si próprio, admitindo que houve um tempo ignorado e remoto em que mandou. O Governo inteiro espera o festivo dia da libertação e o PSD prepara com amor a sua guerra civil interna. O resto é espectáculo para militante ver. O obrigatório espectáculo da lealdade ao chefe, que toda a gente afirma e reafirma sem se rir. E o espectáculo da “campanha”, uma espécie de enterro a que não se pode faltar. Sozinho, a um canto, Santana assiste à coisa. Sabe com certeza, e se não sabe devia saber, que a eleição de 20 de Fevereiro, mesmo que o PS não chegue à maioria absoluta, é o fim dele. A história de Sarmento mostra que a dissolução da sua autoridade pessoal e política não tem remédio. E contra isso, contra esse vento e essa maré, nenhuma bravata, nenhuma arrogância, nenhuma retórica vale.»

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