segunda-feira, janeiro 31

 

«a melhor herança que posso deixar ao meu sucessor… mesmo que seja eu próprio»


O PP apresentou ontem o programa eleitoral. O que surpreende não é a forma como o Dr. Portas se desembaraçou do Dr. Lopes - como se aquilo não fosse nada com ele. Nem sequer as palhaçadas de homem de Estado surpreendem – se nos recordarmos da revista às tropas em parada. O que é verdadeiramente fantástico no espectáculo que a SIC Notícias transmitiu em directo foi ver como aqueles figurantes se dispõem a aturar e colaborar naquela encenação de revista do Parque Mayer: como ministros à séria e tudo. Estão a perceber por que
eles não perdoam aos tipos que conseguem fazer rir sem abocanhar o Orçamento do Estado?

 

Condecorações ao cair do pano


Havia que amaciar Pinto da Costa. O Governo não hesitou: concedeu ao «Futebol Clube do Porto, SAD» o «colar de honra ao mérito desportivo» (Despacho n.º 1880/2005) e à equipa técnica e aos «atletas profissionais de futebol», alguns dos quais comprovadamente portugueses, que «se exaltaram a si próprios e exaltaram, de uma maneira ímpar, o Clube e o País além fronteiras», a medalha de mérito desportivo (Despacho n.º 1881/2005). Vem no Diário da República de 27 de Janeiro.

Para atribuir uma condecoração à SAD do Porto [o artigo 5.º do Decreto-Lei n.º 55/86, de 15 de Março, prevê a concessão de condecorações a sociedades anónimas?], o Governo não precisaria de sustentar que os respectivos administradores são os melhores do mundo – sobretudo enquanto Pinto da Costa for arguido no processo «Apito Dourado». Mas fê-lo: «não é possível ignorar o contributo dos administradores do Futebol Clube do Porto, SAD».

Embora a lei preveja que as condecorações sejam atribuídas pelo ministro com a tutela do desporto, a verdade é que o Dr. Lopes decidiu ser ele a conceder o que se designa genericamente por medalhas desportivas. Bem vistas as coisas, estavam em causa, como é explicitamente referido nos despachos, «
as notáveis conquistas internacionais da equipa de futebol do Futebol Clube do Porto, SAD, nos anos de 2003 e 2004, nomeadamente:

Taça UEFA, da época de 2002-2003;
Taça dos Clubes Campeões Europeus – Liga dos Campeões da UEFA da época de 2003-2004;
Taça Intercontinental de Clubes 2004».

Tendo em conta os feitos a condecorar, só não se percebe que o treinador distinguido tenha sido Victor Fernandez Braulio – e não um tal José Mourinho. Um governo que se presta a estas torpes vindictas está morto – embora o óbito só seja declarado às 20 horas do dia 20, quando as televisões derem início às suas mega-fraudes.

 

Primeiras páginas do século passado [4]


Assim ia o país no dia 14 de Agosto de 1999. O presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, Luís Filipe Menezes, não resistiu ao caso das «viagens-fantasma» dos deputados e resignou, ontem à noite, à posição de cabeça de lista do PSD pelo Porto. Após ter desferido violentos ataques ao procurador-geral da República, no início da semana, o candidato escolhido por Durão Barroso para liderar a lista do Porto acabou por ceder às repercussões políticas que o seu caso estava a atingir.
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Parafraseando António Pimenta Machado, «na política, tal como no desporto, o que hoje é verdade, amanhã é mentira».

domingo, janeiro 30

 

A grande derrota do 25 de Abril


Poderia estar a pensar na reconstituição dos grupos económicos – e na promiscuidade que agora é maior com o poder político. O que quero sublinhar no entanto é a nova política que domina a sociedade portuguesa – e que, tal como no fim do marcelismo, agora aparece também patrocinada pela SEDES. Refiro-me ao elogio da técnica pela técnica, à defesa da competência pela competência. O «
adesivo» é o corolário – um subproduto – desta política. Uma política que representa a vitória da tese do camarada Deng Xiao Ping: «Não interessa se o gato é branco ou preto, o importante é que ele apanhe o rato».
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Adenda - Ler também o post de Manuel na Grande Loja do Queijo Limiano.

 

A grande conquista do 25 de Abril


«Eu tenho realmente um corpo salazarista, fui educado dentro do salazarismo. A minha sensualidade é espartana, muito austera. O republicanismo dos meus pais, o catolicismo dos Maristas também marcaram isso. Um dia estávamos a ensaiar, a Glicínia [Quartin] veio para o balcão e os rapazes estavam a fazer uma dança qualquer no palco. E ela diz-me: “Estes corpos não podiam existir quando eras novo”. Ou seja, a sensualidade viva, vital era uma coisa que não podia existir. E ela dizia muito assim: “Isto é que foi a grande conquista do 25 de Abril, estes corpos estão livres, não são corpos salazaristas”. E é verdade. O meu corpo não é um corpo livre. Nasci em 1948, no apogeu do Estado Novo e da educação muitíssimo puritana. Nunca consegui ultrapassar esse puritanismo.»

[Jorge Silva Melo entrevistado no DNA de 27 de Agosto de 2004]

 

Primeiras páginas do século passado [3]


Assim ia o país no dia 9 de Maio de 1998 - Alcácer Quibir?! O que lá vai, lá vai... A memória é curta. Se não fosse, haveria lugar para a figura postiça do senador?

sábado, janeiro 29

 

Primeiras páginas do século passado [2]


Assim ia o país no dia 2 de Outubro de 1999, a oito dias das eleições legislativas. O PP, ao contrário da desconfiança que agora Portas revela em relação às sondagens, aparece muito próximo da percentagem de votos que veio a obter.

 

Do Hotmail para o Yahoo


A caixa de mensagens do Hotmail está prestes a atingir o limite tolerado. Não querendo perder algumas das mensagens recebidas, fui forçado a criar um novo endereço. Está alojado no Yahoo - e encontra-se indicado na coluna da esquerda.

sexta-feira, janeiro 28

 

Ninguém é responsável


Há em Portugal uma generalizada cultura da irresponsabilidade. Não é só ao nível do Estado e da Administração Pública que tal cultura está instalada. Nas grandes empresas privadas circula um intenso anedotário sobre decisões erradas de consequências catastróficas, pelas quais ninguém é responsabilizado.

Também na Igreja Católica a realidade não é diferente. Centremo-nos na figura de D. José Policarpo. Ninguém desconhece que foi ele o grande impulsionador do projecto TVI como televisão da Igreja. Tal projecto, cuja viabilidade económica como televisão católica ninguém com conhecimento do assunto assegurava ser possível (dada a reduzida dimensão do mercado publicitário), foi como se sabe um fracasso estrondoso.

D. José Policarpo fez tudo para levar avante tal projecto, desdenhando outras hipóteses mais prudentes, como a de a Igreja ficar apenas com algumas horas de emissão diária na televisão do Estado (independentemente da «justeza» da medida). Por sua determinação promoveu-se uma gigantesca operação de caça-níqueis por todo o país: ordens religiosas, outras instituições da Igreja, misericórdias, etc. foram chamadas a pôr os respectivos fundos ao serviço da futura televisão católica. Supondo responder ao chamamento da religião, viúvas remediadas e chefes de família piedosos investiram os seus esforçados pés-de-meia nas acções da TVI. E até mesmo a Universidade Católica – que está sempre a reclamar fundos do Orçamento do Estado, como se se tratasse de um estabelecimento público – foi bafejada com a oportunidade de investir várias dezenas de milhares de contos em tão devoto projecto. Não levou muito tempo até que todos estes investidores vissem totalmente fracassado
o projecto em que se haviam mobilizado.

Ficará para o anedotário nacional a história da velhinha mal informada sobre a evolução do projecto que, numa noite de insónias, resolveu ligar a TVI, que era suposto ser a televisão da sua igreja, e apenas viu aquilo que julgava ser propaganda do demónio.

Depois deste fracasso, D. José Policarpo ascendeu às glórias cardinalícias – e até se fala dele para papa ou, pelo menos, para um alto cargo na Cúria Pontifícia. Caro leitor, diga lá quem é que se preocupa com a responsabilidade em Portugal?

 

Impostos directos e indirectos


Os impostos indirectos penalizam indiscriminadamente toda a população, sem ter em conta a sua situação económica. É através dos impostos directos que pode fazer-se a «redistribuição» dos rendimentos. Sabe como evoluiu a situação no
consulado Barroso-Portas?

 

«Isto não foi real, pois não?» Foi…


LN, um benfiquista a quem os benfiquistas muito devem [lembram-se das trapalhadas de Vale e Azevedo, que até envolveram a entrega de um cheque sem cobertura para pagar dívidas fiscais, tendo o fisco aguardado pacientemente que a conta fosse provisionada?], coloca duas questões aparentemente metafísicas:

Não querendo apressadamente concluir que o que sai do computador do causa nossa não é real, ajudemos LN a aprender a distinguir a realidade da ficção. Na verdade, estiveram «dentro das quatro linhas» seres humanos (de carne e osso) que correram e jogaram que se fartaram. Mais de um lado do que do outro. As situações que parece terem sido «produzidas por computador» foram dois livres mal assinalados, de que resultaram, por acaso, os dois primeiros golos do Benfica; aquele golpe de kung fu de Bruno Aguiar sobre Liedson também parece ter sido concebido com o apoio do CAD; e ainda a violentíssima agressão àquele miúdo que fez as vezes de defesa direito tem, sem dúvida, a precisão de uma máquina (um computador?).

O árbitro foi António Costa, que, salvo erro, há dias não validou um «golo limpo» ao Benfica no jogo com o Porto. As contas estão saldadas – o resto é conversa.

 

Primeiras páginas do século passado [1]


Portugal no dia 10 de Janeiro de 1998

 

Notícias da coligação [8]


Acerca do acordo entre o PPD/PSD e o PP:

«O presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim, já admitiu aprovar um Orçamento do PS. O deputado do PSD, Hugo Velosa, que concorre pelo círculo da Madeira, afirmou ontem ao PÚBLICO que o entendimento que os candidatos a deputados do PSD da Madeira têm é o de que a declaração conjunta com o CDS "destina-se fundamentalmente a uma situação pós-eleitoral de Governo", ou seja, não se aplica ao cenário de oposição. O PÚBLICO sabe que, na direcção do PSD, este entendimento tem seguidores. O membro da comissão política e líder da distrital de Aveiro é um deles. Ribau Esteves afirma que o PSD está a fazer tudo para ganhar e que o acordo feito foi um "acordo claro de vitória", "para deixar clara a solução de Governo" do PSD e "não para salvaguardar um caso de derrota".

Vários sociais-democratas consideram que o CDS tem tido muitos "excessos de campanha" e que a estratégia de apelar ao voto útil é "provocatória" para o PSD. No entanto, as críticas viram-se também contra Morais Sarmento por, ao enviar a carta ao CDS, ter alimentado ainda mais a polémica em público.

Ontem, em entrevista à TSF, o deputado do CDS, Narana Coissoró, admitiu também a hipótese de quebra do acordo com o PSD, em caso de derrota eleitoral. "O que eu tenho visto é que este clima que o Luís Filipe Menezes e talvez o próprio dr. Santana Lopes têm estado a criar enfraquece muito o acordo. E depois nunca se sabe, depois nunca se sabe. Depois é a questão do interesse nacional, a questão de saber efectivamente o que é bom para o país, etc", afirmou o deputado, que já em várias ocasiões defendeu um acordo CDS-PS.

Em relação a Menezes, disse mesmo que "sempre foi considerado um homem que fala demais" e que "diz disparates". Luís Filipe Menezes, por seu lado, respondeu ainda ontem, acusando Narana Coissoró de não ter legitimidade para fazer aquele tipo de afirmações. "Não é propriamente uma personalidade com grande sentido de responsabilidade para falar de acordos PSD-CDS", disse. "O dr. Narana, contra o dr. Portas, aliou-se à esquerda e deu a cara na campanha eleitoral do dr. Jorge Sampaio contra a candidatura presidencial do dr. Cavaco", disse.»

 

Ainda Auschwitz


O
João, que agora anda desassossegado, escreve:


quinta-feira, janeiro 27

 

AUSCHWITZ [1]



Em 27 de Janeiro de 1945, o exército soviético
abriu as portas do inferno de Auschwitz II-
Birkenau. Cerca de 7 mil prisioneiros, 600 dos
quais menores, recuperaram a liberdade,
sobrevivendo ao horror dos campos de
concentração, onde foram assassinados
6 milhões de judeus.

 

AUSCHWITZ [2]



Um judeu é preso após a queda de Varsóvia em
Abril de 1943. Havia então cerca de 300 mil
judeus na capital polaca. Dois anos depois,
a maioria havia morrido.

 

AUSCHWITZ [3]



Um grupo de famílias judias chega, pratica-
mente sem nada, ao campo de concentração
em Maio de 1944.

 

AUSCHWITZ [4]



Fornos do crematório de Auschwitz, onde
foram incineradas centenas de vítimas dos nazis.
Os seus corpos eram transportados em carros
que deslizavam em carris.

 

AUSCHWITZ [5]



Milhares de óculos amontoados em frente a
uma câmara de gás.

 

AUSCHWITZ [6]



Mulheres amontoadas nas liteiras aguardam
a hora de saída de Auschwitz. Alguns rostos
mostram um sorriso ante a iminente chegada
dos soldados soviéticos.

 

AUSCHWITZ [7]



Maio de 1945: oficiais das SS, detidos em
Belsen, são obrigados pelas tropas aliadas
a retirar os corpos das suas vítimas.

 

Rotina quebrada


Costumava ser assim: todas as manhãs, depois de uma vista de olhos pelo Público (em papel), um salto à net para saber as notícias. Entre as leituras indispensáveis, que não são tantas como se pensa, lá estava o
Bloguítica – sobre tudo o que de relevante ia acontecendo (anotado e comentado). Soube hoje que, contra a minha vontade, vou ter de alterar a rotina diária. Está mal. Agora todos vamos perceber a falta que nos faz ter a papinha feita. E bem feita, de resto.

quarta-feira, janeiro 26

 

Eu hoje vou-me deitar assim...




O lado bom: Trapattoni continua.

 

Incompatibilidades... compatíveis


Foi hoje publicada no Diário da República a Lei n.º 15/2005, que aprova o Estatuto da Ordem dos Advogados. Não se vá embora, caro leitor, que aqui ninguém o maça com coisa tão medonha. Mas, antes de a pulga saltar para outro lado, veja só isto:


 

O Tribunal de Contas baralha e dá de novo


Perante o chinfrim que por aí vai com os 250 milhões de euros gastos pelo governo PSD-PP com pareceres jurídicos (em 2003),
o Tribunal de Contas saiu de coma. E tomou uma atitude corajosa: investigar o arquivo morto. Mas Carlos Moreno, o juiz responsável por esta fiscalização, decidiu alargar o âmbito da acção às actividades dos governos de Guterres. A equidistância é uma coisa muito bonita. Há apenas dois pormenores a reter:


 

Congelamento dos vencimentos da Função Pública? «É uma pergunta que eu não quero responder


Correia de Campos, apresentando-se como o «coordenador das Novas Fronteiras para a área da Administração Pública», deu ontem uma extensa entrevista ao Jornal de Negócios (
1, 2 e 3).

Além da questão colocada em título, Correia de Campos disse:

    1.º Que as benesses de que dispõe a Função Pública (segurança no emprego e condições de aposentação), contrapartidas para os vencimentos menos competitivos praticados no sector, vão acabar;
    2.º Que, apesar de várias discordâncias com a prática política do governo PPD/PSD-PP, algumas das medidas previstas serão continuadas.
Dão-se alvíssaras a quem encontrar a marca socialista nas palavras de Correia de Campos.

 

Joaquim Fortunato: «revolución o muerte»


Joaquim Fortunato, que exerce as funções de presidente da Associação de Empresas de Construção e Obras Públicas (AECOPS), pôs o dedo no nariz à classe política: «Ou há um pacto de regime ou se faz uma revolução, para que entre uma nova classe política. Tem de haver uma política coerente, uma estratégia para os grandes projectos de infra-estruturas que tenham o acordo dos dois principais partidos, para não haver sobressaltos.»

O mote está dado: os empreiteiros não estão dispostos a aturar «sobressaltos». Mesmo tratando-se de uma entrevista a um jornal de circulação restrita – o DN (suplemento Negócios de segunda-feira passada) –, vale a pena analisar as palavras do presidente da AECOPS. Diz o porta-voz dos empreiteiros:

«Há várias questões que condicionam a produção no sector. Logo à partida, não podemos continuar a viver num regime em que o governo chega, estabelece prioridades, define as infra-estruturas necessárias ao desenvolvimento do País e, quando as empresas começam a preparar-se, a criar gabinetes de estudo, a admitir técnicos, a encomendar projectos, a constituir consórcios para concorrer e executar essas obras, vem outro Governo e diz que tudo aquilo é um disparate, que não se vai fazer. E pára tudo

Esqueçamo-nos de que a AECOPS faz parte da CIP – cujo programa de festas se resume a reclamar a diminuição do peso do Estado na sociedade. Joaquim Fortunato dá-nos uma visão idílica da actividade dos empreiteiros: gabinetes de estudos, admissão de técnicos, encomenda de projectos… A realidade é um pouco menos complexa: as grandes empresas de obras públicas são, hoje em dia, meros intermediários entre o Estado e os pequenos empreiteiros, recorrendo ao expediente da subempreitada. E, quanto aos «gabinetes de estudo» e «encomendas de projectos», qualquer pessoa que vagamente acompanhe o sector sabe como os engenheiros que trabalham para o Estado são assediados para fornecer os elementos que dispõem, suprindo de uma assentada as lacunas dos gabinetes de estudos ou das encomendas de projectos.

Acresce que, para Joaquim Fortunato, a política acabou (com excepção, talvez, das discussões na blogosfera): «Tem de haver um entendimento entre os principais partidos, pelo menos entre os que têm possibilidades de ser Governo – o PS e o PSD -, sobre os grandes projectos estruturantes para o País. São questões técnicas e é como tal que têm de ser tratadas, não como questões políticas. (…) Estou convencido de que os políticos ainda não perceberam isso. Por isso, temos defendido insistentemente, sobretudo nos últimos tempos dado o estado do País, a necessidade de um pacto de regime

Mas, afinal, o que amargura Joaquim Fortunato? A concorrência (e o esmagamento das margens de lucro), lamentando que o sector esteja menos protegido do que outros que continuam sob guarda-chuvas protectores. A palavra ao presidente da AECOPS: «A crise arrasta-se há três/quatro anos, período em que houve uma quebra de produção de quase 20%. Uma das consequências imediatas foi a redução do número de postos de trabalho. Só em 2004 perderam-se 36 mil. Há empresas a desaparecer, sobretudo pequenas, mas também médias. E as grandes atravessam dificuldades. Por tudo isto, a concorrência agravou-se, os preços baixaram muito, o número de propostas por concurso aumentou e temo que as empresas entrem em disparatesTrocado por miúdos: «o que acontece nestas fases é o “salve-se quem puder”, o tentar ganhar, ou pelo menos manter quotas de mercado, muitas vezes à custa de preços anormalmente baixos, esperando que, durante a execução da obra, se consiga “virar a mesa”, o que gera conflitos com os donos de obra e resulta em diminuição da qualidade, de incumprimento de prazos e levanta problemas éticos

A curiosidade de Helena Santareno, a jornalista que conduziu a entrevista, não foi mais além. Nós ficámos sem conhecer os mecanismos que levam à derrapagem dos preços das obras («esperando que, durante a execução da obra, se consiga “virar a mesa”, o que gera conflitos com os donos de obra e resulta em diminuição da qualidade, de incumprimento de prazos e levanta problemas éticos.»). Num país civilizado, quando o presidente de uma associação empresarial se propõe derrubar a classe política, mas ao mesmo tempo fala em «problemas éticos» nas obras, isto teria consequências – ou estarei a ver mal a coisa?

 

Admissão de pessoal no Pula Pula


Hoje foram publicadas as Leis n.ºs 3/2005, 4/2005, 5/2005, 6/2005, 7/2005, 8/2005, 9/2005, 10/2005 e 11/2005, as quais «elevam» «à categoria de cidade», respectivamente, Estarreja, Anadia «e povoações contíguas», Reguengos de Monsaraz, Meda, Trancoso, Sabugal, Valbom, Costa da Caparica e Tarouca.

É humanamente impossível a uma pulga acompanhar a par e passo a realidade – que virou ficção. Aceitam-se colaboradores para o Pula Pula, com vista a uma cobertura minimamente aceitável do país real.

 

Notícias da coligação [7]


PSD acusa Portas de não respeitar pacto. A acusação surge pela mão de Morais Sarmento, que escreveu uma carta a António Pires de Lima, acusando o PP de não respeitar o acordo pré-eleitoral entre os dois partidos. E visa tanto Pires de Lima como o próprio Portas.

Na origem das críticas de Sarmento estão duas entrevistas de Portas e Pires de Lima. No primeiro caso, o vice-presidente do CDS comentou, "em termos comparativos", a formação de listas do PP e do PSD para registar "a intranquilidade de comportamento do PSD".

Depois, sucederam-se as declarações do próprio Portas, "admitindo a abertura do CDS para apoiar propostas de Governo em determinadas áreas, na eventualidade de vitória do PS". Defesa e a Política Externa foram as áreas em que Portas admitiu os tais "consensos de Estado". "Surpresa", escreve Morais Sarmento na carta a Pires de Lima. Surpresa "tanto maior quanto é sabido que o PSD tem mantido uma atitude intransigente de silêncio relativamente aos processos internos de decisão do CDS, e mesmo no que respeita às [suas] posições públicas".

 

Living in America





terça-feira, janeiro 25

 

Ainda sobre a corrupção


O artigo de
João Cravinho no DN de Sábado, Eleições em tempo de guerra, é de leitura obrigatória. Destaca-se a parte final:


 

Notícias da coligação [6]


Apesar de Paulo Portas ter mostrado ignorar os recentes avisos lançados por Luís Filipe Menezes ao líder do CDS, o autarca de Gaia volta a desmontar o principal "slogan" de campanha do parceiro de coligação governamental. "O voto com utilidade é o que determina alguma coisa. Nestas eleições, serve para escolher o primeiro-ministro e, neste aspecto, votar CDS é votar em José Sócrates", alertou ontem Menezes.

 

Notícias da coligação [5]


Copiado do
Barnabé:

"Dr. Paulo Portas, esta iniciativa [apresentação do "elenco governativo" do CDS] significa que o senhor se perfila como candidato a primeiro-ministro? Minha senhora [Portas a falar] vou-lhe responder como me ensinaram nas Forças Armadas: Afirmativo."
TSF, 20.2005

 

Louçã


Louçã é um produto dos media – medrou à luz dos holofotes. Cometeu uma falha* – e, como o artigo que hoje escreve no
Público põe em evidência, não admite retractar-se. É um outro Louçã que está a vir à superfície. Os media, que o trouxeram até aqui, aprontam-se agora para o trucidar. Recordam-se do percurso de um tal Dr. Lopes?

________
* Esta controvérsia acerca dos «bons costumes» conduz-nos a uma outra: o valor das palavras. É insuportável ouvir o Dr. Portas falar em assassínio de crianças quando alguém defende o direito à interrupção voluntária da gravidez. Mas até por isto o combate ao hipócrita Dr. Portas deveria ter sido levado a cabo no terreno das ideias.

segunda-feira, janeiro 24

 

Interesses – os «grandes» e os «intermédios»


Quem acompanha o Pula Pula sabe que não concordo com Saldanha Sanches (ou com Maria José Morgado) quando, referindo-se aos interesses instalados, coloca o acento tónico num triângulo cujos vértices serão as autarquias, os clubes e os construtores civis. Ainda há dias falei
disto. Parece uma adaptação aos tempos que correm das teses leninistas: o problema são os pequenos e médios porque com os grandes a gente entende-se…

A este propósito, vale a pena ler as considerações de
Marçal Grilo em entrevista ao Público e à RR, na qual o ex-ministro da Educação de Guterres distingue claramente a existência de interesses «grandes» e «intermédios». Reproduzo o seguinte excerto da entrevista:

No mesmo sentido se exprime JPP num comentário à entrevista de Marçal Grilo. Escreve no Abrupto que o modus operandi destes dois tipos de interesses é diferente:

Como sublinhou João Cravinho na SIC Notícias na passada semana, o que se estranha é que, sendo a corrupção (em termos latos) um problema central na sociedade portuguesa, nenhum dos partidos com vocação de poder (seja lá isto o que for) apresente nos seus programas eleitorais quaisquer medidas de combate a este flagelo. Nem para inglês ver.

 

Réplicas [3]


Morreu no passado sábado Consuelito Velásquez, a autora de Besame Mucho. Quando compôs este tema em 1941, Consuelito, então com 25 anos, disse que nunca dera um beijo. Há mais de 700 versões de Besame Mucho. Nem Bill Evans ou Dexter Gordon conseguiram escapar a tocar o maior êxito de Consuelito. O Pula Pula, que conhece mal a música mexicana, apenas regista que possui versões de Nat King Cole, dos Beatles, de Diana Krall, de Kenny Drew, etc., etc.. Falta-me a versão de Cesária Évora. O destaque vai, por todas as razões e mais uma, para a de João Gilberto. Aqui:



 

O homem é perigoso


Vasco Pulido Valente no Público de Domingo:

«Enquanto por cá nos distraíamos com os mil desastres do nosso pobre Portugal, Bush tomava posse e anunciava a sua política. “A América neste novo século”, disse ele, “proclama a liberdade para todo o mundo”. E disse mais: que a América não vai ignorar a “tirania”, seja ela qual for, nem principalmente desculpar os tiranos. Segundo parece, para ele, expandir a liberdade é o imperativo e “o apelo do nosso tempo”. À minha geração, o discurso de Bush lembra logo outro, feito no mesmo lugar e na mesma cerimónia. “Que as nações saibam, as que estão connosco e as que não estão, que pagaremos qualquer preço, suportaremos qualquer carga, aceitaremos qualquer sacrifício, apoiaremos qualquer amigo, combateremos qualquer inimigo, para garantir a sobrevivência e o sucesso da liberdade”. Estas palavras messiânicas são de Kennedy e na altura emocionaram muita gente. Só que o messianismo conduziu a América ao Vietnam, a uma guerra fútil e perdida e a uma crise de confiança no Ocidente inteiro, que durou até Reagan e à sra. Thatcher: vinte anos, quase dia a dia. Mas nem Kennedy foi original. Em 1917, Wilson também entrou na guerra com a ideia heróica de “tornar o mundo seguro para a democracia”. E, sem consultar a Inglaterra e a França, produziu os “catorze pontos” que iam impor esse prodígio. “A Deus bastaram dez”, preveniu um cínico. De facto os “catorze pontos” criaram o caos na maior parte da Europa, contribuíram largamente para a emergência do comunismo russo, do nazismo e do fascismo, tornaram inevitável a II Guerra e ainda hoje exigem uma “força de paz” na Bósnia.

O idealismo americano trouxe invariavelmente consigo a pior miséria e a pior violência. E atenção: Lincoln, Roosevelt e Truman não pertencem à escola. Para lá da retórica, tinham objectivos limitados. Lincoln manter a União; Roosevelt liquidar Hitler e o império japonês; e Truman não permitir a expansão do comunismo. Wilson, Kennedy e Bush, pelo contrário, partilham a paixão moral e a arrogância do poder, que, em nome da liberdade, sempre destruiu a liberdade. O programa de Bush, agora reiterado na sua definitiva forma, não promete nada de bom. Já o levou ao Iraque, um sarilho sem fim, e não tardará que o leve ao Irão e à Coreia do Norte. O homem passou o limite do senso, da responsabilidade e do realismo. O homem é perigoso.»

 

Ascensão e queda

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Vasco Pulido Valente no Público de Sábado:

«Quem está à espera que Santana Lopes, perante um mau resultado ou até uma catástrofe, dignamente se demita na noite de 20 de Fevereiro vai ter uma surpresa. Se for fiel à sua personagem (e a que pode ele ser fiel se não a isso?), Santana começará por culpar tudo e todos pela sua derrota, dedicará o seu martírio ao PSD e a Sá Carneiro e, no fim, chorando e suspirando, dirá que oferece ao seu partido a sua preciosa vida e que, em nome do seu “sonho”, continua presidente. Para ele, só ele existe. Mesmo hoje, em campanha, não há frase, não há discurso em que não acabe por reduzir o universo a si próprio: eu assim e eu assado, eu cozido e eu frito, e eu, e eu, e eu, sempre o “eu”, sempre ele. Um general destes, quando perde, não se mata: manda fuzilar o sargento. Para remover Santana, será necessário que o arrastem aos berros para o meio da rua.

Mas não faltam candidatos para essa esforçada operação. Ultimamente, a lista de putativos sucessores de Santana, antes reduzida a Marques Mendes, não pára de crescer: Manuela Ferreira Leite, Rui Rio, Morais Sarmento, Aguiar Branco, Dias Loureiro, o perene Marcelo, Arnaut, António Borges (a título de D. Sebastião), o inexcedível Menezes, filho querido de Gaia, e outras variedades sortidas. Um dos pretendentes já explicou esta abundância com uma simples pergunta: “Por que não eu?” E, de facto, depois de Santana, por que não qualquer paisano sem cadastro e com as quotas pagas? Na balbúrdia desapareceram as diferenças. Ministros de Santana, funcionários de Santana, dirigentes do PSD que elegeu e apoiou Santana querem de repente substituir Santana, como se tivessem chegado ontem da lua na mais perfeita e santa virgindade. Gente que promoveu Barroso, e que Barroso promoveu, lava as mãos do desastre que ele irresponsavelmente provocou. E o exaltado grupinho de notáveis, que nunca vê, nunca ouve e nunca fala e que deixou com deleite passar a procissão, também levanta o seu dedinho para reclamar o bolo. Parece que o PSD sofre de uma amnésia colectiva.

O espectáculo da ascensão e queda de Santana Lopes não é edificante. Muito poucos correram o risco de resistir à ascensão e ao seu prólogo, o tristíssimo consulado de Barroso. Muitos se atropelam agora para explorar em seu proveito a presuntiva queda. No buraco onde o meteram, o PSD não precisa de votos, precisa principalmente de uma grande vassourada. E de alguma memória.»

 

A(s) gatinha(s) do filósofo


A romena Adriana Iliescu não tinha conseguido até agora ser mãe. Recorrendo à fertilização in vitro, acaba de o conseguir ser aos 67 anos. Este caso tem suscitado um aceso debate sobre a ética médica. Representantes da Igreja Ortodoxa Romena sustentam que ter filhos – apesar das evidências – é «um dom dado por Deus» e classificaram o parto de «egoísta» e «contrário aos preceitos cristãos». O ministro romeno da Saúde, Mircea Cinteza, foi mais longe: «Como ainda não foi adoptada uma lei sobre a procriação assistida, não houve um delito, mas provavelmente há uma violação da ética médica». Adriana Iliescu limita-se a dizer que sempre quis ter filhos e que espera, atendendo aos antecedentes de longevidade da família, viver muitos anos para poder cuidar do bebé.

Com a irreverência, digamos assim, que o caracteriza, João Pereira Coutinho escreveu sobre o tema na
Folha Online. Em brasileiro, claro. Confidenciou-nos: «Não quero incomodar os leitores da Folha mas posso garantir que enviei cartão pessoal a Adriana Iliescu. E não, não estou interessado em constituir família, apesar de minha inclinação natural por mulheres mais velhas (Adriana é uma gatinha; e solteira; mas deixa pra lá)

Depois de Lauren, Adriana. Caros leitores: não deixem pra lá; fechem a sete chaves as vossas avós. O filósofo anda por aí. Sabe-se lá se um destes dias não descobre a praxis.

domingo, janeiro 23

 

Tuning


Resisti, resisti, mas acabei por ceder: o Pula Pula lá apareceu no Blogómetro. Não o fiz há muito tempo, mas passou o tempo suficiente para entender que esta simples inscrição corrompe o espírito com que cheguei à blogosfera. Competição por competição, ainda corro risco de passar as madrugadas de fim-de-semana na Ponte Vasco da Gama. Ou a fazer tuning ao Pula Pula. Não sabendo como renunciar ao Blogómetro, encerro o Sitemeter à curiosidade alheia, o que, suponho, implica o abandono automático do Blogómetro.

sexta-feira, janeiro 21

 

Em gestão corrente


A boa notícia: parece que o Governo entrou em gestão corrente. A confiar no Diário da República, o executivo já está em campanha. Agora, falam, falam, falam, falam… mas palavras leva-as o vento. De papelinhos escritos fica pouca coisa - hoje, quatro portarias, para ser preciso: a n.º 58/2005, que estabelece normas para os «perfis profissionais de condutor(a)-manobrador(a) de equipamentos de movimentação de terras e de equipamentos de elevação»; a n.º 59/2005, que aprova «o Regulamento de Execução do Sistema de Incentivos a Produtos Turísticos de Vocação Estratégica (SIVETUR)»; a n.º 60/2005, que altera «o plano de estudos do curso bietápico de licenciatura em Canto ministrado pela Academia Nacional Superior de Orquestra»; e a n.º 61/2005, que aprova «os Regimentos do Júri das Extracções e do Júri dos Concursos do Departamento de Jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa».

É provável que, se prestou atenção ao que leu, o caro leitor esteja divertido com as actividades que consomem os nossos governantes. Mas tome atenção: a má notícia é que os contratos de aquisição de bens e serviços e de empreitadas não vêm escarrapachados no Diário da República. E consta que há para aí ministros que continuam furiosamente - como dizer? - a trabalhar. Alguém estará em condições de avaliar, neste momento, a herança santano-portista?

 

O Ter e o Parecer


Vale a pena ler o editorial de Eduardo Dâmaso no Público. E já agora, se não for pedir muito, releia-se o post «Triangulações: sugestões para uma próxima revisão constitucional». Duas passagens do editorial:

«O Estado gastou em 2003 qualquer coisa como 250 milhões de euros (50 milhões de contos) em pareceres de toda a espécie, desde jurídicos a estudos económicos.»

«Constitui-se assim um vastíssimo mercado de interesses que estigmatiza as boas razões que por vezes tornam necessário um parecer para encontrar uma boa solução e vive das cumplicidades e conveniências entre quem paga e quem vende as opiniões. Um mercado, diga-se, que tem como protagonistas sobretudo gente das ditas elites do país.

O mercado dos pareceres tornou-se o instrumento ideal para comprar fidelidades políticas ou convenientes silêncios. Sob um manto formal de legalidade há quem tenha recebido milhares de contos por pareceres que nunca deu, mas, pontualmente, consentiu que o seu nome fosse utilizado pelo governo A ou B. Há também quem tenha vendido as suas opiniões como mero instrumento de adequação de uma certa realidade a um desígnio político-partidário.
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Os pareceres, na sua maioria, servem hoje para alguém alcançar um ter qualquer que raramente se relaciona com o essencial da questão que se discute em nome do interesse público. Um ter mais dinheiro, ter uma razão que sirva um interesse particular. Este é, afinal, um domínio em que quase sempre interessa mais o ter do que o parecer. E onde só circula o dinheiro dos contribuintes que somos todos nós.»

 

O bom aluno

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Vasco Pulido Valente no Público de hoje:

«A primeira campanha de Guterres foi precedida por um ajuntamento que se chamou “Estados Gerais”. A ideia era coleccionar as reivindicações de toda a gente para depois prometer tudo a toda a gente. Brandindo o documento que saiu desse exercício, quinhentas páginas de loucura à solta, o presuntivo primeiro-ministro declarou no Coliseu que tinha ali, na sua mão, um “contrato de legislatura”. O facto de o “contrato” ser inteiramente incumprível não o perturbou. Vivia num Portugal da sua privada fantasia e nem o “programa de governo”, de que se esperava algum juízo, o fez descer à realidade do mundo. Não há maneira de saber se esta inconsciência na altura o ajudou. Mas com certeza que a prazo o prejudicou. A desilusão com o “guterrismo” contribuiu em grande parte para o “pântano” final e para o abjecto colapso do engenheiro, que já nem em si próprio acreditava.

Sócrates, como bom aluno, aprendeu a lição. Fala pouco e por generalidades, nunca diz nada de verdadeiramente relevante, foge a qualquer obrigação específica e se, por acaso, cai na asneira de anunciar a mais leve felicidade futura, trata logo de se desmentir ou mandar que o desmintam. As “Novas Fronteiras” (que raio de nome) não produziram, evidentemente, nenhum “contrato”. Nem o messiânico Vitorino produzirá um “programa” susceptível de amarrar o PS a políticas que se possam definir ou a objectivos que se possam medir. Pior: Sócrates também não quer debates, com medo que o forcem a esclarecer a ambiguidade geral da sua posição, ou que o limitem agora e no governo. Alguns críticos da esquerda e da direita tomam isto por incompetência. Erro deles. Sócrates, muito simplesmente, acha que, por horror a Santana, o país lhe passará um cheque em branco e não está disposto a concessões. Talvez se engane e Santana não chegue para o eleger, pelo menos com maioria absoluta. Só que, se não se enganar, fica com as mãos livres, como, tirando Cavaco, ninguém antes dele. Ganhou o partido e, se apanhar de graça o resto, ou seja, Portugal, irá para onde bem lhe apetecer. Com Deus, com o Diabo ou provavelmente com os dois. Sem “desiludir”, porque não prometeu, e sem resistência, porque é neutro e vazio.»

 

Os figurantes no partido do rato Mickey


O Dr. Portas é, desde ontem, primeiro-ministro (ou presidente do Conselho de Ministros?) do governo de brincar que vai gerir o Caldas nos próximos anos. Ao ver a câmara da TV a deslizar lentamente pelos rostos dos bombeirinhos do Dr. Portas, lembrei-me do desabafo de um amigo: «a vida custa a todos


quinta-feira, janeiro 20

 

KO em directo na SIC Notícias


Não tenho uma particular simpatia política por Francisco Louçã. Mas reconheço que, no debate com Paulo Portas, Louçã o levou diversas vezes ao tapete, a ponto de o proprietário do PP parecer visivelmente amachucado no termo da refrega. Recordei o perfil que o João vem traçando do Dr. Portas:
aqui, ali e acolá. Para amanhã está prometida a continuação do esboço.

 

O país, pela manhã


Deve ser complicado arranjar todos os dias um assunto diferente para os fora – sobretudo se houver temas a evitar. Hoje, na Antena 1, o tema de discussão matinal foi a gripe, matéria sobre a qual todos estamos seguramente habilitados a discorrer. Um operador de máquinas divagou longamente. Depois de ter aproveitado a ocasião para denunciar o absentismo dos médicos do Centro de Saúde da Várzea de Sintra, centrou-se na problemática da gripe. Disse, em síntese, que, por um lado, só apanha gripe quem não se agasalha (já que o vírus parece ser alérgico às fibras sintéticas) e, por outro lado, só porque Portugal é um «país de maricas» é que a gripe anda por aí à solta. Atchim!

 

Réplicas [2]


Experimente ouvir (ou re-ouvir) Jersey Girl. De Tom Waits. Conheço outras versões, mas nenhuma se aproxima da versão original. A Holly Cole (em Temptation) falta-lhe força; aos Pale Saints (em Step Right Up: The Songs of Tom Waits) falta-lhes alma; a Bruce Sprinsteen não lhe falta uma coisa nem a outra (em Live/1975-85), mas vê-se que não travou prévio conhecimento com aquela moçoila de Jersey. Fica o aviso: nunca ouvi a Jersey Girl de Dave Van Ronk, certamente excelente (em To All My Friends in Far-Flung Places).


 

Notícias da coligação [4]


A
Causa Real alertou ontem o PSD de que poderá perder votos dos monárquicos devido à ligação com o PPM. "Provavelmente, o PSD quando entendeu estabelecer a ligação ao PPM pensou poder conquistar votos do movimento monárquico, mas dificilmente isso acontecerá", disse o presidente da Causa Real, António Sousa Cardoso. Considerou ainda que "o PPM é hoje um partido inexistente e não representa o movimento monárquico". Por outro lado, António Sousa Cardoso critica a escolha de Câmara Pereira como candidato a deputado pelo PPM nas listas do PSD em lugar elegível (11º por Lisboa), acusando o fadista de "fazer mal às instituições monárquicas" ao contestar a legitimidade do Duque de Bragança como representante da Causa Real: "A escolha deste candidato [o fadista Câmara Pereira] vai fazer provavelmente com que monárquicos que conheçam as suas posições, mesmo os que militam ou simpatizam com o PSD, não vão votar no PSD".

 

FAZER TURISMO NA LUSÍADA*


A Portaria n.º 53/2005, hoje publicada, autoriza «o funcionamento do curso de licenciatura em Turismo na Universidade Lusíada de Lisboa.» É-bom-é, para a Lusíada e para o bebé.
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* Não há numerus clausus, como se compreende.

 

Semana dedicada ao «ADESIVISMO»¹ [conclusão]


«Como vimos, o “adesivismo” teve início em Outubro de 1910. Prosseguiu atribuladamente nos anos seguintes, inflectindo cada vez mais para a força política ascendente, isto é, para os “afonsistas” ou democráticos. E foi exactamente sob o primeiro governo monocolor democrático que se esclareceu definitivamente a atitude da República perante os conversos. Tornou-se então evidente que o regime evoluía para uma República com (ex-) monárquicos. Em Julho de 1913, O Dia publicitava que a “adesivagem já tem que farte: estão em praça 35 lugares em S. Bento a 3$333 réis por dia e por cabeça. – Eleição em Novembro. Trata-se no Terreiro do Paço. É não perder tempo! Toca a oferecer. Na verdade, mal foi empossado, Afonso Costa dedicou-se a preparar a máquina eleitoral à boa velha maneira e sem quaisquer rodeios.

O acolhimento que prestou aos políticos profissionais era indissociável da sua condição de donos de zonas de influência. Conforme observava O Dia, “é inexplicável a solicitude, o empenho, com que os jornais republicanos procuram atrair às anunciadas eleições suplementares vários antigos monárquicos […] com a preferência, que é deveras curiosa, entre tantas dezenas de homens públicos, dos que foram, durante longos anos, ministros, pares, deputados monárquicos”.

Os adesivos “afonsistas” provieram de todas as antigas facções da Monarquia, além de individualidades extra-partidárias. Dentre as últimas destacam-se o oficial do Exército Correia Barreto, que na República ascendeu a ministro, organizador do grupo político-militar dos Jovens Turcos e presidente do Congresso; o general António do Carvalhal, 1.º comandante da divisão militar de Lisboa e deputado; o oficial da Armada Victor Hugo de Azevedo Coutinho, presidente da Câmara dos Deputados e chefe do célebre governo dos “miseráveis”.

Muitos dos ex-“franquistas” que se ligaram a Afonso Costa desempenharam cargos e funções de enorme relevância política e militar. É o caso de Leote do Rego, membro dos Jovens Turcos e um dos chefes do golpe de 14 de Maio de 1915; Norton de Matos, igualmente filiado nesse grupo, governador de Angola, ministro e estratega militar da intervenção de Portugal na Guerra mundial; Alfredo Rodrigues Gaspar, presidente da Câmara dos Deputados, ministro e presidente de ministério; Vitorino Magalhães, ministro e presidente de ministério; Freire de Andrade e Abel Fontoura, ministros.

Políticos ex-progressistas, como Catanho de Meneses, Cerveira de Albuquerque e Júlio Dantas, também guarneceriam governos de colaboração democrática. Por outro lado, Barbosa de Magalhães e Levy Marques da Costa contam-se entre os ex-dissidentes progressistas que singraram na política através do Partido Democrático; o primeiro foi deputado, presidente do Senado e ministro.

Quanto aos ex-regeneradores “teixeiristas”, cumpre referir figuras como Ernesto de Vilhena, Arantes Pedroso, Ernesto Navarro, Jaime de Sousa e Melo Barreto, todos ministros de elencos democráticos, além de Nicolau de Mesquita, várias vezes governador civil de Vila Real. Melo Barreto e Nicolau de Mesquita eram muito íntimos do último presidente de ministério da Monarquia. Fizeram carreira política por Trás-os-Montes, precisamente um dos bastiões de Teixeira de Sousa.

Esta província é das que melhor ilustra a continuidade dos feudos caciquistas. A demissão do administrador do concelho de Chaves, em Fevereiro de 1911, alertou a opinião da capital para o entendimento que se havia estabelecido entre o governador civil de Vila Real e elementos “teixeiristas” e “alpoinistas”, sugerindo-se o envolvimento de Afonso Costa nessas movimentações. Por meados de 1913, o “bando” transmontano de Teixeira de Sousa voltava à ribalta, sendo então acusado por democráticos flavienses de “inspirar” as festas de comemoração do combate de Chaves e de ter “assaltado” a política local.

Isto não impediria Bernardino Machado e Afonso Costa de patrocinarem, em Julho de 1914, a candidatura de Teixeira de Sousa a administrador da Companhia dos Caminhos-de-Ferro. Após o derrube da ditadura de Pimenta de castro, o favorecido iria retribuir com ajuda eleitoral, sendo para efeito visitado por Afonso Costa na sua casa de Sanfins. Note-se que por esse tempo uma nova Lei eleitoral atribuía aos distritos de Bragança e Vila Real dois dos melhores quocientes de representação parlamentar de todo o País.

Contudo, já antes de 1915 vinha Teixeira de Sousa assegurando votos e deputados aos “afonsistas”. Discursando no funeral do ex-chefe regenerador, em 8 de Junho de 1917., Melo Barreto lembrava, reconhecido, ao povo transmontano que, “sob o patrocínio e carinho de Teixeira de Sousa, há já mais de dez anos que me dais os vossos votos, para que vos represente no Parlamento. Ou seja: da Monarquia para a República, sem solução de continuidade!»

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¹ Fernando Farelo Lopes, Poder Político e Caciquismo..., cit., pp. 48-50.

quarta-feira, janeiro 19

 

Um país, dois sistemas


O Pula Pula já tinha dado conta de que Alberto João se preparava para dar o grito do Ipiranga em matéria fiscal [
Alberto quer, João vai ter…]. Foi ontem publicado o diploma que transfere «para a Região Autónoma da Madeira as atribuições e competências fiscais cometidas à Direcção de Finanças da Região Autónoma da Madeira» (Decreto-Lei n.º 18/2005). Agora o país apresenta dois sistemas: um que se aplica no continente e nos Açores; outro na Madeira.

O diploma impõe um conjunto de obrigações ao fisco do «contenente», mas é muito menos exigente relativamente ao que impõe à futura administração fiscal da RAM (v.g., artigo 3.º). E até contempla a possibilidade de o estatuto remuneratório dos funcionários da Madeira ser melhorado…

Acontece que é na Madeira que existe a única zona franca com dimensão. Quando, ainda ontem, o Dr. Portas, todo empertigado, defendia que o actual governo dera início ao combate à fraude fiscal, é desmentido no próprio dia pelo Diário da República… Como é que, se for necessária a presença física na Madeira, se realiza uma inspecção a empresas que tenham sede (ou até apenas «actividades») no off-shore do Funchal?

Haverá duas formas de Alberto João captar investimentos: ou baixa as taxas dos impostos ou assegura a inexistência de fiscalização. A coisa promete…

 

Notícias da coligação [3]


Num comício ontem realizado na Casa do Povo de Mira,
Santana mandou recados para o interior do PSD: «Aqueles que me contestam, no dia 20 vão estar todos disponíveis para trabalhar comigo. Vão ver se aqueles que criticam não vão aparecer a meu lado a dizer 'somos todos sociais-democratas, vamos trabalhar por Portugal'».

Mas o ainda líder do Governo da malta da discoteca não deixou também de se referir ao Presidente da República (e à herança barrosista): «Começa a estar claro o que aconteceu, o golpe político que foi preparado para o PS regressar ao poder, apanhando-nos na fase mais difícil da governação, quando estávamos a pagar a fava, os custos do que nos tinham deixado».

 

Semana dedicada ao «ADESIVISMO»¹ [3]


«Os “adesivos” integraram-se com a relativa facilidade nas comissões republicanas e nos órgãos da Administração local e central. Muitos deles limitaram-se a permanecer nos cargos e postos que ocupavam. Por exemplo, o chefe de gabinete de Marnoco e Sousa, ministro da Marinha do último governo da Monarquia, não foi exonerado e passou a servir o novo ministro, Amaro de Azevedo Gomes.

Tais sucessos indignavam certa imprensa republicana. Sob o título sugestivo de “A Monarquia acabou!”, um editorial d’O Século lembrava que o regime deposto se não resumia a D. Manuel e aos seus cortesãos; era todo um sistema político, com os seus homens públicos, os seus partidos, os seus caciques, as suas clientelas. Admitindo embora que um cidadão monárquico pudesse aderir, o editorial já não aceitava “o acto de solidariedade política dum partido”.

No entanto, esses apelos não tinham grande eficácia. Em Novembro, o general Raposo Botelho e Manuel Mansilha, ministros do último governo da Monarquia, foram nomeados para o Supremo Tribunal de Defesa Nacional e para a Inspecção da Fazenda numa das colónias, respectivamente. A colocação de políticos “teixeiristas” e de outras facções ex-monárquicas prosseguiu nos meses seguintes.

Condicionantes e limitações de natureza económica, cultural e política impediam a República de actuar de modo diferente, como de resto se aperceberam os sectores oposicionistas mais advertidos. Enquanto o deixaram sobreviver, o Correio da Manhã procurou demonstrar que o novo regime não podia suprimir as dependências que prendiam os eleitores aos influentes, pelo menos durante o lapso em que persistissem as raízes e causas sociais do caciquismo. Previu mesmo que o entendimento com os caciques monárquicos se tornaria imprescindível na fase de preparação das eleições, primeiro passo com vista ao restabelecimento da normalidade constitucional; então, “a República terá de bater à porta do cacique […], oferecer a estrada, promover a ponte, negociar o despacho, e até virar uma boa canada na tasca ou na adega, para solenizar a convenção eleitoral”.

Na realidade, as coisas foram menos simples do que isso. A imprensa “afonsista” empenhou-se em denunciar o cacique monárquico e o “influente reaccionário”, alertando para a possibilidade de eles virem a condicionar o voto e corromper o futuro Parlamento. Alguns dirigentes moderados, como Brito Camacho, tinham dúvidas acerca da sinceridade de todos os ex-monárquicos, sobretudo de um que aderiu “oferecendo milhares de homens, sobre quem exercia predomínio”. Entretanto, militantes radicais e carbonários já haviam iniciado a depuração de inúmeras comissões administrativas e partidárias, numa intensa e vasta “montaria” aos “adesivos” e “talassas”.

O “adesivismo” tornou-se uma questão politicamente complexa. Abriu brechas nas hostes republicanas, entre “almeidistas” e “afonsistas”, entre as cúpulas moderadas e as bases radicais. Estariam em jogo, para lá dos ideais, interesses menos puros, já que uma das razões da campanha desencadeada contra os conversos terá sido a urgência de excluí-los da concorrência com as clientelas republicanas no provimento de lugares e na consolidação de influências.

Todavia, a rede lançada aos “adesivos” tinham malhas relativamente amplas. Enquanto militantes republicanos perseguiam ex-monárquicos por todo o lado, “o sr. Bernardino Machado, não tendo engenheiros suficientes para a montagem das máquinas eleitorais, e sabendo que Alpoim & Cª é uma firma de primeira ordem, adere-lhe com toda a força estomacal no Hotel de Inglaterra”. E apesar das conhecidas ligações de Bernardino Machado aos “afonsistas”, estes não se eximiram de acusar o Directório, até então controlado pelos moderados, de ter facilitado o acesso de “adesivos” à Assembleia Constituinte.»

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¹ Fernando Farelo Lopes, Poder Político e Caciquismo..., cit., pp. 46-8.

terça-feira, janeiro 18

 

Financiamento dos partidos políticos


Falei há dias do bizarro processo criado para o controlo do financiamento dos partidos políticos, defendendo que essa competência deveria ter sido confiada ao Tribunal de Contas – e não ao Tribunal Constitucional, que, para este efeito, teve de inventar uma nova unidade orgânica com a sugestiva designação de «Entidade das Contas e Financiamentos Políticos» [o adjectivo «políticos» qualifica também as «contas» ou apenas os «financiamentos»?] Vejo agora que Vital Moreira parece defender também que a entidade competente deveria ser o Tribunal de Contas.

 

Consultor fiscal todo-o-terreno


A fortuna bateu-lhe à porta quando Oliveira e Costa, o voluntarioso secretário de Estado dos Assuntos Fiscais de Cavaco Silva, entrou de supetão, fora de horas, nas instalações do IVA e ele ainda por lá andava. Logo ali Amaral Tomás foi feito dirigente e incumbido de vender a reforma fiscal pelas secções do PSD. Fê-lo com tanto ardor que, em breve, seria nomeado assessor de Oliveira e Costa, trampolim para se alçar à Reper. A travessia do guterrismo fê-la como pôde, mostrando que não é pessoa para desânimos. Quando parecia abrigado das tempestades, eis que Martins da Cruz o recambia da embaixada em Londres, quando acabou com a «diplomacia do croquete». De regresso à pátria, Amaral Tomás pediu sucessivamente emprego a Barroso e a Santana Lopes: no governo de Barroso, foi adjunto do secretário de Estado da Economia; no governo de Santana, adjunto do secretário de Estado dos Assuntos Europeus. Subitamente, Sampaio dissolve a Assembleia da República e Amaral Tomás aparece nas Novas Fronteiras: é o rosto na área fiscal… Os pactos de regime fazem-se com camaleões – não com palavras ocas. Já estou a começar a entender o que o
Filipe Nunes, um dos bloggers que mais gosto de ler, quis dizer quando falava na necessidade de cativar «os sectores mais dinâmicos da sociedade». Só não foi preciso cativá-los... Pela sua própria natureza, os Valadares Tavares, os Carlos Pinto Coelho, até os Amaral Tomás são gente sempre disposta a aceitar novos desafios…

 

Semana dedicada ao «ADESIVISMO»¹ [2]


«Implantada a República, as organizações monárquicas dissolveram-se de imediato. Segundo um ex-dirigente do Partido Progressista, tal facto acarretou a suspensão ou a adesão ao novo regime dos jornais que as apoiavam. Trata-se de uma interpretação questionável, já que o seu autor se esqueceu de relacionar aquela adesão com a de antigos chefes, “marechais” e respectivas redes, cuja amplitude passamos a descrever.

Pelo que acima dissemos acerca dos alinhamentos políticos nos últimos anos da Monarquia, não surpreenderá a pronta adesão de Alpoim e de quase toda a comissão executiva da Dissidência-Progessista. O mesmo fizeram, mais cedo ou mais tarde, as restantes individualidades da facção, em particular, o escritor Abel Botelho, os professores universitários Caeiro da Mata, Pedro Martins e Francisco Fernandes, o visconde do Ameal, o visconde de Peralva, os advogados Sousa Costa e Pereira dos Reis, bem como o funcionário e jornalista Santos Tavares.

As redes provinciais seguiram um movimento. Em Aveiro, aderiram todos os parentes e amigos do dr. Barbosa de Magalhães, incluindo o director da folha dissidente local (O Campeão das Províncias). Em Seia, terra natal de Afonso Costa, o dr. Mota Veiga levou para a República todos os elementos do grupo, facto prontamente comunicado ao ministro da Justiça do Governo Provisório. O dr. Egas Moniz preferiu dirigir-se a António José de Almeida para transmitir a sua adesão e a dos seus amigos do concelho de Estarreja e do distrito de Aveiro. Em diversas localidades, como Mesão Frio, Tarouca, Gouveia e Moimenta da Beira, os “alpoinistas” aderiram rapidamente e por vezes substituíram os inexistentes republicanos no acto de proclamação do regime.

Quanto ao Partido Regenerador, influentes e clientelas locais precederam amiúde os chefes e “marechais” na declaração formal de adesão. Os de Borba converteram-se em massa, comunicando-o prontamente a Teófilo Braga. No dia 7, a revolução era aclamada pelo “monarquismo” de Vila Real, no qual avultavam os amigos do último presidente de ministério da Monarquia, Teixeira de Sousa. Em Gavião, aderiram o administrador do conselho, os vereadores, empregados municipais e influentes regeneradores (8 de Outubro). No dia seguinte aderiram os sessenta membros da facção da Guarda, bem como os filiados do Louriçal (S. Fiel). É inútil prosseguir, tantos foram os locais em que as clientelas acataram o “ideal novo”.

No dia 16 de Outubro, O Século publicava as primeiras declarações políticas de Teixeira de Sousa. O ex-chefe regenerador informa então que os seus amigos o haviam convencido a adiar a resolução de se afastar da política, e que de momento tinha como única certeza que “toda a tentativa de restauração seria inútil e inconveniente”. Em suma, não declarava abandonar a política e, se nela continuasse, não seria no campo monárquico.

A conversão de personalidades regeneradoras tomou o aspecto de debandada. O último ministério da Monarquia forneceu seis ilustres “adesivos”, para não referir os chefes de gabinete, secretários, etc.. Os conselheiros da Coroa quedaram-se pelos quatro, mas os deputados superaram a dezena. Foram inúmeros os funcionários, juízes, militares, jornalistas e professores regeneradores que quiseram participar no novo regime.

Menos numerosa foi a “adesivagem” provinda das (reduzidas) hostes “franquistas”. A imprensa não menciona adesões organizadas na província, com excepção de Abrantes e Amarante, aqui devido à influência do ex-padre do Reino Teixeira de Vasconcelos. Particularmente visados pelas autoridades e bases republicanas, os regenerados-liberais forneciam destacados elementos às lutas restauracionistas.

As circunstâncias descritas explicam o denodo com que tiveram de actuar os “franquistas” que aspiravam a um lugar na República. Se a sua adesão assumiu “proporções de escândalo”, não foi tanto pela amplitude como pelo passado político do grupo e pelo facto de nela se integrarem individualidades que tinham exercido os mais elevados cargos no regime deposto. Dentre essas individualidades sobrelevam o general José de Morais Sarmento, ministro da Guerra e par do Reino; o tenente-coronel Freire de Andrade, governador geral de Moçambique e ajudante-de-campo do Rei, além do membro da “glorioso plêiade” africanista de António Ennes; o conselheiro Teixeira de Vasconcelos, par do Reino e governador civil do Porto; o oficial da Armada Leote do Rego, deputado, ajudante-de-campo do Rei e frequentador do paço real. Podemos ainda referir Oliveira Muzanty, oficial da Armada e governador da Guiné, e Ferreira de Almeida, secretário da legação em Londres e “cronista elegante” em vários jornais “franquistas”. Os militares estavam amplamente representados nos conversos do grupo.

O Partido Progressista foi o que menos gente ilustre deu à República. Ainda assim, forneceu-lhe ex-deputados, como Augusto de Castro, João Ribeiro Coelho e Júlio Dantas. Este “voltou costas às marquesas monárquicas, e passou a fazer mesuras e versos às Severas e Joaquinas dos Cordões republicanos”. De resto, a “adesivagem” foi musa inspiradora de outros poetas do “progressismo” (Afonso Lopes Vieira e Henrique Lopes Mendonça).

As adesões dos progressistas raramente se efectuaram de forma organizada ou colectiva. Na Póvoa de Varzim, o Partido decidiu reconhecer “a salutar acção do novo regime em Portugal” e cooperar com o “republicanismo” local. Os membros da Caldas da Rainha aderiram à República “com o mesmo calor e sinceridade com que defendemos a Monarquia”. Particularmente elucidativa é a situação de Aveiro, onde a transição para a República parecia inserir-se nas habituais guerras de campanário: os seguidores do conde de Águeda, cuja influência vinha sendo disputada nos últimos anos pelo dissidente Egas Moniz, responderam à imediata adesão deste com a “leal e desinteressada” adesão dos seus 125 elementos e a promessa de dávida de sete deputados pelo círculo.

Não consta que tenham surgido conversões significativas da facção “henriquista”. Quanto a outros grupos, apenas merecerá referência a dos “amaralistas”, do Almirante Ferreira do Amaral, ex-par do Reino, ex-ministro da Marinha e primeiro presidente de ministério do reinado de D. Manuel II.

Apesar da lista de adesões que apresentámos, a qual não é exaustiva, convirá sublinhar que a maioria dos dirigentes partidários, pares do Reino, deputados e governadores civis da Monarquia findou a sua actividade política no dia 5 de Outubro. Tão-pouco se esquecerá que muitos permaneceram na expectativa e que uma minoria se dispôs a combater a República desde a primeira hora.»

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¹ Fernando Farelo Lopes, Poder Político e Caciquismo..., cit., pp. 42-6.

segunda-feira, janeiro 17

 

Acerca da inteligência do funcionário público


Os aumentos da Função Pública foram agora publicados – aliás, sem que os sindicatos do sector dessem sinais de vida. Uma vez que os vencimentos de Janeiro estão processados, os aumentos relativos ao mês em curso serão pagos conjuntamente com os vencimentos de Fevereiro, colocados à disposição em vésperas das eleições antecipadas. É possível que o Dr. Lopes admita que este expediente possa atenuar o desastre que se antevê. Mas que Paulo Trindade, presidente do sindicato da Função Pública integrado na CGTP-IN, considere que isso não deixará de influenciar o voto dos funcionários públicos, qualificando de muito grave a situação, é das frases mais surpreendentes dos últimos tempos.

Apesar da ideia que Paulo Trindade faz daqueles que representa, ainda não apresentou a demissão de presidente do sindicato. E para o ano, suspeito, lá aparecerá para negociar com o Governo os aumentos da Função Pública. Com o sucesso que se pode, desde já, prever.

 

Sampaio põe a gerontocracia chinesa em alerta amarelo


O Dr. Sampaio, de visita à China, dá um pulo a Macau. Fá-lo pela segunda vez enquanto Presidente da República. Da primeira vez que pôs o pé em Macau morreu Teng Siao Ping; agora que regressou a Macau morre Zhao Ziyang, o ex-líder do PCC que quis democratizar o regime, ou seja, criar condições para que a iniciativa privada não ficasse circunscrita aos influentes membros das forças armadas e do partido com que o PCP mantém relações privilegiadas. Um fantasma paira sobre a Cidade Proibida – e lá como cá anseia-se pelo termo do segundo mandato do Dr. Sampaio.

 

Semana dedicada ao «ADESIVISMO»¹ [1]


«O termo “adesivismo” exprime o processo de conversão de políticos, facções e jornais monárquicos ao regime implantado em 1910. Enquanto fenómeno maciço, o “adesivismo” é inseparável da proeminência das relações clientelares, bastando evocar a “desideologização”, o pragmatismo e a instabilidade que regem o vínculo de patrocinato no caciquismo de transição. Contudo, para melhor compreensão do fenómeno, há que acrescentar a esta explicação genérica uma referência aos alinhamentos político-partidários no quadro da desagregação dos partidos rotativos e da polarização da cena política nos finais da Monarquia.

Em seguida ao Regicídio de 1908, uma revista católica vaticinava que as forças políticas iriam organizar-se em dois grupos rivais: o “conservador”, que reuniria os partidários de João Franco (regeneradores-liberais ou “franquistas”) e os nacionalistas (católicos); e o “avançado”, constituído pelos republicanos e pelos dissidentes-progressistas liderados por José de Alpoim. Com efeito, os dissidentes eram o caso mais evidente de “colagem” ao Partido Republicano, embora a facção regeneradora “teixeirista” também procurasse identificar-se com este Partido, o qual chegou a ver em Teixeira de Sousa o representante de “um certo liberalismo de inspiração republicana”.

Em Janeiro de 1908, os dissidentes-progressistas envolveram-se com os republicanos numa malograda revolução, e o seu chefe terá contribuído para o Regicídio. Alpoim foi um dos mais ferrenhos anticlericais no seio do regime. Veio a preconizar que a Monarquia “avançasse para a esquerda até se aproximar, o mais possível, do modelo da Constituição belga”. As suas posições em matéria eleitoral tornaram-se praticamente idênticas às do Partido Republicano.

Em contrapartida, nas vésperas da revolução republicana os “franquistas” e os nacionalistas integraram o “bloco de defesa monárquica”, juntamente com o pequeno Partido Legitimista e os regeneradores “henriquistas”, a par de activistas católicos e de oficiais ligados às colónias. Esse “bloco” representava não só uma oposição ao último governo da Monarquia, chefiado por Teixeira de Sousa, como também o renascimento da táctica contra-revolucionária que tinha sido ensaiada em 1907-1908, sob a ditadura de João Franco, e abandonada após o Regicídio. O seu objectivo consistia em “provocar a revolução e esmagá-la, isto é, entrar em ditadura e tornar ilegal o PRP”, tanto mais que a via de “acalmação” tentada por D. Manuel II e pelas autoridades governativas se revelava incapaz de travar a ascensão dos republicanos.»
___________
¹ Fernando Farelo Lopes, Poder Político e Caciquismo na 1.ª República Portuguesa, Estampa, Lisboa, 1993, pp. 41-2.

 

Réplicas [1]


Bird on the Wire

Like a bird on the wire,
like a drunk in a midnight choir
I have tried in my way to be free.
Like a worm on a hook,
like a knight from some old fashioned book
I have saved all my ribbons for thee.
If I, if I have been unkind,
I hope that you can just let it go by.
If I, if I have been untrue
I hope you know it was never to you.

Like a baby, stillborn,
like a beast with his horn
I have torn everyone who reached out for me.
But I swear by this song
and by all that I have done wrong
I will make it all up to thee.
I saw a beggar leaning on his wooden crutch,
he said to me, "You must not ask for so much."
And a pretty woman leaning in her darkened door,
she cried to me, "Hey, why not ask for more?"

Oh like a bird on the wire,
like a drunk in a midnight choir
I have tried in my way to be free.




Leonard Cohen escreveu Bird on a Wire (ou Bird on the Wire, como também aparece escrito). Há dezenas de versões do tema (cf. aqui e ali): Fairport Convention, Judy Collins, Buffy Saint-Marie, Joe Cocker, k.d. lang, Neville Brothers, Willie Nelson, etc. não quiseram deixar de gravar Bird on a Wire. Escolho cinco formas diferentes de abordar o tema. Além da original [em Songs From a Room (1969)], selecciono a de Tim Hardin [em Bird on a Wire (1971)], a de Tom Rapp com os Pearls Before Swine […Beautiful Lies You Could Live (1971)], a dos Lilac Time numa colectânea de 1991 [I'm Your Fan (Tribute to Leonard Cohen)] e a de John Cash [American Recordings (1994)]. Podem não ter feito melhor do que Cohen, mas certamente não fizeram pior – embora por caminhos diferentes.

 

A arte de mergulhar


Vasco Pulido Valente no Público de Sábado, dia 15:

«Luís Nobre Guedes queria fazer uma conferência de imprensa. Por qualquer razão, Santana não queria que ele a fizesse. Luís Nobre Guedes não se comoveu e ameaçou bater com a porta. No dia seguinte, a conferência de imprensa era feita, precedida de grandes protestos de lealdade de Nobre Guedes. Este episódio inaugurou uma nova fase do Governo: o Governo em que ninguém governa. Veio a seguir a questão Pôncio. Santana meteu o dito Pôncio na lista do PSD do Porto. Rui Rio não gostou e, muito lealmente, claro, também ele ameaçou. Logo Pôncio saiu a correr da lista do PSD do Porto, vociferando contra Santana. Esta semana foi a vez de Sarmento. Sarmento andou a mergulhar na ilha do Príncipe. Em Paris, Santana caiu infantilmente na provocação de um jornalista e confirmou que, na verdade, o caso o “incomodava”. Isto naturalmente enfureceu Sarmento, que se demitiu. Aterrado Santana convocou dois socorristas (Arnaut e Relvas) para convencer Sarmento a não se demitir e Sarmento, magnânimo, não se demitiu, no meio de grandes protestos de indefectível lealdade. Mais: com imensa misericórdia até jurou que não pretendia suceder a Santana. Agora, só falta saber quem será o próximo ministro ou próximo cacique que resolve dar um encontrão ao primeiro-ministro: com a máxima lealdade e apreço, evidentemente.

Santana não está demissionário, “em gestão” ou seja o que for. Santana já não manda nada no Governo ou no partido. Nem sequer manda em si próprio, admitindo que houve um tempo ignorado e remoto em que mandou. O Governo inteiro espera o festivo dia da libertação e o PSD prepara com amor a sua guerra civil interna. O resto é espectáculo para militante ver. O obrigatório espectáculo da lealdade ao chefe, que toda a gente afirma e reafirma sem se rir. E o espectáculo da “campanha”, uma espécie de enterro a que não se pode faltar. Sozinho, a um canto, Santana assiste à coisa. Sabe com certeza, e se não sabe devia saber, que a eleição de 20 de Fevereiro, mesmo que o PS não chegue à maioria absoluta, é o fim dele. A história de Sarmento mostra que a dissolução da sua autoridade pessoal e política não tem remédio. E contra isso, contra esse vento e essa maré, nenhuma bravata, nenhuma arrogância, nenhuma retórica vale.»

domingo, janeiro 16

 

Notícias da coligação [2]


Luís Filipe Meneses lembrou hoje o apoio do PSD a Paulo Portas aquando do caso Moderna, avisando que não aceita "picadelas" dos dirigentes do PP.

"Ouvi dirigentes do CDS a dizer que tudo passou a correr mal no Governo por atitudes menos pensadas de ministros do PSD, esquecendo-se do apoio que demos a Paulo Portas quando toda a gente reclamava a sua saída do Governo por causa da Universidade Moderna", afirmou Meneses.

Sublinhou também que é "a favor da manutenção da coligação com o PP após as eleições" e lembrou que foi o primeiro a coligar-se com o partido nas eleições para a Câmara de Gaia em 1997. No entanto, deixou um aviso aos parceiros de coligação nos governos liderados por Durão Barroso e Santana Lopes:

"Meus amigos do CDS vamos ser serenos e correctos! O PSD não aceita picadelas subliminares ou até directas do CDS, e lembra aos portugueses que apoiou sempre Paulo Portas no caso Moderna apesar das dificuldades que isso trouxe a Durão Barroso".

E Meneses acrescentou: "Durante um ano e meio o Governo sofreu com os problemas do CDS e manteve-se firme quando quase todo o país reclamava a saída de Portas, depois de este ter sido o bombo de festa dos comentadores, de uma forma pior da que acontece hoje com Santana Lopes".

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