segunda-feira, dezembro 13

 

Uma história portuguesa


Vasco Pulido Valente no Público de ontem, Domingo:

«Em Julho, o Presidente da República não dissolveu a Assembleia por uma única razão: tinha medo de um governo Ferro. Um governo Ferro podia sublevar o país contra ele e ele naturalmente queria acabar o seu mandato em paz de espírito. A Constituição serve para tudo. Serviu nessa altura para substituir Barroso por Santana e tentar manter as coisas como estavam, mesmo quando estavam manifestamente mal. Ferro percebeu o que a decisão significava: uma absoluta desconfiança nele. Só lhe restava sair e, de facto, saiu. Claro que sendo legal, o arranjo não era legítimo. Não vale a pena repetir que verdadeiramente se elege o Primeiro-Ministro (e não um partido) e que um Primeiro-Ministro, por assim dizer, nomeado, está por definição diminuído. Já se vira que sim com Balsemão e, a partir de Cavaco, não havia a menor dúvida. Sampaio resolveu ignorar a evidência, mas para o que desse e viesse anunciou que iria exercer uma tutela especial sobre o governo de Santana, que por outro lado declarava imaculado e pleno. Supunha com certeza que essa pobre habilidade o protegia a ele, amolecia o PS e moderava Santana. O plano falhou de ponta a ponta.

Logo no primeiro dia, Santana mostrou a sua essencial instabilidade e dali em diante, de episódio em episódio, o caos cresceu. Nenhum episódio foi em si próprio grave (e nisso, por uma vez, Sampaio acertou). Grave, e até insustentável, foi o “padrão” que pouco a pouco, e não por acaso, emergiu. Santana é um demagogo e demagogia vive do movimento, não se instala em S. Bento a reformar discretamente a pátria. Precisa sempre de inimigos, de escândalo, de aventura. Mas, como era previsível, a guerra de Santana contra o mundo começou a inquietar o país, tanto mais quanto ele aparecera em cena sem um voto que o “legitimasse”. O erro original de Sampaio batia enfim à porta de Belém. E o segundo erro logo a seguir: a tutela especial, tão solenemente prometida, fazia com que ele carregasse agora a responsabilidade pela agitação contínua que a natureza e origem do governo por força provocavam. Felizmente, agora, Sócrates permitia uma dissolução sem risco ou quase sem risco. Sampaio resolveu acabar com Santana e esperou o seu momento. Não esperou muito. As birras entre o CDS e o PSD em Barcelos e a demissão de Henrique Chaves criaram o clima e forneceram o pretexto. O resto não custou nada. A Constituição serve para tudo.»

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