quarta-feira, dezembro 8

 

Recordando os políticos competentes de Cavaco


«Há coisas que, para um cidadão que se pretenda medianamente interventor, são penosas de admitir publicamente. Mas, porque a palavra não é uma coragem vã, quero reconhecer aqui, apesar do tempo e da atenção que já nisso empenhei, ainda não consigo distinguir os ministros Silva Peneda e Silveira Godinho. Não sei qual faz o quê e, pior, não sei quem é quem. Fico como Alice perante Tweedledum e Tweedledee e como leitores de Hergé perante Dupont e Dupond.

Digo-o sem acinte, porque não pretendo com isto diminuí-los (o que, de resto, só poderia suceder se em fraca conta se tivessem um ao outro). E digo-o sem gáudio, porque teoricamente era meu dever distingui-los.

Teoricamente, sublinho. Porque qualquer observador isento há-de convir em que eles não ajudam.

Suponho que quando o primeiro-ministro chamou os seus apóstolos lhes terá imposto o low profile. Mas mesmo na criação do mundo, nem a toupeira levou tal recomendação ao literalismo fanático que lhe deram Silveira Godinho e Silva Peneda.

Um deles (obviamente não sei qual) deu em tempos uma entrevista ao Expresso sugerindo que a modéstia era do seu natural. Talvez sim, talvez sejam ambos modestos. Mas em supostos governantes, a modéstia não chega, não serve e não rende.

Porque à modéstia coube o fado de só ser virtuosa quando é errónea. Não há virtude, mas apenas resignada objectividade, na modéstia daquele que nada tem a suscitar-lhe a vaidade. E a modéstia do homem de qualidade, para não se degradar em hipocrisia, revela o juízo errado que ele faz de si próprio e agoira a sua incapacidade para julgar os outros. Coisa ruim num ministro. (E aqui a gente pergunta-se: será que não basta o bom senso para inocular neste Governo personalidades feitas de sensatez e vocação política? Ou continua a pensar-se que isso equivale à média aritmética de uns quantos arrogantes mais uns tantos modestos?)

Voltando à minha revelação, devo dizer que poucos foram os amigos a quem abri a alma neste meu problema. Uns escarneceram e outros apiedaram-se de mim. Mas observei que, por detrás da aparente segurança das palavras, em todos eles eram brumosas ou evasivas as respostas sobre o que atribuir politicamente a cada um dos dois ministros. Um só, de entre todos, me deu um elemento concreto: que um dos ministros tinha óculos e bigode e outro não. Agradeci e esqueci, porque a pista era de pouca valia. Bigode e óculos são adereços amovíveis e eles bem podem entretanto ter trocado.

Comecei a suspeitar de que o problema era real e não uma mera incapacidade minha, quando ocorreu o facto redentor. O primeiro-ministro enganou-se na padroeira do PSD para as eleições europeias e foi ao Santuário de Fátima, levando consigo os dois ministros. A televisão mostrou os dois ministros, um com (e o outro sem) bigode e óculos, mas não legendou, imputando cada nome a cada homem. Obviamente, a RTP também não sabe distinguir os dois ministros.

Depois, reflecti e fez-se luz. A ida a Fátima era uma abusiva e patusca operação eleiçoeira. Ora, não sendo nenhum dos dois ministros um galvanizador de multidões votantes, por que razão iria o primeiro-ministro levá-los a Fátima? E juntos! Num garimpeiro de votos como ele, a resposta só pode ser uma: foi por intimação do Além. Mas não chega. Porque, havendo ministros mais piedosos para saudar e ministros mais pecadores para repreender, por que razão iria o Além requerer a comparência de Silva Peneda e Silveira Godinho? E a explicação só pode ser a de que o fez para enfim os distinguir um do outro. O próprio Criador baralhava as criaturas!

Hoje, forte do apoio tácito do Criador e da RTP, eu ouso ser o primeiro a proclamar que Silveira Godinho e Silva Peneda são indiscerníveis. São absolutamente fungíveis. São irmãos siameses agrilhoados entre si, não pela carne, mas por esse critério maior que é o olho do senso comum. E contesto a validade das sondagens de opinião que os distinguem, bem como os juízos que sobre cada um deles os analistas políticos vêm produzindo.

Mas em tempo de remodelação – e na postura construtiva que venho assumindo perante ela – devo dizer que vejo virtualidades nestes dois casos de usura política pronunciada, mas em que o eleitorado não sabe ao certo qual o rosto a que deve atribuir cada um dos rancores.

No cenário de uma grande remodelação a apresentar ao País como pequena, o primeiro-ministro pode trocá-los (no limite, basta até dizer que os troca) e alegar que a mexida só aparentemente é grande porque houve trocas de pastas entre pessoas que permanecem. Desorienta.

No cenário de uma pequena remodelação a apresentar ao País como grande, o primeiro-ministro, trocando-os, pode acrescentar os dois nomes ao número dos remodelados e acrescentá-los também à lista das novidades. Impressiona.

(Não me ocupo aqui dos cenários da grande remodelação a ser apresentada como grande e da pequena remodelação a ser apresentada como pequena, porque é improvável que ocorram ao primeiro-ministro.)

Em qualquer caso, a manutenção de ambos no Governo é aconselhável. Até porque permite, num maior desespero futuro, correr com um deles, imputando-lhe os malefícios de ambos, e preservar o outro, que então arrancará de novo, agora imaculado (ainda que também inconfundível).

Sem prejuízo disso, eu aconselharia o primeiro-ministro a mandar-lhes serem arrogantes. A ver se arribam. Até porque se desejavelmente o forem em igual e modesta medida, as virtualidades não se perdem: o eleitorado continuará a não os distinguir.»

[Artigo de Nuno Brederode Santos publicado na edição do Expresso de 16 de Setembro de 1989, com o título «Um Igual a Dois»]

Comments:
Lindo!!!!!!!!!!!!!!
 
Muito bem lembrado ...
 
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