sábado, dezembro 11

 

O Refém (ainda sobre os políticos competentes de Cavaco)

«O homem que chorava baixinho tinha boas razões para o fazer.

Fui dar com ele encostado ao gradeamento do lago dos patos e cisnes no Jardim Zoológico. Chorava num silêncio digno e as lágrimas corriam-lhe em sulcos convergentes, como o Tigre e o Eufrates, até formarem estuário na concavidade do queixo. Debaixo do braço, mas bem visível, estava a antiquíssima revista em cuja capa a Jane Russell, ainda muito nova, mostrava, por um premeditado e atrevido rasgão na saia, seis centímetros de carne acima do joelho. Era o sinal que tínhamos combinado. Todos os cuidados são poucos e eu atirei-lhe a senha, numa voz surda (não fosse dar-se o caso de a velhota, que a poucos metros deitava pipocas às aves, o não ser).

Ele abafou um soluço e olhou-me. Com as costas da mão mudou o curso ao Eufrates. E respondeu com a contra-senha acordada.

Apertámos as mãos e eu perguntei-lhe quem era, o que pretendia de mim e qual a razão daquele encontro clandestino. Removeu o Tigre com a outra mão e falou, subitamente sereno:
— Sou um político e gosto da política. Há poucos anos, quando eu presidia à minha distrital, V. ter-me-ia reconhecido. Eu tinha poder. Marcava a terra, a vida e os outros. Até que, por um amigo comum, o professor convidou-me para o Governo. Eu recusei com discrição, alegando falta de jeito para a função e sublinhando a minha importância para o partido lá na terra. Mas o intermediário não cedeu. Impingiu-se para jantar e repetiu o convite, com larga cópia de argumentos, em frente da minha mulher. Ela não é feliz: eu tinha poder mas poucas posses e, de cada vez que a levava aos congressos, ela via as mulheres dos governantes e censurava-me por nunca a ter conseguido fazer aparecer na Olá. Lançou-me um ultimato. Eu expliquei-lhe que, no Governo do professor, não teria qualquer poder, nem margem para fazer política. Ela foi intransigente: «Estou farta desta parvónia e desta vida de galega doméstica. Quero aparecer nas revistas. E tu deixa-te de políticas, que foi o que sempre te perdeu, e vai para o Governo.» Eis o que me disse. E eu, fraco, cedi. Agora, V. já nem me conhece. Quero voltar para a minha terra e quero voltar à política. Já tentei tudo para sair do Governo, e não consigo. Não é preciso nada para entrar, mas é preciso ter poder político para alguém se demitir do Governo do professor – e eu não o tenho. Ele já disse mesmo que não estou autorizado a pedir a demissão. O que quer que eu faça? Este nosso encontro clandestino, denunciei-o anonimamente aos serviços de segurança. Espero que estejamos a ser observados. Pode ser que nasça uma suspeita. Agora vou passar-lhe um cheque com onze zeros. Não vale nada, mas quem nos vir pode pensar que estou a financiar a oposição. Não sei, preciso de ideias. Já tentei tudo. Fraldisquei em público a mulher de um colega de Governo: fiquei com a estalada dela e não me demitiram. Roubei, no Tavares, um leitão da Bairrada. Toda a gente viu. Mas a gerência mandou-me para o ministério um cartão de «agradecimento pela preferência de V. Ex.ª». Nomeei o meu filho para um alto cargo público, com ordenado chorudo. Ele tem oito anos. Fiz chegar o rumor à imprensa e ela nada fez, porque já não me dá valor. Durante dois meses, experimentei falar de mais, como o Pinheiro. Nada. Durante outros dois, não assinei um despacho, como o Valente. Nada. Durante outros dois, não apareci: entrei em catalepsia política, como o Real. Nada. Experimentei, depois, a inveja: fui comensal da RTP, prometi o que não tenho, exagerei o Ferreira do Amaral. Nada. Matei um lince na Malcata e mandei o corpo para a Lusa, com uma confissão assinada. Embebedei-me no Frágil e cantei a Internacional. Já fumo Havanos, que me fazem mal, em conselho de ministros. Nada. Rigorosamente nada. Estou mais refém do que os de Bagdade. Se estrangulo aqui esta velha, ilibam-me alegando que foi em legítima defesa da política ecológica, porque as pipocas fazem mal às aves. Comprei droga em flagrante e fui felicitado por ter conduzido ao desmantelamento de uma rede colombiana. Que mais posso tentar?

Pousei-lhe, amiga, a mão no ombro e segredei-lhe:

— A corrupçãozinha, a descarada. Venda os Jerónimos por cinco mil contos à sua mulher, com 99 por cento de crédito da Caixa a quarenta anos e ao juro de três por cento. Olhe que ele embirra com isso. Mas tem de ser óbvia e pública, senão ele ou não se apercebe ou não acredita.

Fitou-me como se eu fosse o deserto. O desencanto era indisfarçável e eu senti-me ínfimo. Tirou do bolso uma bela carteira de genuíno coiro da Rússia, com gravação a ouro das letras «ACS». Abriu-a e mostrou-me o cheque com o ordenado de Agosto do primeiro-ministro. E comentou:

— Olhe. É dele. Roubei-lhe do casaco em pleno conselho de ministros. Muitos viram e ninguém falou. Se lha devolvo, mais se obstina em manter-me no Governo, por vingança. Caso contrário, nunca saberá. É que nenhum colega me vai denunciar. Eles sabem que a saída de um ministro dá-lhe logo ideias de remodelação.

Apertei-lhe o ombro e afastei-me. Onde não há uma ideia de esperança é difícil encontrar uma palavra de despedida. Guardo o remorso do farrapo humano que ali deixei: um homem a chorar baixinho e com excelentes razões para o fazer.»

[Artigo de Nuno Brederode Santos, publicado na edição do Expresso de 29 de Outubro de 1990, com o título «O Refém»]


Comments:
Que saudades dos artigos do Brederode!
 
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