segunda-feira, dezembro 6

 

O «grande ganhador»


Vasco Pulido Valente no Público de Sábado (link não disponível):

«Corre por aí insistentemente que Santana é um grande “ganhador” de eleições. A começar pelo próprio, toda a gente papagueia isto como verdade incontestável. Mas, se formos ver, Santana nunca ganhou nada de importância. Por junto e atacado, ganhou a Figueira e ganhou Lisboa. Na Figueira, porque parecia uma óptima publicidade turística. Em Lisboa, porque João Soares lhe abriu a porta com erros de principiante. De resto, o “grande ganhador” perdeu rotundamente vários congressos do PSD e nunca, fora das suas fantasias, passou de uma figura exótica na política portuguesa. Agora, infelizmente para ele, vai ter uma eleição nacional. Já não se trata de “pôr na moda” a Figueira da Foz, nem de explorar a absurda campanha “antifascista” de João Soares. Santana precisa de convencer o país de que é, e será, um bom primeiro-ministro, quando à vista do país foi, muito enfaticamente, um péssimo primeiro-ministro e a simples presença dele, pedindo votos, prova à saciedade que o foi. Como, então, sair deste sarilho? Só há uma maneira: arranjar um bode expiatório; e dois bodes vagamente plausíveis: Jorge Sampaio e Paulo Portas. Santana pode fazer de vítima de Sampaio, um papel que, aliás, representa bem. Ou pode fazer listas conjuntas, para descarregar em Portas parte das culpas do desastre. Idealmente, o que lhe convinha era mesmo uma associação com Portas contra o Sampaio, apresentado de comício em comício como o verdadeiro inimigo da coligação e um perverso agente do PS.

Santana sabe que se ficar isolado e único responsável por uma eventual derrota acaba no PSD e na política. Se perder, nem para porteiro o partido o quer. A oposição interna insiste em listas separadas principalmente para não lhe deixar qualquer desculpa. Ele que decida, ele que mande e, a seguir, ele que pague. O “grande ganhador” está enfim obrigado a ganhar numa situação em que não lhe vale a pose, a fama e o espectáculo. Impressiona ainda meia dúzia de jornalistas crédulos, mas não impressiona mais ninguém. Sem um governo que se mostre e com um PSD desiludido, reservado e até hostil não irá longe. O desespero, pelo contrário, anda perto; e as listas conjuntas, prematuramente enterradas, continuam vivas. Para Santana são a última esperança. E para Portas também.»

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