sexta-feira, dezembro 17

 

O demagogo e o referendo


Vasco Pulido Valente no Público de hoje:

«Depois de hesitar, recuar, avançar, Santana acabou finalmente por escolher listas conjuntas. O bom senso prevaleceu sobre a vaidade tarde de mais. Portas recusou. Convinha, evidentemente, a Santana esconder a sua pessoa atrás de uma aliança e de um “projecto” político qualquer. A ilegitimidade e o fracasso do Governo provinham dele. Por cauda dele se tinham afastado apoios tradicionais do PSD e da direita. Era ele a causa da dissolução. Aparecer sem um disfarce, um guarda-vento, uma folha de parra, por ténues que fossem, só o prejudicava. Até ao último momento não percebeu esta evidência. Portas percebeu. Nenhum dos vários pretextos que invocou para o divórcio final obscureceu a sua verdadeira razão: não queria fazer uma campanha inevitavelmente destinada a levar segunda vez Santana a primeiro-ministro. A gente conservadora, séria, “respeitável”, que em tudo manda, e de que ele depende, nunca lhe perdoaria.

Em 20 de Fevereiro não vai haver uma eleição “normal”. Por voltas que se dê, vai haver na essência um referendo sobre Santana Lopes. Para lá de Sócrates, de Portas, de Louçã, dos partidos, das fidelidades, dos programas, mesmo para lá da ideologia, está uma pergunta: “Deve o país correr o risco de Santana Lopes voltar ao poder? Sim ou não?” E essa pergunta, que interessa à esquerda, interessa também e talvez principalmente ao PSD e ao PP. Para a esquerda, a resposta põe um problema simples: votar “útil” no PS (à custa do Bloco e do PC), ou votar livremente por “convicção”? Para o PSD, as coisas não são tão claras, porque se trata de saber (e decidir) se existe um futuro com Santana ou se uma arrasadora derrota vale bem a definitiva remoção do homem. Quanto a Portas, já se viu que espera aproveitar, tomando um “ar de Estado”, as desventuras do parceiro: é a sua única salvação. De qualquer maneira, daqui em diante não se falará de nada senão de Santana e do melodrama que ele nos prepara – o que não surpreende. Levada ao extremo, a demagogia reduz fatalmente o mundo à pessoa do demagogo, do chefe ou do caudilho, como o dr. Sarmento prefere. Resta verificar se Portugal o suporta ou não. O resto, agora, não conta.»

Comments:
É lamentável que toda a política de um governo desapareça assim em proveito de um referendo a um só homem. Santana sim ou Santana não? É evidente que a imensa maioria da população responderá "Santana não" mas o facto é que as políticas de Santana não merecem ser todas deitadas ao caixote do lixo só por causa de o homem ser tão horroroso. O facto é que Santana avançou ou ia avançar com uma reforma da lei das rendas que é imprescindível, com o pagamento de portagens nas SCUTs que é inadiável, e com a proibição de fumar nos locais de trabalho que já vem muito atrasada. E o facto é que, sem Santana, todas essas três mudanças essenciais irão irremediavelmente para o caixote do lixo, nos anos mais próximos.

É lamentável.
 
O PSD precisa de se livrar do homem. Só uma estrondosa derrota lhe será útil, a prazo. Duvido é que sejam muitos os militantes que conseguem ver isto por entre o trem de cozinha que os momentos eleitorais trazem para a mesa da baixa política.
E há que perceber que Sócrates não aguentará uma legislatura.
 
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