quarta-feira, dezembro 29

 

Acontecimento internacional do ano



Felix Gonzalez-Torres, Sem Título (EUA Hoje), 1990*

O acontecimento internacional do ano é a democratização do Iraque (a escassos dias das eleições gerais). A propósito: os EUA já perderam a guerra, não perderam?

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* Rebuçados embrulhados em papel azul, prateado e vermelho, de dimensões variáveis. Os visitantes da exposição eram convidados a tirar um rebuçado («acto de comunhão social»). O monte de rebuçados que se vê na foto é diariamente reabastecido. Assim, «o acto de oferta [é] ilimitado e infinito».

Comments:
Em época de nomeações, é conveniente recordar também que uma das partes mais obscuras da ditadura de Saddam Hussein no Iraque é, sem dúvida, a forma como ele e seus seguidores mais fiéis geriram os recursos do país. A opulência de seus palácios e a ostentação de sua família mostram que os membros do agora extinto regime não tinham quaisquer problemas financeiros ou mesmo medo de ofender os empobrecidos iraquianos com seus gastos exorbitantes. Como é comum na história das didaturas absolutistas, Saddam sempre usou o dinheiro iraquiano como se fosse seu, mas ninguém sabe ainda onde está o dinheiro desviado por ele ou como recuperá-lo e devolvê-lo ao país.
A empresa de pesquisa norte-americana Kroll Associates calcula que, desde 1981, o ditador e seus aliados podem ter desviado a astronómica quantia de US$ 200 bilhões, ao passo que a fortuna do ditador é avaliada em US$ 2 bilhões, segundo a revista Forbes, e em US$ 7 bilhões, segundo o Departamento de Estado dos EUA. As somas astronómicas são explicadas pela riqueza do Iraque, que detém a segunda reserva mundial de petróleo.
De acordo com um estudo realizado pelas pesquisadoras espanholas Carlota García Encina e Alicia Sorroza Blanco, a principio o "ouro negro" sustentava o regime legalmente, mas o país foi empobrecendo aos poucos, graças a uma ditadura que primeiro o submeteu a uma guerra com o Irã, depois a uma invasão ao Kuwait e, posteriormente, a um embargo das Nações Unidas. Assim começou um ciclo muito favorável a Saddam Hussein: o contrabando de petróleo, que permitiu ao ditador embolsar quantias que jamais poderão ser contabilizadas.

Juntamente com os rebuçados, podemos ainda tentar engolir que em março de 1988 as tropas iraquianas bombardearam com armas químicas a cidade curda de Halabja deixando 5 mil mortos e que em 2 de agosto de 1990 o Iraque invadiu o Kuwait, sob ordens de Saddam Hussein, incapaz de devolver o dinheiro que devia às monarquias do Golfo que o apoiaram durante a guerra contra o Irão.
 
As opiniões podem divergir: maremoto asiático é (infelizmente) o acontecimento internacional do ano. Pelas vidas que se perderam, pela destruição. Que o possa ser também pela reacção mundial à catástrofe.
A propósito, abusa-se deste espaço e transcreve-se um artigo do Le Monde:

Alors que le bilan du raz de marée subi par plusieurs pays d'Asie, le 26 décembre, ne cesse de s'alourdir, les images de la catastrophe suscitent un élan de solidarité impressionnant. Le mécanisme vertueux de l'émotion publique, des initiatives humanitaires et de la pression sur les gouvernements et les institutions internationales s'est, de nouveau, déclenché. Le resserrement du monde, provoqué par la multiplication des échanges de toute sorte et par la rapidité de l'information, donne une dimension nouvelle à la solidarité. C'est aussi cela, la mondialisation.

Le fait que certaines des régions touchées sont des destinations touristiques pour les vacanciers aisés du Nord a renforcé l'attention inhabituelle accordée à une tragédie qui a frappé dans le Sud. L'égoïsme a sa part dans l'importance que les médias ont donnée à l'événement. Sans les centaines de voyageurs suédois, britanniques, allemands et français qui en ont été victimes ou qui en ont subi les conséquences, la "couverture" des médias occidentaux aurait-elle été aussi étendue ? Mais, après tout, si le tourisme, à côté de ses aspects destructeurs, a aussi la vertu de rapprocher les hommes, qui s'en plaindra ?

L'Union européenne, les Etats-Unis, l'Australie, le Japon, plusieurs pays du Golfe, dont l'Arabie saoudite, ont affirmé leur intention de consacrer des dizaines de millions de dollars à l'aide aux régions sinistrées. L'effort de l'ONU pourrait dépasser le milliard d'euros. De tous côtés, des organisations humanitaires se mobilisent pour apporter des secours techniques ou des ressources matérielles aux populations frappées, dans les pays les plus pauvres. Cette mobilisation, réconfortante, pose deux problèmes.

Le premier est celui du lien entre les promesses et les actes. Il ne fait guère de doute que les groupes associatifs ou caritatifs tiendront leurs engagements. L'expérience prouve qu'il en va autrement des gouvernements et des organisations internationales. Sur le milliard de dollars (730 millions d'euros) promis à l'Iran pour reconstruire la ville de Bam, après le tremblement de terre de décembre 2003, 17 millions de dollars, seulement, ont été fournis, un an après. Il faut se méfier des effets d'annonce, recherchés ou imposés, sous le choc de l'événement, et qui restent sans suite.

Le second problème est celui de l'efficacité des aides. Devant l'ampleur de la catastrophe et la multiplicité des situations de détresse, toutes les initiatives sont bienvenues. Plus nombreux seront les dons, plus diverses seront les actions engagées, mieux ce sera. Les organisations non gouvernementales, qui revendiquent le droit de faire leurs propres évaluations et d'agir en conséquence, ont raison.

Néanmoins, un certain degré de coordination est indispensable pour assurer que les ressources soient bien utilisées et que les aides parviennent à ceux qui en ont besoin. Les efforts de coopération entre gouvernements sont louables, mais, au total, seule l'ONU est capable de mettre en œuvre une planification qui soit à la hauteur des besoins.

• ARTICLE PARU DANS L'EDITION DU 30.12.04
 
Quando escolhi este «acontecimento internacional» não me esqueci da tragédia do maremoto. Não tive no entanto coragem para a incluir num post leve como este. Foi só isso que aconteceu.
 
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