segunda-feira, dezembro 6

 

Acerca dos lobbies



Jack Lemmon em Como ganhar um milhão, de Billy Wilder

«Aquilo que, de 1985 para cá, mudou foi o modelo de relacionamento entre o poder político e o poder económico – que passou do piropo avulso e do apalpão furtivo a algo de qualitativamente diverso que nos ameaça com a mancebia incestuosa. Que o poder económico seja tendencialmente um suporte da direita política, é o corrente em qualquer democracia europeia; mas que o poder económico seja tendencialmente o dono do poder político – pior: que alguns interesses económicos se possam vir a servir do poder político para esmagar outros interesses concorrentes – isso já poria inesperados Haitis no que era o simpático horizonte português.

Não foi a corrupção que nasceu: já havia. Não foi o compadrio incidental deste alto funcionário ou daquele político: já havia também. Foi a descoberta, por alguns dos grupos económicos que ganharam entretanto peso e dimensão, da lógica e da valia instrumental dos lobbies: é possível antecipar, inflectir, protelar ou impedir as decisões políticas por forma a melhor corresponder aos nossos interesses. Mais vale uma boa cumplicidade política do que um bom investimento. O jogo é legislativo, administrativo, contabilístico – mas nunca económico, que é o de interesse geral. Por isso o lobby não é desenvolvimentista, mas apenas corruptor. Por isso o lobby não visa criar riqueza, mas apenas distribuir melhor em seu proveito aquela que já existe.

O lobby parasita o Estado e o património público, tal como o fazia o empresário afilhado da ditadura, aquele cujo desaparecimento eu celebrava há dois anos e meio.

O lobby, pelo seu poder de intervenção na esfera do político, cala e esmaga o verdadeiro empresário. O poder político, cercado, perde o contacto com este e julga o estado de espírito e as intenções de toda a classe empresarial através das pretensões conflituais daqueles poucos a que tem acesso directo. A política económica passa a ser muito mais a tentativa de gestão (tendenciosa ou isenta – para o caso tento faz) dos interesses dos lobbies em guerra do que a aposta política num qualquer modelo de desenvolvimento.

A guerra dos lobbies é total, porque eles só existem para se guerrearem. O bolo é escasso, mas chega se for todo meu. Aí vale tudo. A primeira diferença entre a guerra dos lobbies e a guerra dos gangs é uma questão de habilitações literárias: ao contrário de monsenhor Marcinkus, Alphonso Capone não tinha formação teológica (mas esperava comprar Deus na altura própria). A primeira semelhança entre a guerra dos lobbies e a guerra dos gangs é que o adversário comum é a opinião pública, pelo que as pressões se devem fazer na penumbra das secretarias e os tiros devem dar-se com silenciador, e sem testemunhas.

O futuro dirá qual a lógica que vai prevalecer; se, como eu esperava em 1985 e quero esperar ainda, a do empresário que quer partilhar da riqueza que se propõe ajudar a criar, se a dos lobbies que pretendem apenas ganhar na disputa do pouco que temos.»


[Extracto de artigo de Nuno Brederode Santos, publicado na edição do Expresso de 31 de Dezembro de 1987, com o título «Rififi em Lisboa».]

Comments:
O adversário do poder político (e não apenas dos lobbies)
é sempre a opinião pública. Sobretudo numa democracia, toda a boa política tem que ser feita como os tiros: com silenciador. Numa ditadura, o Estado oprime a população com mão de ferro; numa democracia não o pode fazer, portanto engana-a.
 
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