quarta-feira, novembro 10

 

Viver debaixo da ponte



Um casal amigo vive numa casa com história: construída há 150 anos, é a casa de família em Lisboa; Raul Lino fez o projecto de ampliação, acrescentando-lhe um mirante, hoje classificado como património municipal, que cai sobre o rio; Carlos Ramos, mais tarde, concebeu a pormenorização do interior. O que resta dos magníficos jardins que a envolvem faz-nos ainda acreditar que, apesar de tudo, a casa se situa fora do bulício da cidade.

Acontece que a ponte sobre o Tejo é o drama daquela casa com história. Primeiro, os alicerces, em rigor, destruíram os jardins – e sufocaram a casa. Depois, concluída a obra, os mais improváveis objectos chovem dos céus – há dezenas de anos que assim é. Um desafio constante à imaginação. Sucessivos raids aéreos mantiveram em permanente desassossego as gerações que viveram na casa. Tanto pode ser-se surpreendido por uma escada de metal que chega do espaço como ser-se apanhado por um voo de um desgovernado colchão (para cama de casal). O logradouro é um depósito de objectos não identificados (estes os verdadeiros OVNI). É até provável que a própria expressão «it rains cats and dogs» tenha ocorrido a algum inglês que fosse a passar em Alcântara no início do Verão, quando os donos decidem, ao cruzar o rio, desembaraçar-se dos animais domésticos que atrapalham as ansiadas férias. A ponte serve aos fins mais inesperados.

A guerra nos céus de Alcântara acontece perante a indiferença dos responsáveis da Lusoponte (e a a passividade do Estado para com a concessionária das travessias sobre o rio). A ponte não tem protecção – antes uma espécie de decoração para a embelezar. E só um país que se esgota a regulamentar coisas inúteis é que permite que a guarda da ponte seja constituída por travessas horizontais, autênticas escadas para o abismo. Na noite de sexta para sábado, um rapaz galgou o gradeamento e lançou-se da ponte, estatelando-se a escassos metros da casa, no pátio interior. A família recolhera-se momentos antes.

Viver debaixo da ponte é o drama desta família. Que agora levou para casa a tragédia que se abateu sobre uma outra família.

Comments:
E eu achava que apenas do meu lado do Atlântico houvesse gente sem educação alguma. Infelizmente, parece que este mal assola a humanidade.

Pela sua descrição, a casa parece estar situada num local muito bonito. Há como postar fotos dela aqui?
 
Essa família só pode estar a ser "favorecida" com os tais objectos voadores identificados por um especial favor dos deuses, porque a ponte 25 de Abril "cobre" uma significativa parte da zona ribeirinha de Alcântara e as ruas não estão pejadas de colchões, nem há memória de os transeuntes serem atacados por OVNI's caídos do espaço. Talvez o fascínio da casa seja irresistível...
 
Excelente post que retrata a realidade dos descuidos públicos das entidades públicas que deveriam protteger os direitos públicos na nossa república.
Quanto a chover "cats and dogs" não esquecer a nossa expressão, se calhar ainda mais adequada. Chover canivetes!
 
devastador. e, tal como nunca, que nojentos comentários
 
As pessoas deste país têm andado, quase todas, muito distraídas! Não foi uma nem duas vezes que quer na tv, quer nos jornais, esta questáo foi apresentada. A vida dos que moram nas proximidades da ponte é um inferno. E outra coisa não seria de esperar conhecendo, como se conhece, os excelentes hábitos do 'portuga'.
Como sempre, um excelente post.
 
Quem trabalha nas instalações da Carris pode confirmar o que consta deste post.
 
lisboa no seu melhor... ou a crónica incúria da nação!
 
A lusoponte anda entretida a ganhar dinheiro com as portagens. Quer lá saber dos alfacinhas. Se calhar essa família nem usa a ponte para pagar a portagem da ordem !!!!
 
Bom post
 
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