terça-feira, novembro 30

 

Populismo e Tecnocracia [II]


"O populismo é uma ideologia moralista de ataque e de mobilização de massas – uma pedagogia da arruaça «justiceira». A tecnocracia é uma ideologia pragmática de defesa da casta detentora de um alegado sabor oculto – uma pedagogia da catalepsia cívica. Aquele é tão sanguíneo e agressivo quanto esta é fleumática e sobranceira.

O populismo pressupõe a escassez: e o lumpen vem para a rua gritar a sua indignação e fazer justiça por suas mãos. A tecnocracia pretende saber criar «cientificamente» a abundância, pelo que o problema da distribuição será resolvido se os ordeiros e pacatos cidadãos se esgotarem entre a casa e o trabalho e se deixarem de veleidades participativas.

O descamisado revanchista, que é a matéria-prima do populismo, identifica mecanicamente a riqueza com a corrupção. O quadro altamente remunerado (quando protagonista da ilusão tecnocrática) sabe ou sente que é um guarda pretoriano do poder económico e tende a ver na miséria do outro a subversão iminente.

Detestam-se culturalmente. E quando se descobrem na mesma trincheira e louvando um chefe comum, concluem que estiveram a atirar sobre moinhos de vento e que o adversário está ali ao lado. A partir daí, a sua coexistência só pode ser transitória e frágil – porque feita na incomodidade de um armistício imposto de fora a dois beligerantes que não querem a paz.

Cavaco tem o instinto tribal do populismo e algum conhecimento vivido da tecnocracia. Por isso, concebeu esta alquimia complexa, mais por sua natureza do que para conhecer tentativas prévias europeias (e, por isso mesmo, muito mais pudicas).

E levou a sua obra ao rubro no 19 de Julho. Rodeou-se de gente recrutada fora dos círculos políticos (onde hoje já estão, como é óbvio) e, por isso, não evocativa do passado que o seu discurso eleitoral esconjurava. Fez passar o embuste de que o seu PSD era a oposição, e não o mesmo que há nove anos consecutivos integra todos os governos. Engravatou-os a preceito e deu-lhes a aura tecnicista. Depois distribuiu papéis: ele foi o populismo e eles a indispensável caução para a classe média. Enquanto o chefe carismático excitava a multidão, um grupo de andróides, em atavio tranquilizadoramente burguês, executava números de circo com calculadoras de bolso. Resultou.

Daí para a frente, a receita é teoricamente simples: basta que, no doseamento necessário entre populismo e tecnocracia, aquele prevaleça nas questões cruciais do ponto de vista eleitoral e esta comande a vida política em cruzeiro. Mas isto é teórico e tremendamente difícil de aplicar sem erros graves.

E foi pelo lado da tecnocracia que a combinação milagrosa começou a abrir rombos. O que se compreende: a imagem tecnocrática é exigente, porque a tecnocracia é uma impostura com sangue azul.

Se reduzirmos a tecnocracia à ideia essencial de que há uma «ciência» da governação, da qual é depositária uma casta de iniciados – pelo que eles e só eles estão preparados para governar no «interesse geral» -, então podemos descobrir-lhe antecedentes da melhor estirpe. Porque foram muitos os grandes espíritos que tiveram (ou julgaram ter) razões para estarem zangados com a democracia. Platão, por exemplo, criticou tenazmente os modelos electivos (em que o povo inculto escolhe os governantes) e teorizou a bondade do governo dos sábios na Cidade. Tão lisonjeiro «pedigree» surpreenderá Cavaco Silva, mas não é caso para arraial: fazendo a devida justiça aos dois, nem Platão previu Cavaco, nem Cavaco leu Platão.

Esta genealogia «aristocrática» ajuda-nos a entender que a imagem tecnocrática é exigente e não comporta falhas graves de exactidão e rigor (ainda que meramente numéricas: em regra, o número é o fetiche e o brasão do tecnocrata, do mesmo modo que a palavra é o seu fantasma e o seu caruncho)."

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