terça-feira, novembro 30

 

Populismo e Tecnocracia [I]


[Parte de um artigo de Nuno Brederode Santos, publicado no Expresso (15 de Outubro de 1988)]

«De populismo e de tecnocracia se fez a imagem de Cavaco Silva, o seu élan eleitoral e o timbre dos seus governos – uma alquimia que, não sendo nova, é sempre delicada, até porque incongruente.

Não falo aqui de populismo e tecnocracia em estado puro, que são formas divergentes de negação da democracia representativa. O chefe providencial que cavalga uma multidão de descamisados latino-americanos propõe-se «salvar a Pátria» por mera e miraculosa acção do seu carisma. É um cenário pouco compatível com o dos regimes «iluminados» que irrompem pelo terceiro mundo, cujo mito-motor é o progresso e cuja credibilidade assenta, muito mais do que na relação pessoal com o chefe, na crença de estar ele rodeado pela verdadeira e única aristocracia conhecedora da «ciência e técnica» da governação. Porque qualquer dos sistemas não tem, hoje por hoje, qualquer oportunidade histórica na Europa Ocidental (mesmo uma nossa Europa em tirocínio para mera cauda da outra).

Falo, portanto, não de negações do sistema democrático, mas de meros desvios à lógica do regime. Podem, como em estado puro, atear paixões e agudizar ressentimentos; podem jogar com o ilusionismo dos números para irracionalizar a motivação eleitoral – mas o que querem, afinal, é ganhar votos e não acabar com eles.

É precisamente este objectivo «limitado» que pode permitir compatibilizá-las, ainda que fugazmente. Apostando habilmente no que elas possam ter em comum e evitando cautelosamente as suas inevitáveis fronteiras conflituais. Tentarei sintetizar o que vai no adro das suas convergências e depois no campo aberto das suas divergências.

Populismo e tecnocracia convergem em que ambos são ideologias que recusam assumir-se como tal e que denunciam todas as outras ideologias como inimigas de um seu valor comum, absoluto e algo incorpóreo, chamado «interesse nacional» (que, no populismo, é sempre algo de mais anímico, moralista e patrioteiro e, na tecnocracia, insinua em cifrões o progresso material generalizado).

Recusando-se como ideologias, nenhum se sente à vontade nas classificações convencionais de «esquerda» e «direita».

Ambos estão no sistema, mas falam de fora dele – e, de quando em vez, subtilmente contra ele. Fazem política com o discurso da «porca da política». O populismo ataca «os políticos», identificando-os com a corrupção ou, mais ousadamente, com a inutilidade; a tecnocracia acusa-os de incompetência.

Ambos recorrem à demagogia: mas a do populista é a de um demiurgo e a do tecnocrata é a de um ilusionista.

Ambos aceitam mal o condicionamento democrático do seu poder por outros órgãos. O populismo, porque não vê outra legitimidade senão a vontade de um chefe permanente plebiscitado pela multidão. A tecnocracia, porque entende que só a aristocracia do poder é detentora do saber necessário a uma decisão acertada.

Ambos, enfim, suportam mal o debate de ideias, porque ele implica a noção de que há outras legitimidades – e até a de que o caminho da verdade pode passar por opiniões diversas e complementares e ser percorrido por aproximações colectivas. A relutância ao diálogo, quer do populismo, quer da tecnocracia, não é assim um capricho humoral, mas a espontânea defesa dos seus respectivos pressupostos ideológicos.

Eis o terreno comum onde populismo e tecnocracia – enquanto meros desvios de «estilo» à lógica democrática – podem ser artificialmente conciliados. E podem-no durante tanto tempo quanto aquele que qualquer deles ignorar a coexistência com o outro.

Não costuma levar muito tempo para que tão delicado equilíbrio se rompa. E aqui passo à síntese do que fundamentalmente os separa.»

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