sexta-feira, novembro 19

 

O fim da aventura


Vasco Pulido Valente no
Público de hoje (link não disponível):

«Apesar da fuga de Guterres, da desordem do PS, da escolha improvisada de Ferro e, sobretudo, da hostilidade geral aos socialistas, Barroso não conseguiu a maioria absoluta. Santana, depois de um governo impopular e fraco, não chegará, excepto por milagre, à sombra do que foram os votos de Barroso. Em intervalos de lucidez, por raros que sejam, ele deve com certeza perceber isto e procurar uma saída, que não o remova para sempre de cena. Mas não há saída. Se o PSD apresentar listas próprias em 2006, já não vai a tempo de recuperar a sua velha identidade histórica, reformista e moderada, que Santana se aplicou a liquidar e manifestamente não representa. Se o PSD escolher listas conjuntas, contra a vontade de uma parte apreciável do seu eleitorado e dos seus militantes, nada o distinguirá da direita de Portas, que os portugueses parecem não estimar.

Em Barcelos, Santana insistiu muito na ideia de “combate” e de “combatentes”. Provavelmente imagina a sua “vanguarda” esmagando um diabólico inimigo. Fora a desagradável origem desta fantasia (o nazismo, para falar francamente), existe ainda um pequeno pormenor: quem é esse inimigo que Santana se propõe tão ardorosamente bater. Um PS pacato e “guterrista”? O minúsculo BE? Um PC defunto? Ou o Estado providência e as leis laborais? Ninguém sabe. Suspeito que nem ele. A direita de Santana e Portas precisa de uma certa histeria para ganhar e crescer. Ora Portugal não está dividido ou radicalizado. Espera pacatamente o dia de correr com a coligação. Uma grande campanha contra a esquerda ou qualquer outro bode expiatório, conduzida por dois demagogos sem crédito ou cabeça, não irá longe. Portugal não é a Inglaterra de Thatcher ou a América de Reagan e de Bush; e esta direita, que chegou ao poder por uma série de acidentes, não assenta numa doutrina, numa cultura, num programa, num descontentamento. Vive no ar. A querela das listas mostra bem que já só se trata de salvar alguma coisa do desastre. O PSD quer salvar uma hipótese de futuro para além de Santana e o PP quer simplesmente salvar a vida. De qualquer maneira, a aventura acabou. Falta a fase do “bunker”: uns meses de governo impotente e cercado, de retórica e delírio.»

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