sexta-feira, novembro 26

 

O caso das três perguntas


Vasco Pulido Valente no Público de hoje (link não disponível):

«As três perguntas numa só para o referendo sobre a “Constituição europeia” provocaram um grande burburinho entre os curiosos que se interessam por esse assunto arcano. Já lhe chamaram tudo: um insulto, um abuso, uma aldrabice. Já disseram que ela (a pergunta) não se percebia, que era pura chantagem, que deliberadamente se destinava a provocar abstenção, que ofendia a alta inteligência do indígena. E já se pediu um “movimento”, “mil movimentos”, pelo “não”. Há aqui com certeza um equívoco.

O país sempre teve pela “Europa” um vertiginoso desprezo e não parece que se vá excitar agora. Ao princípio, em ‘87 e ’88 ainda apareceu uma onda (pequenina) de fervor patriótico pelo “jaquinzinho” e a maçã reineta. Depois, Paulo Portas tentou usar os malefícios de Bruxelas para insuflar um nacionalismo qualquer, sem perceber que o nacionalismo português nunca passou de uma fachada frágil, inventada pelos merceeiros da República e explorada por Salazar. E, quando Paulo Portas desistiu, tirando o inevitável PCP ninguém mais tornou seriamente a pensar no assunto. Para o cidadão médio, a “Europa” foi desde a origem a PAC os “fundos”, dinheiro fácil, muita roubalheira e muita viajata. Como seria outra coisa? Bruxelas não pode agredir a nossa putativa soberania porque ela de facto não existe. O sistema político não nos merece sombra de respeito e nenhum limite que lhe imponham ou mudança que lhe façam é susceptível de nos comover. Dessa justiça que aí anda, que não defende nem os nossos direitos, nem as nossas liberdades, não vale a pena falar: quem por ela se daria ao excessivo trabalho de levantar um dedo?

Em resumo, onde está em Portugal a instituição venerável ou interesse inalienável que a “Europa” ameace? Que o “Tratado”, que a burocracia de Bruxelas fabricou, à sorrelfa dos 25 Estados da UE e do bom povo que neles mansamente rumina merece um rotundo “não” – sem dúvida que merece. Mas lá que isso afecte a vida dos portugueses – não afecta. O nosso “défice democrático” não começa na “Europa”, começa cá em casa. Como a nossa insignificância e a nossa pobreza. A polémica sobre a pergunta, ou as três perguntas, do referendo é neste momento uma frivolidade.»

Comments:
Muito obrigada pelo trabalho de copista! Por uma vez, gostaria de saber se subscreve a opinião de VPV. É que este é um daqueles exemplos claros de como é fácil criticar e difícil fazer.
 
Parabéns ao Pula Pula por nos dar a conhecer as crónicas de VPV. Como é óbvio poderemos, por vezes, estar em desacordo com VPV. É perfeitamente normal. Não será por isso que deixaremos de ler VPV. Parece-me no entanto que o autor do comentário anterior está desatento, ou então nem sempre lê os comentários deste blog. Já li no Pula Pula críticas a crónicas de VPV. Será que o autor do comentário não terá percebido, onde terminava a função de "copista" e começava a crítica à crónica?
 
A comunidade portuguesa que está no estrangeiro agradece ao Pula Pula Pulga. No actual contexto nacional, as crónicas de VPV são cada vez mais imprescindíveis e estimulantes. Demonstram uma inteligência e uma acutilância ímpares. Podemos nem sempre estar de acordo com o seu teor. Isso pouco importa. Obrigado uma vez mais.
 
Com este governo realmente é fácil criticar (matéria não falta). Mas não era preciso muito para fazer um pouco melhor.
 
Este serviço que o Pulga nos presta com a publicitação destas crónicas do Pulido Valente merece nota 20. Agradece-se.
Que o Pulga começa a ser um blogue indispensável, reconhece-se (ainda que a contragosto)!
A seguir, com atenção, a 'carreira' deste bloguista, que, no entanto, terá de se expor um pouco mais se está interessado em tornar-se uma referência neste meio. E se creio que está, tenho a certeza que tem tudo o necessário para poder concretizar essa pretensão.
Também me parece que pode, e deve, tomar posição de uma forma mais consistente e arrojada.E abrir lugar à controvérsia e à polémica.
Incomode, 'pique', como a pulga tão bem o sabe fazer. Não fique apenas pelo saltitar, pulga, que isso é mais para a bela borboleta, a que admiramos a beleza, mas que raramente nos faz saltar de raiva, arrebatamento e paixão, sentimentos bem mais mobilizadores e, também, bem mais adequados ao nosso presente.
Os indefectíveis agradecem.
 
Uma das vantagens deste blogue é precisamente o facto de ser "discreto". Nós lemos este blogue pelo que intrinsecamente ele vale. Não lemos os seus comentários com uma ideia preconcebida sobre o seu autor. O anonimato ajuda essa discrição.
O mesmo não se passa com certos blogues de “figuras públicas”. Será que estes blogues teriam a projecção que têm se não tivessem a ancorá-los as tais “figuras públicas”? Fica sempre a dúvida se o destaque que têm se deve ao seu conteúdo ou ao facto de irem a reboque de alguém.
 
Pode-se incomodar, polemizar e “picar” de forma subtil e inteligente. Li no pula pula dos melhores textos da blogosfera (tal como no Blogo existo ou no Abrupto). Dou apenas dois exemplos: o texto de hoje, 29-11-2004, sobre Bagão Félix; o comentário sobre Eanes que foi publicado no pula pula em 2 de Outubro e que guardo religiosamente (juntamente com muitas das crónicas de VPV):

Reminiscências de 2 de Outubro

Hoje, há 19 anos, realizaram-se eleições gerais. Contados os boletins de voto, pode anunciar-se que o PSD foi o partido mais votado, com 30 por cento dos votos, seguindo-se o PS com 20.5, o PRD com 18, a APU com 15.5 e o CDS com 10.5.

Impulsionado por Eanes, presidente da República, nasce em 1985 o Partido Renovador Democrático (PRD), que se propõe «moralizar a vida política nacional». Aproveitando os efeitos da política de austeridade conduzida pelo governo PS-PSD (1983-1985), o PRD é o grande beneficiário da dissolução da Assembleia da República, decidida pelo próprio Eanes no termo do seu segundo mandato. Torna-se, assim, o terceiro maior partido (com 45 deputados) e uma força política de charneira, indispensável para a manutenção do primeiro governo de Cavaco Silva. Em 1987, ao fazer aprovar uma moção de censura, o PRD desfere o golpe mortal no governo minoritário do PSD, ao mesmo tempo que se suicida. Na sequência de novas eleições gerais, já sob a presidência de Eanes, consegue eleger apenas sete deputados. O PRD morreu de uma forma ainda pior do que nasceu: vende a designação e a sigla a uma organização nazi, que não alcançava as 5000 assinaturas necessárias para se legalizar como partido político.

Não fora a insignificância actual da personagem, valeria a pena analisar o percurso de Eanes: o vazio ideológico, a inconstância política, a entrega das Forças Armadas à direita radical (sob o pretexto do regresso dos militares aos quartéis), a manipulação de gente de bem (Zenha e Pintassilgo, por exemplo) – num trajecto errático para sobreviver, em que aparece agora na órbita do Opus Dei, que espera (e desespera), há longos anos, por um qualquer rascunho para lhe oferecer o doutoramento.

A esta distância, é assustador verificar como a condução do país pode ser confiada a gente sem qualquer qualificação que a recomende. Parece que a história se repete sempre - e, como disse o mouro, primeiro como tragédia, depois como comédia.
 
Não me parece que este blogue seja discreto (muito menos que o pretenda ser!), julgo apenas que tem uma linha "editorial" intencionalmente defensiva. Também não se trata de uma questão de anonimato, em oposição a blogues de figuras públicas. O fenómeno bloguista provou que os anónimos têm produzido blogues bem mais interessantes do que outros de profissionais da escrita e da política. É porque este blogue tem imensas potencialidades, que se lamenta não ser possível encontrar um pouco mais do seu autor nos vários posts. É como irmos visitar um amigo e não passarmos do átrio de entrada. Alguma inconsequência e muita pose poderiam ser as causas, escritos a várias mãos também, mas não me inclino para nenhuma destas possibilidades.
 
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