segunda-feira, novembro 29

 

Não é consolação


Vasco Pulido Valente no Público de Sábado, 27 de Novembro (link não disponível):

«Já se tinha lido nos livros, mas de repente a aparição de um magote em tumulto que insulta e ameaça um homem indefeso é o regresso a um passado abolido. Ou que, pelo menos, se imaginava abolido. O povo sempre gostou de execuções. Em toda a Europa, um enforcamento servia sempre de centro a uma festa. Os vizinhos prestimosamente alugavam janelas a quem queria observar a cena de perto. As famílias levavam as crianças. O povo ria, comia, bebia, dançava e apostava (na coragem do condenado ou no tempo que levava a morrer). Na revolução francesa, apareceu ao pé da guilhotina um público fixo de mulheres, que juntava o útil ao agradável, fazendo “tricot” durante as longas sessões de purificação da República. As “tricoteuses” ficaram na história. Mas, pouco a pouco, a sensibilidade “civilizada” começou a condenar estes divertimentos da “canalha”. Primeiro, em Inglaterra e, a seguir, em França a forca e a guilhotina passaram para a intimidade das prisões, privando o povo do seu espectáculo preferido.

A imprensa substituiu (e, na América, ainda substitui) a visão directa e o jornalismo que se dedicava ao género prosperou. Com limites, claro está. Mesmo hoje na América não é permitido filmar a execução propriamente dita e na Europa, embora contra a vontade do eleitorado (em Inglaterra, por exemplo), a pena de morte acabou. O que não acabou foi a ferocidade e alegria de assistir à destruição e sofrimento do nosso querido semelhante. Anteontem, centenas de pessoas acordaram de madrugada e ficaram o dia inteiro em pé e ao frio com o único propósito de injuriar Carlos Cruz, que pessoalmente não conhecem, e de lhe prometer que o matariam por suas próprias mãos. Como seria de esperar, as televisões deliraram. Os noticiários repetiram obsessivamente o episódio e, de novo, o país desapareceu por um buraco perante o “escândalo da pedofilia”. Se o passado ensina alguma coisa, vamos ter uns meses sem a mais vaga preocupação pertinente e séria, enquanto Portugal se espoja no seu primitivismo. Que nada disso, no fundo, contrarie a nossa natureza, ou sequer nos distinga da “Europa”, não é consolação.»

Comments: Enviar um comentário

<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?