terça-feira, novembro 2

 

Cantar no duche, a forma suprema de liberdade de expressão


Escrevi meia dúzia de linhas sobre o Contra a Corrente. Escolhi, ao acaso, uma manifestação de fé no conde de Anadia a propósito do «diferendo» com Marcelo. Após uma curta ausência da blogosfera, deparo com uma resposta longa. Eis a resposta à resposta (seguindo o esquema adoptado pelo MacGuffin), esperando que assim possa dar por concluída esta inesperada «polémica»:

PONTO PRÉVIO

O MacGuffin mostrou-se à blogosfera com um
manifesto redigido ao som de «Nénette et Boni», uma desinspirada banda sonora dos Tindersticks. Não fez a coisa por menos: entre as suas múltiplas e sentidas (p)referências, elencou Burke, Tocqueville, Oakeshott, Berlin, Hayek, Aron, Esteves Cardoso, Mónica, Barreto (autores de cabeceira), Vitti, Binoche, Hupert, Nastassja, Bacall e Kelly (por «razões estéticas»). E, claro, Nelson Rodrigues: «Se Nelson fosse vivo, estaria hoje aí, na frente de combate contra a «esquerdite» aguda e a «estalinização» sub-reptícia da sociedade. Contra a palavrosa e cega obsessão, que a esquerda teima em repetir ciclicamente, em torno das mesmas falsas aparências, dos mesmo dogmas, da mesma forma simplista e maniqueísta de olhar o mundo. Contra o seu moralismo de pacotilha e a arrogância de tentar empurrar, por decreto, os seus modelos e as suas certezas superiores, para cima de nós.» Estava, desde logo, esboçado o estilo do Contra a Corrente: «É um bocadinho desse espírito que pretendo trazer para aqui.»*

Tendo em conta esta recheada carteira de autores, é natural que se estranhe que a defesa de Paes do Amaral, conde de Anadia, se tivesse cingido a uma tão desqualificada argumentação. Parece aliás ser «um bocadinho desse espírito» que leva o MacGuffin a socorrer-se do verbo de um tal Pereira Coutinho para lastimar e reprovar o afastamento de Rocco Buttiglione.

SOBRE O POST DO MACGUFFIN

1. O encontro com Marcelo, pedido por Paes do Amaral com a máxima urgência, decorreu no «bar de um hotel». Só «os idiotas da objectividade», explica o MacGuffin, não alcançam que, numa «conversa de amigos», «a latitude do tom e o conteúdo não podem ser extrapolados gratuitamente para outro contexto.» Os elementos e as contradições que, entretanto, vieram a público, «retiradas desse contexto, torcidas e distorcidas aqui e acolá», não são sequer aceites para discussão. O cenário é tudo. E é suficiente para que o MacGuffin forme um juízo – definitivo, parece. Eis como se apazigua, em duas penadas, a consciência.

2. Arrumada a questão da demissão de Marcelo, já nada pode travar o tropel do MacGuffin: «Paes do Amaral tem, ou não tem, o direito de fazer aquele tipo de observações sobre os comentários de Marcelo? Será legítimo que o faça? É óbvio que sim. Para além de amigo, Paes do Amaral é o presidente de uma estação de televisão privada

O conde de Anadia gere uma concessão que está sujeita a determinadas regras? A lei impõe procedimentos inequívocos no relacionamento entre a direcção dos órgãos de comunicação e os que exercem funções no âmbito da Informação? Marcelo fez «comentário» político na TVI durante quase cinco anos e só agora Paes do Amaral se permitiu lembrar-se de o convidar a ser mais «moderado»? O Contra a Corrente não se perde com inúteis detalhes.

3. Chegados a este ponto, o MacGuffin deve ter suspeitado de que estava a fazer propaganda ao elixir da longa vida. Polvilha então o discurso com umas poeiras da realidade: há «muita publicidade do Estado e do para-Estado que tem o seu peso na estrutura de receitas de qualquer estação de televisão. São elementos importantes que podem explicar a conversa de Paes do Amaral com o seu amigo Marcelo Rebelo de Sousa. E são, certamente, elementos que não podem ser ignorados na apreciação que qualquer gestor/patrão faz do contexto onde a sua organização está inserida, bem como dos factores exógenos que condicionam a sua actividade

O MacGuffin é compreensivo para com as pressões do «Estado». Mas, como prefere a Spectator ao
Pula Pula, não sabe que tais pressões não se esgotam na atribuição caritativa da publicidade: a Media Capital tem dois canais da TV Cabo que aguardam homologação; a televisão digital terrestre pode ser o negócio do século (XXI); o conde de Anadia, para não perder a hegemonia na Media Capital, precisa que a CGD lhe ceda, a bom preço, a sua participação na empresa, após o grupo alemão Bertelsmann, que detém a RTL, ter adquirido (de uma forma hostil) 11, 55 por cento do capital; a PT equaciona a venda da Lusomundo, etc., etc..

4. Por fim, como mandam as regras, o MacGuffin sentencia: «Questão de fundo, e mais interessante, é a de se saber até que ponto, em Portugal, certas actividades privadas dependem, em excesso, do condicionamento (in)directo do Estado.» Tanto quanto se consegue entender deste enigmático período, o MacGuffin admite a intromissão do Estado, desde que não seja «em excesso». Mas sossega-nos de imediato: "Mesmo em sociedades caracterizadas aberta e indiscutivelmente pela liberdade de expressão (como é o caso da nossa), os «interesses» e as «estratégias de coabitação» com o «poder» fazem parte do jogo. Fizeram no passado e continuarão a fazer, no futuro. É assim em todo o lado. O que interessa assegurar está assegurado: os espaços de opinião não se esgotam na TVI. Nem na SIC. Nem na RTP. E por aí fora. Marcelo foi, é e continuará a ser livre de dizer o que bem entender." Nem que seja no duche, acrescenta a Pulga.

É este o discurso de um conservador – ou coisa assim. Perante um inaudito cerco do Governo à comunicação social – que, para além de tudo o que vem a público, passa por colocar na prateleira os recalcitrantes, «convidando-os» depois a aceitar a rescisão dos contratos, como está a acontecer na RTP, na Antena 1 e no mundo da Lusomundo –, o Contra a Corrente apresenta este discurso pobrete mas alegrete. O MacGuffin parece membro de uma daquelas seitas totalmente impermeáveis à realidade e à razão. Difundir esta fé, aceite sem exame como é da praxe em qualquer fé, é ir…
Contra a Corrente?

______________
* O Contra a Corrente, se lido ao fim da tarde para descomprimir, tem o seu quê de lúdico. Um só exemplo, para não massacrar o desprevenido leitor. Num post intitulado
O Tio Alberto, MacGuffin assegura que «a Madeira não é, de facto, uma aberração». E discorda dos que sugerem que «o Tio Alberto» seja um «exemplo da fragilidade da democracia.» Mais: «Não é, certamente, um sinal de moléstia ou enfermidade. Por definição, a democracia é frágil.» [O «mal» está na democracia, não no «tio» do MacGuffin?] E por que o MacGuffin não abomina o soba da Madeira? «Há qualquer coisa no seu olhar e no seu sorriso que me impedem (sic) de o abominar.» Mas... «Agora, prestem atenção: eu não estou a defender o modus operandi do tio Alberto.» Antes pelo contrário, como se vê.

Comments:
Tomara tu teres 1/2 do nível intelectual e político do MacGuffin. Nem mereces a publicidade que ele te faz ao linkar para aqui. Que deserto de ideias... (suspiro)
 
«Há qualquer coisa no seu olhar e no seu sorriso que me impedem (sic) de o abominar.»

não fales do que não sabes, pulga. Não fales do que não sabes nem ponhas em causa a verdade destes pequenos nadas do macguffinho...
 
As duas faces da mesma moeda?
 
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