terça-feira, novembro 9

 

A barca dos loucos


Vasco Pulido Valente mudou-se para o Público. As crónicas de sexta e sábado estão disponíveis na net. A de domingo, não. Por isso se reproduz no Pula Pula «A barca dos loucos», publicada no dia 7:

«O Governo publicou um folheto para anunciar à Pátria estupefacta a “intensa actividade” dos seus primeiros cem dias. Curiosamente, não fala no “saneamento” de Marcelo, nem da sua bela obra na PT. Em compensação, parece que adquiriu um atlas, que fechou o túnel do Rossio (grande gesto, esse) e que o sr. Santana, além de tirar um belo retrato oficial, recebeu o sr. Barroso da “Europa”. Estamos, manifestamente, em boas mãos. Houve algumas dificuldades, claro. Ao princípio, houve mesmo “ruído”, porque a “elite portuguesa”, como muito bem observou o sr. Relvas, “não estava preparada para um primeiro-ministro deste tempo”, ou seja, para “um primeiro-ministro que dialoga directamente com as pessoas” com quem “dialoga” e que a elite ignara acusa de “populista por ser popular”. O sr. Relvas tem razão: ninguém em Portugal, e não só a elite, estava preparado para a extraordinária originalidade de Santana e não é natural que tão cedo venha a estar. Não o merecemos. De qualquer maneira, na próxima semana, o PPD/PSD tenciona mostrar o triunfo da fé sobre o cinismo, aclamando em congresso o seu chefe adorado. A ausência de certas criaturas que não pertencem a “este tempo” com certeza que não diminuirá o fervor dos festejos, nem a fecundidade dos trabalhos. Santana sabe perfeitamente o que quer. Quer “modernização”, quer “independentes”, quer uma “plataforma” e quer e não quer uma aliança com PP. A única dúvida que paira sobre o congresso é sobre o futuro do sr. Menezes (o de Gaia). Irá ou não irá ele para a comissão nacional? O sr. Rio do Porto não ficaria se ele fosse e Gaia sofreria se ele não fosse. O Norte, coitado, anda nervoso. Mas Santana reconciliará o Norte. Rio e Menezes já se viram de longe e o Marco António, o procônsul do sítio, já prometeu “jogar ao ataque”. Entretanto, o ministro Sarmento – que se acha simultaneamente da “elite” e “deste tempo” – aspira à posição exaltada de “número dois” do partido e o partido oscila entre a devoção e a desconfiança. Uma coisa é certa: Santana subirá aos céus para confusão do “cavaquismo”. Do “barrosismo”, do “marcelismo” e do PS. A barca dos loucos seguirá aos bordos com imenso alarido e sem destino certo.»

Comments:
Para quem não teve a oportunidade de ler o Vasco, esta reprodução soube a pouco e está de parabéns pela oportunidade e utilidade deste post.
O Vasco é um mestre nestas suas cáusticas leituras da nossa confrangedora actualidade e, felizmente, ainda não lhe conseguiram domar a pena, mas,por culpa desta opereta cómica em que se tornou a nossa cena "política", arrisca-se a ser conhecido pelas gerações futuras como o melhor autor de textos humorísticos deste período.
 
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