segunda-feira, novembro 29

 

Bagão, a rábula de Sampaio


1. Recordam-se daquela rábula de Sampaio de que só aceitaria que Santana formasse governo se este lhe aparecesse em Belém com um nome de peso para a pasta das Finanças? Pois bem, esse nome de peso foi, como estão lembrados, um tal Bagão Félix, que, antes de se alçar ao Governo de Barroso, estava na prateleira do BCP, para onde havia sido empurrado precisamente por Paulo Macedo, hoje director-geral dos Impostos.

2. O tal nome de peso é desautorizado todos dias por Santana Lopes. Não será exagero afirmar que, entre a proposta de OE-2005 e o orçamento aprovado, as diferenças são muito significativas. O último episódio que descaracterizou o OE-2005 (e levou o ministro Bagão a perder de novo a face) aconteceu na segunda-feira passada. Depois de ter anunciado que a tributação da banca iria ser agravada (designadamente revendo os mecanismos de acesso à zona franca do Funchal), depois de se ter recusado a receber os banqueiros e a Associação Portuguesa de Bancos, Bagão foi forçado a assistir a um encontro entre Santana e os banqueiros (com excepção do presidente da CGD, por falta de agenda deste…), em resultado do qual o off-shore da Madeira continuará a ser um maná para as instituições financeiras (tendo ainda outras medidas sido aceites de imediato por Santana). Os banqueiros são uns negociadores elegantes e não se expõem a fazer um pé-de-vento na praça pública. Bastou João Salgueiro, presidente da Associação Portuguesa de Bancos, ter dado duas ou três entrevistas (SIC Notícias, DN…), para que os assuntos fossem de imediato agendados e tratados com a devida elevação.

3. Tendo perdido em toda a linha no tabuleiro do OE-2005, Bagão veio para os jornais distrair as atenções. Uma campanha inédita estava em curso para fiscalizar cerca de 170 mil contribuintes que não haviam apresentado a declaração de rendimentos. Pois é, o resultado está à vista: as repartições de finanças estão repletas de velhinhos de bengala, convocados à má fila para justificar a falta de entrega da declaração de IRS. Acontece que, há cerca de dois anos, a lei foi alterada, passando a ser exigida a todos os contribuintes a apresentação anual da declaração de rendimentos. Os reformados, que não estavam habituados a fazê-lo, continuaram a não apresentar a declaração (muito embora, se o fizessem, até pudessem vir a usufruir de um reembolso). Agora, são convocados em massa, chegam à repartição de finanças e têm uma prenda de Natal à sua espera: o social-cristão Bagão aplica-lhes uma coima pela falta de entrega da declaração de IRS.

Está explicado onde Bagão se vai financiar para proceder ao aumento das reformas. É simples, é barato e dá milhões.

Comments:
O post trata do OE2005? Trata, mas tão levemente, que para os menos informados o que permanece é a desvalorização do ministro Bagão Félix, as suas derrotas dentro do governo e o seu pouco peso político.
Por pura ignorância, pergunto: quais são os maiores problemas deste OE2005? E as suas virtualidades, se tem algumas? O seu maior e mais grave "desvirtuamento" resulta do off-shore da Madeira? É pouco, parece, se pensarmos nos pequenos "nadas" que acabam por ter uma influência crucial quando pensamos na nossa incapacidade de gerar riqueza e promover crescimento económico.
Os velhinhos nas repartições de finanças é uma situação caricata que se denuncia, mas é ela a única das preocupações que devemos ter com este OE?
 
Dear Anonymous:

Em três ou quatro posts anteriores, embora não exaustivamente, o Pula Pula focou alguns aspectos relevantes do OE-2005.
 
Caríssimo Pulga
Mas que honra, uma resposta directa do autor deste blogue de referência!
Regista-se o facto, ao que parece não usual.
Sem presunção de ter conhecimento aprofundado de todo o seu interessante blogue, notei aí para trás umas referências ao OE, umas na linha deste post, isto é, à conta mais da referência à desastrada (para si) acção do ministro, umas "reproduções" de textos de outros autores, umas pequenas "mordidelas" em alguns lóbis da nossa praça. Tudo junto, talvez pelo estilo leve e solto , bem apropriado a um blogue de uma saltitante pulga:))), fica aqui este anónimo à espera do mais e melhor, que, não há dúvida, saberá a pulga fazer.
Mas talvez me tenham escapado os posts sobre as novas medidas fiscais, as dívidas às empresas, o controlo da despesa pública, a captação de investimento estrangeiro, e um extenso etc...
Da falta de atenção (ou, ainda pior, de percepção) penitencia-se este distraído anónimo, mas valeu a sua resposta. Os comentários podem ser poucos, mas ficou provado que lhe merecem a consideração de uma resposta.
:))
 
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