terça-feira, novembro 30

 

GOOOOOLO!


Conta-se que um dia, jogava nas Antas, o Futebol Clube do Porto (FCP) estava em apuros. Precisava de um golo. Os minutos passavam e lá veio a táctica para os momentos difíceis, quando se entra nos descontos: o lançar a bola pelo ar para a área adversária, o chuveirinho. José Maria Pedroto, o treinador que arquitectou o FCP moderno, bem gritava para que o defesa direito atirasse a bola pelo ar para a área: «Vai, vai, vai... Centra, centra, cabrão!». O tal defesa direito lá foi por ali fora, a bola saiu-lhe tão enrolada que entrou directamente na baliza adversária. Pedroto, voltando-se para o banco de suplentes, murmurou: «Também está bem...»

 

Populismo e Tecnocracia [II]


"O populismo é uma ideologia moralista de ataque e de mobilização de massas – uma pedagogia da arruaça «justiceira». A tecnocracia é uma ideologia pragmática de defesa da casta detentora de um alegado sabor oculto – uma pedagogia da catalepsia cívica. Aquele é tão sanguíneo e agressivo quanto esta é fleumática e sobranceira.

O populismo pressupõe a escassez: e o lumpen vem para a rua gritar a sua indignação e fazer justiça por suas mãos. A tecnocracia pretende saber criar «cientificamente» a abundância, pelo que o problema da distribuição será resolvido se os ordeiros e pacatos cidadãos se esgotarem entre a casa e o trabalho e se deixarem de veleidades participativas.

O descamisado revanchista, que é a matéria-prima do populismo, identifica mecanicamente a riqueza com a corrupção. O quadro altamente remunerado (quando protagonista da ilusão tecnocrática) sabe ou sente que é um guarda pretoriano do poder económico e tende a ver na miséria do outro a subversão iminente.

Detestam-se culturalmente. E quando se descobrem na mesma trincheira e louvando um chefe comum, concluem que estiveram a atirar sobre moinhos de vento e que o adversário está ali ao lado. A partir daí, a sua coexistência só pode ser transitória e frágil – porque feita na incomodidade de um armistício imposto de fora a dois beligerantes que não querem a paz.

Cavaco tem o instinto tribal do populismo e algum conhecimento vivido da tecnocracia. Por isso, concebeu esta alquimia complexa, mais por sua natureza do que para conhecer tentativas prévias europeias (e, por isso mesmo, muito mais pudicas).

E levou a sua obra ao rubro no 19 de Julho. Rodeou-se de gente recrutada fora dos círculos políticos (onde hoje já estão, como é óbvio) e, por isso, não evocativa do passado que o seu discurso eleitoral esconjurava. Fez passar o embuste de que o seu PSD era a oposição, e não o mesmo que há nove anos consecutivos integra todos os governos. Engravatou-os a preceito e deu-lhes a aura tecnicista. Depois distribuiu papéis: ele foi o populismo e eles a indispensável caução para a classe média. Enquanto o chefe carismático excitava a multidão, um grupo de andróides, em atavio tranquilizadoramente burguês, executava números de circo com calculadoras de bolso. Resultou.

Daí para a frente, a receita é teoricamente simples: basta que, no doseamento necessário entre populismo e tecnocracia, aquele prevaleça nas questões cruciais do ponto de vista eleitoral e esta comande a vida política em cruzeiro. Mas isto é teórico e tremendamente difícil de aplicar sem erros graves.

E foi pelo lado da tecnocracia que a combinação milagrosa começou a abrir rombos. O que se compreende: a imagem tecnocrática é exigente, porque a tecnocracia é uma impostura com sangue azul.

Se reduzirmos a tecnocracia à ideia essencial de que há uma «ciência» da governação, da qual é depositária uma casta de iniciados – pelo que eles e só eles estão preparados para governar no «interesse geral» -, então podemos descobrir-lhe antecedentes da melhor estirpe. Porque foram muitos os grandes espíritos que tiveram (ou julgaram ter) razões para estarem zangados com a democracia. Platão, por exemplo, criticou tenazmente os modelos electivos (em que o povo inculto escolhe os governantes) e teorizou a bondade do governo dos sábios na Cidade. Tão lisonjeiro «pedigree» surpreenderá Cavaco Silva, mas não é caso para arraial: fazendo a devida justiça aos dois, nem Platão previu Cavaco, nem Cavaco leu Platão.

Esta genealogia «aristocrática» ajuda-nos a entender que a imagem tecnocrática é exigente e não comporta falhas graves de exactidão e rigor (ainda que meramente numéricas: em regra, o número é o fetiche e o brasão do tecnocrata, do mesmo modo que a palavra é o seu fantasma e o seu caruncho)."

 

Populismo e Tecnocracia [I]


[Parte de um artigo de Nuno Brederode Santos, publicado no Expresso (15 de Outubro de 1988)]

«De populismo e de tecnocracia se fez a imagem de Cavaco Silva, o seu élan eleitoral e o timbre dos seus governos – uma alquimia que, não sendo nova, é sempre delicada, até porque incongruente.

Não falo aqui de populismo e tecnocracia em estado puro, que são formas divergentes de negação da democracia representativa. O chefe providencial que cavalga uma multidão de descamisados latino-americanos propõe-se «salvar a Pátria» por mera e miraculosa acção do seu carisma. É um cenário pouco compatível com o dos regimes «iluminados» que irrompem pelo terceiro mundo, cujo mito-motor é o progresso e cuja credibilidade assenta, muito mais do que na relação pessoal com o chefe, na crença de estar ele rodeado pela verdadeira e única aristocracia conhecedora da «ciência e técnica» da governação. Porque qualquer dos sistemas não tem, hoje por hoje, qualquer oportunidade histórica na Europa Ocidental (mesmo uma nossa Europa em tirocínio para mera cauda da outra).

Falo, portanto, não de negações do sistema democrático, mas de meros desvios à lógica do regime. Podem, como em estado puro, atear paixões e agudizar ressentimentos; podem jogar com o ilusionismo dos números para irracionalizar a motivação eleitoral – mas o que querem, afinal, é ganhar votos e não acabar com eles.

É precisamente este objectivo «limitado» que pode permitir compatibilizá-las, ainda que fugazmente. Apostando habilmente no que elas possam ter em comum e evitando cautelosamente as suas inevitáveis fronteiras conflituais. Tentarei sintetizar o que vai no adro das suas convergências e depois no campo aberto das suas divergências.

Populismo e tecnocracia convergem em que ambos são ideologias que recusam assumir-se como tal e que denunciam todas as outras ideologias como inimigas de um seu valor comum, absoluto e algo incorpóreo, chamado «interesse nacional» (que, no populismo, é sempre algo de mais anímico, moralista e patrioteiro e, na tecnocracia, insinua em cifrões o progresso material generalizado).

Recusando-se como ideologias, nenhum se sente à vontade nas classificações convencionais de «esquerda» e «direita».

Ambos estão no sistema, mas falam de fora dele – e, de quando em vez, subtilmente contra ele. Fazem política com o discurso da «porca da política». O populismo ataca «os políticos», identificando-os com a corrupção ou, mais ousadamente, com a inutilidade; a tecnocracia acusa-os de incompetência.

Ambos recorrem à demagogia: mas a do populista é a de um demiurgo e a do tecnocrata é a de um ilusionista.

Ambos aceitam mal o condicionamento democrático do seu poder por outros órgãos. O populismo, porque não vê outra legitimidade senão a vontade de um chefe permanente plebiscitado pela multidão. A tecnocracia, porque entende que só a aristocracia do poder é detentora do saber necessário a uma decisão acertada.

Ambos, enfim, suportam mal o debate de ideias, porque ele implica a noção de que há outras legitimidades – e até a de que o caminho da verdade pode passar por opiniões diversas e complementares e ser percorrido por aproximações colectivas. A relutância ao diálogo, quer do populismo, quer da tecnocracia, não é assim um capricho humoral, mas a espontânea defesa dos seus respectivos pressupostos ideológicos.

Eis o terreno comum onde populismo e tecnocracia – enquanto meros desvios de «estilo» à lógica democrática – podem ser artificialmente conciliados. E podem-no durante tanto tempo quanto aquele que qualquer deles ignorar a coexistência com o outro.

Não costuma levar muito tempo para que tão delicado equilíbrio se rompa. E aqui passo à síntese do que fundamentalmente os separa.»

 

Um milagre




O Diário Ateísta faz hoje um ano. É obra – e não é de deus, certamente. Parabéns.

segunda-feira, novembro 29

 

Novas fronteiras [2]


Há dias, o
João escreveu mais um excelente post sobre esta matéria. Independentemente de estar de acordo com as reformas que propõe no post (e em relação a algumas não estou de acordo e a outras tenho dúvidas), o João põe o dedo na(s) ferida(s):

«
Eu acho que o erro de muitas discussões políticas é que passam ao lado da política porque não discutem as questões do poder, as únicas que verdadeiramente interessam. Nós temos hoje em Portugal uma plutocracia, sendo o populismo a cortina de fumo que oculta a crua realidade do perpétuo negocismo conduzido à sombra do aparelho de Estado.

Ora a plutocracia, para quem não tem paciência para ir ver ao dicionário, é o governo do dinheiro, pelo dinheiro e para o dinheiro.

As pessoas bem intencionadas que discutem as reformas da economia e da administração pública não entendem que essas coisas não se fazem porque não interessam a quem detém o poder. Tampouco entendem que o que hoje determina a condução da vida pública é a corrupção e o tráfico de influências.

Estes problemas têm que ser atacados com a criação de mecanismos de controlo democrático a todos os níveis (os famosos checks and balances), ou seja, com reformas do sistema político


O parlamento norueguês encomendou um estudo, que demorou cinco anos a concluir (1998-2003), cujo sugestivo título é Estudo Norueguês sobre o Poder e a Democracia. O estudo deu origem a 50 livros, 77 relatórios e inúmeros artigos, e começa agora a ser conhecido fora de portas. Há uma síntese em
inglês. Numa palavra, o trabalho conclui que, devido a vários factores, o sistema democrático na sua faceta essencial – ou seja, a participação dos cidadãos na res publica – se está esboroar debaixo dos nossos olhos.

O estudo em causa não avança soluções. Mas num artigo (The Times Literary Supplement, de 13 de Fevereiro, n.º 5263) sobre este trabalho propõem-se sete medidas para dar «uma nova oportunidade» ao sistema democrático. Trata-se de uma análise do Estudo Norueguês sobre o Poder e a Democracia feita por Stein Ringen (professor norueguês ligado à Universidade de Oxford), análise essa que está disponível na net (
Where Now Democracy?). Atente-se no que sustenta Stein Ringen:

«
The Norwegian Study of Power and Democracy tells us that modern democracy is in need of reform. It does not spell out a programme of reform but it is easy to extract from its books and reports what that programme would be.

1. Maintain the democratic infrastructure. Above all, rebuild local democracy where, as is near universal, it is in decline.

2. Give citizens reasons to be involved in politics. Start by denying political parties subsidies, be it from the public purse or private donations, and force them to compete for members, depend on members, and answer to members.

3. Shape election systems so that government formation follows from the outcome of the vote and so that governments hold enough power to rule.

4. Respond to the challenge of multiculturalism. The homogenous society is a thing of the past. European populations are changing in ethnic and religious composition. New minorities need recognition, empowerment and integration.

5. Pursue economic power with political power beyond the nation state. If national legislatures resist participation in super-national political structures they forfeit their own authority and autonomy. Norway has put to the test the strategy of protecting national autonomy by excluding itself from European integration. The outcome of that test is that it finds itself reduced to a form of neo-colonial domination.

6. In the European Union, fill the democratic deficit with a democratic structure of institutions.

7. Repeal the incorporation of super-national conventions into national law. That law is for the most part benign but the cost is the handing over of power to courts which are above and outside of the democratic polity. That is a cost it is not necessary to pay. It would be better for national legislatures too pass its own legislation on human rights and retain the power of interpretation in the national judiciary


Que se propõe Sócrates fazer? Acho que a discussão em torno destes sete pontos seria um bom começo de conversa aqui na blogosfera. Depois poderíamos falar da fraude e evasão fiscais, do controle dos dinheiros públicos, do financiamento das autarquias, da tributação dos prédios rústicos (para combater os fogos), do problema da droga (e dos off-shores)…

 

Novas fronteiras [1]


Filipe Nunes comentou uma notinha do Pula Pula no excelente País Relativo. Um fim-de-semana agitado não me permitiu responder-lhe. Segue agora a resposta em dois «actos», lamentando o atraso.

Filipe Nunes critica-me por falar na «abulia» do PS, mas concorda implicitamente comigo quando conclui que a circunstância de o PS estar na oposição explica e parece justificar o apagamento relativo de Sócrates. Assim sendo, o que estará em causa é saber se se trata de uma inevitabilidade «um partido com vocação de poder» não se fazer ouvir quando se arrasta pela oposição.

Não vivemos hoje uma situação normal de alternância de poder. Não tenhamos medo das palavras: Santana levou a cabo um efectivo «golpe de Estado» no PSD e soube explorar as hesitações e a tibieza de Sampaio. Apesar da manifesta incapacidade do Governo, a verdade é que os aspectos que se retêm da sua actividade são o profundo desrespeito pelas regras democráticas, a notória ausência de sentido de Estado e a promiscuidade desavergonhada entre alguns grupos económicos e o aparelho de Estado.

Perante este quadro devastador, que criou um mal-estar generalizado na sociedade portuguesa, esperar-se-ia que o PS assumisse as suas responsabilidades, preparando-se para vir a exercer o poder. No entanto verifica-se que o PS está sossegado à espera que o Governo se desfaça: «Deixa-me cá estar sossegado, pensará Sócrates, porque este governo é tão mau que cai de podre sem ninguém lhe tocar.» É possível que isto seja suficiente para levar Sócrates ao poder. Mas será bom para os que se dispõem a votar no PS?

Nestas circunstâncias, o PS pode chegar ao poder sem se comprometer com nada. Mais grave: o PS pode assumir a governação sem saber exactamente o que fazer. Não me parece que isso seja uma perspectiva que possa entusiasmar quem quer que seja, salvo os pescadores de águas turvas.

Hoje em dia, existem muitas maneiras, mesmo para um partido que está na oposição, de poder exprimir-se. Veja-se a este título que, em certa medida, têm sido os blogs, nomeadamente o
Abrupto, o causa nossa e o Bloguítica, que têm conduzido a luta contra o Governo deste «pobre país», levantando questões e suscitando temas que depois saltam para os jornais.

Uma coisa é certa: quando estão na oposição, os partidos não têm dinheiro para grandes campanhas. Mas tomar posição sobre os assuntos não custa dinheiro. E a verdade é que sobre inúmeras matérias ninguém sabe como Sócrates se propõe resolver os problemas.

 

Governo no Museu da Presidência da República



John Chamberlain, Dolores James, 1962
Welded and painted steel, 76 x 97 x 39 inches
Solomon R. Guggenheim Museum

 

Bagão, a rábula de Sampaio


1. Recordam-se daquela rábula de Sampaio de que só aceitaria que Santana formasse governo se este lhe aparecesse em Belém com um nome de peso para a pasta das Finanças? Pois bem, esse nome de peso foi, como estão lembrados, um tal Bagão Félix, que, antes de se alçar ao Governo de Barroso, estava na prateleira do BCP, para onde havia sido empurrado precisamente por Paulo Macedo, hoje director-geral dos Impostos.

2. O tal nome de peso é desautorizado todos dias por Santana Lopes. Não será exagero afirmar que, entre a proposta de OE-2005 e o orçamento aprovado, as diferenças são muito significativas. O último episódio que descaracterizou o OE-2005 (e levou o ministro Bagão a perder de novo a face) aconteceu na segunda-feira passada. Depois de ter anunciado que a tributação da banca iria ser agravada (designadamente revendo os mecanismos de acesso à zona franca do Funchal), depois de se ter recusado a receber os banqueiros e a Associação Portuguesa de Bancos, Bagão foi forçado a assistir a um encontro entre Santana e os banqueiros (com excepção do presidente da CGD, por falta de agenda deste…), em resultado do qual o off-shore da Madeira continuará a ser um maná para as instituições financeiras (tendo ainda outras medidas sido aceites de imediato por Santana). Os banqueiros são uns negociadores elegantes e não se expõem a fazer um pé-de-vento na praça pública. Bastou João Salgueiro, presidente da Associação Portuguesa de Bancos, ter dado duas ou três entrevistas (SIC Notícias, DN…), para que os assuntos fossem de imediato agendados e tratados com a devida elevação.

3. Tendo perdido em toda a linha no tabuleiro do OE-2005, Bagão veio para os jornais distrair as atenções. Uma campanha inédita estava em curso para fiscalizar cerca de 170 mil contribuintes que não haviam apresentado a declaração de rendimentos. Pois é, o resultado está à vista: as repartições de finanças estão repletas de velhinhos de bengala, convocados à má fila para justificar a falta de entrega da declaração de IRS. Acontece que, há cerca de dois anos, a lei foi alterada, passando a ser exigida a todos os contribuintes a apresentação anual da declaração de rendimentos. Os reformados, que não estavam habituados a fazê-lo, continuaram a não apresentar a declaração (muito embora, se o fizessem, até pudessem vir a usufruir de um reembolso). Agora, são convocados em massa, chegam à repartição de finanças e têm uma prenda de Natal à sua espera: o social-cristão Bagão aplica-lhes uma coima pela falta de entrega da declaração de IRS.

Está explicado onde Bagão se vai financiar para proceder ao aumento das reformas. É simples, é barato e dá milhões.

 

Não é consolação


Vasco Pulido Valente no Público de Sábado, 27 de Novembro (link não disponível):

«Já se tinha lido nos livros, mas de repente a aparição de um magote em tumulto que insulta e ameaça um homem indefeso é o regresso a um passado abolido. Ou que, pelo menos, se imaginava abolido. O povo sempre gostou de execuções. Em toda a Europa, um enforcamento servia sempre de centro a uma festa. Os vizinhos prestimosamente alugavam janelas a quem queria observar a cena de perto. As famílias levavam as crianças. O povo ria, comia, bebia, dançava e apostava (na coragem do condenado ou no tempo que levava a morrer). Na revolução francesa, apareceu ao pé da guilhotina um público fixo de mulheres, que juntava o útil ao agradável, fazendo “tricot” durante as longas sessões de purificação da República. As “tricoteuses” ficaram na história. Mas, pouco a pouco, a sensibilidade “civilizada” começou a condenar estes divertimentos da “canalha”. Primeiro, em Inglaterra e, a seguir, em França a forca e a guilhotina passaram para a intimidade das prisões, privando o povo do seu espectáculo preferido.

A imprensa substituiu (e, na América, ainda substitui) a visão directa e o jornalismo que se dedicava ao género prosperou. Com limites, claro está. Mesmo hoje na América não é permitido filmar a execução propriamente dita e na Europa, embora contra a vontade do eleitorado (em Inglaterra, por exemplo), a pena de morte acabou. O que não acabou foi a ferocidade e alegria de assistir à destruição e sofrimento do nosso querido semelhante. Anteontem, centenas de pessoas acordaram de madrugada e ficaram o dia inteiro em pé e ao frio com o único propósito de injuriar Carlos Cruz, que pessoalmente não conhecem, e de lhe prometer que o matariam por suas próprias mãos. Como seria de esperar, as televisões deliraram. Os noticiários repetiram obsessivamente o episódio e, de novo, o país desapareceu por um buraco perante o “escândalo da pedofilia”. Se o passado ensina alguma coisa, vamos ter uns meses sem a mais vaga preocupação pertinente e séria, enquanto Portugal se espoja no seu primitivismo. Que nada disso, no fundo, contrarie a nossa natureza, ou sequer nos distinga da “Europa”, não é consolação.»

domingo, novembro 28

 

A pulga – enunciação de uma tese


«Confesso que sou incapaz de matar uma pulga», escreveu no Expresso o filósofo político Pereira Coutinho, saciando a curiosidade mórbida de um país inteiro. Daniel Oliveira, reconhecido especialista com provas dadas, quer comentar esta tese (ontem revelada ao país), que tanto tranquilizou a pulga de serviço? O Pula Pula abre-lhe as suas páginas (e ao milhão de portugueses que o acompanha dia e noite).

 

O recreio continua...


Henrique Chaves anunciou hoje a sua demissão do Governo, menos de uma semana após ter assumido o cargo de ministro do Desporto, Juventude e Reabilitação, acusando o primeiro-ministro de falta de «lealdade e verdade».

Henrique Chaves, até há poucos dias ministro-adjunto do primeiro-ministro, refere que não concebe «a vida política e o exercício de cargos públicos sem uma relação de lealdade entre as pessoas», nem «o exercício de qualquer missão privada ou pública, sem o mínimo de estabilidade e coordenação».



O preceptor continua vigilante – com a malta da discoteca às costas.


sexta-feira, novembro 26

 

As gavetas


Não deves abrir as gavetas
fechadas: por alguma razão as trancaram,
e teres descoberto agora
a chave é um acaso que podes ignorar.
Dentro das gavetas sabes o que encontras:
mentiras. Muitas mentiras de papel,
fotografias, objectos.
Dentro das gavetas está a imperfeição
do mundo, a inalterável imperfeição,
a mágoa com que repetidamente te desiludes.
As gavetas foram sendo preenchidas
por gente tão fraca como tu
e foram fechadas por alguém mais sábio que tu.
Há um mês ou um século, não importa.

Pedro Mexia (1999), Duplo Império, Edição do Autor


 

O caso das três perguntas


Vasco Pulido Valente no Público de hoje (link não disponível):

«As três perguntas numa só para o referendo sobre a “Constituição europeia” provocaram um grande burburinho entre os curiosos que se interessam por esse assunto arcano. Já lhe chamaram tudo: um insulto, um abuso, uma aldrabice. Já disseram que ela (a pergunta) não se percebia, que era pura chantagem, que deliberadamente se destinava a provocar abstenção, que ofendia a alta inteligência do indígena. E já se pediu um “movimento”, “mil movimentos”, pelo “não”. Há aqui com certeza um equívoco.

O país sempre teve pela “Europa” um vertiginoso desprezo e não parece que se vá excitar agora. Ao princípio, em ‘87 e ’88 ainda apareceu uma onda (pequenina) de fervor patriótico pelo “jaquinzinho” e a maçã reineta. Depois, Paulo Portas tentou usar os malefícios de Bruxelas para insuflar um nacionalismo qualquer, sem perceber que o nacionalismo português nunca passou de uma fachada frágil, inventada pelos merceeiros da República e explorada por Salazar. E, quando Paulo Portas desistiu, tirando o inevitável PCP ninguém mais tornou seriamente a pensar no assunto. Para o cidadão médio, a “Europa” foi desde a origem a PAC os “fundos”, dinheiro fácil, muita roubalheira e muita viajata. Como seria outra coisa? Bruxelas não pode agredir a nossa putativa soberania porque ela de facto não existe. O sistema político não nos merece sombra de respeito e nenhum limite que lhe imponham ou mudança que lhe façam é susceptível de nos comover. Dessa justiça que aí anda, que não defende nem os nossos direitos, nem as nossas liberdades, não vale a pena falar: quem por ela se daria ao excessivo trabalho de levantar um dedo?

Em resumo, onde está em Portugal a instituição venerável ou interesse inalienável que a “Europa” ameace? Que o “Tratado”, que a burocracia de Bruxelas fabricou, à sorrelfa dos 25 Estados da UE e do bom povo que neles mansamente rumina merece um rotundo “não” – sem dúvida que merece. Mas lá que isso afecte a vida dos portugueses – não afecta. O nosso “défice democrático” não começa na “Europa”, começa cá em casa. Como a nossa insignificância e a nossa pobreza. A polémica sobre a pergunta, ou as três perguntas, do referendo é neste momento uma frivolidade.»

 

Balanço da governação PPD/PSD-PP: Portugal «vai continuar a empobrecer até 2006»


Com aqueles perdigotos todos a fugir pelo intervalo dos dentes, Cavaco Silva afirmou: «Eu não invento números. A Comissão das Comunidades Europeias publicou previsões até 2006 e está lá escrito que Portugal vai continuar a empobrecer até esse ano. Já foi ultrapassado pela Grécia e pela Eslovénia e vai ser ultrapassado pela República Checa». E para que não subsistam dúvidas sobre a atribuição de responsabilidades, sublinha: «[Portugal] está no quarto ano consecutivo de afastamento da Espanha e da União europeia e vai continuar a afastar-se nos próximos anos».

Para Cavaco Silva, que Santana diz desejar que seja o candidato do PPD/PSD a Belém, «já não há tempo para ilusões, passes de mágica e palavreado inconsequente», porque, de outra forma, Portugal corre o risco de descer para a «segunda divisão dos país da Europa em termos de desenvolvimento».

 

Return to Reason



Man Ray (Emmanuel Rudnitsky), Return to Reason, 1921

 

Aggiornamento ou não, eis a questão


1. Reconheça-se que a comunicação social não esbanja recursos com o PCP. Mas a verdade é que o PCP também não ajuda. O «Partido» é, na hora actual, uma coisa híbrida: os objectivos foram cuidadosamente empalhados e mantidos no sótão longe da vista; a sua voz já não dirige nem «educa», apenas alimenta e amplia as conversas de café – o enriquecimento fácil, o fausto e a incompetência generalizada dos políticos são as causas que levam ao rubro os frequentadores das variedades da Festa do Avante.

2. A realidade nacional mudou para o PCP. Onde antes havia luta de classes, há agora uma imprecisa dicotomia entre ricos e pobres. O PCP reivindica a representação das classes D e C, disputa os amores (e os humores) da classe B e oferece ao inimigo a classe A. O Governo (e o aparelho de Estado) já não é visto como um instrumento do Capital, mas como um bando de incompetentes que se entretém a desbaratar os recursos «nacionais».

3. A realidade internacional igualmente mudou para o PCP. O «Partido» procura, aliás sem êxito, reinternacionalizar-se. A sua vasta experiência nos jogos de poder entre as superpotências ainda não suscitou suficiente interesse a nenhuma potência emergente, designadamente à China da «economia de mercado planificada». A equipa de Albano Nunes arrisca-se a ter de recorrer em bloco ao subsídio de desemprego.

4. O PCP só não mudou no estilo. Ainda assim não há fazedor de opinião que se preze que não exija que o PCP «mude». Parece o cúmulo da hipocrisia, a não ser que o objectivo seja mesmo abreviar-lhe a vida. Onde estão os partidos comunistas de Itália, de Espanha e de França, que «mudaram»?

5. Convém recordar que os avós do BE sustentavam, nos idos de 60, que o PCP mudara quando resolveu adoptar a tralha krucheviana e brejneviana. O MRPP, por seu turno, considerava que as ordens de Moscovo só foram aceites porque o PCP, criado por anarco-sindicalistas, já não era comunista. Ou nunca chegara a sê-lo. Os «controleiros» da Internacional Comunista parece que também não ficaram entusiasmados com o que encontraram por cá.

6. O Fórum da TSF de hoje, dedicado ao congresso de Almada, dá a exacta noção do estado do «Partido». Esta manhã, o sempre atento Vítor Dias jurava a pés juntos que o PCP está mais «pujante» do que nunca; um outro participante, certamente membro do «colectivo», dava uma explicação plausível para a fuga desordenada dos autarcas: «o que eles não querem é partilhar com o Partido a sua pensão de reforma como políticos

7. Em conclusão, o PCP, que estava ancorado nas autarquias locais, corre o risco de se ver confinado à CGTP, ou melhor, aos sindicatos da função pública, os grandes contribuintes liquidos do sindicalismo à Jerónimo de Sousa. O problema é que, mesmo por linhas tortas, a CGTP tem servido de travão ao emagrecimento dos salários - e o PS e o BE não parecem estar em condições de exercer esta função «trade-unionista».

 

Mapa mundi



Alighiero Boetti, Mapa, 1990-91

 

A pulga fala com os seus botões


Pulga – Este
João Pedro vai longe...
Botões – Qual
João Pedro?
Pulga – O
George.
Botões – O W, amigo do JPP?
Pulga – Não, não é o do império, é o da
Periférica.
[N.º 11 – Outono 2004 – preço de capa: 3.50 € (2.70 € na FNAC)]

quarta-feira, novembro 24

 

Acerca do fanatismo



Max Beckmann, Blind Man's Buff, 1945

«Blindman's Buff is the most important of the five triptychs created by Max Beckmann while exiled in Holland between 1937-1947 - an exile necessitated by the Nazi's inclusion of ten of his works in their exhibition of "degenerate art" in 1937. Like much of his art, Blindman's Buff is allusive and symbolic, inviting explication yet resisting explicit interpretation. Yet, the artist's use of the three-paneled format that was traditional to Medieval and Renaissance altarpieces evokes religious associations. Beckmann also drew upon classical sources, calling the figures at center "the gods" and the animal-headed man the "minotaur." Throughout the triptych, figures engage in sensual pleasures in a place where time, represented by a clock without XII or I, has no beginning or end. In sharp contrast on each wing are the blindfolded man and kneeling woman who, like prayerful donors in a Renaissance altarpiece, turn their backs to the confusion behind them.»

Gallery label for Blindman's Buff written by the Curatorial Department (Minneapolis Institute of Arts)


 

E os ayatollahs aqui tão perto


O Pula Pula já havia feito publicidade por duas vezes (
Os subterrâneos da escravidão e Os Buttiglione de cá) ao Movimento Comunhão e Libertação. Também o Diário Ateísta tem dedicado alguma atenção a este movimento (Génese do Fundamentalismo e Fundamentalismos católicos: Rocco Buttiglione forma lobby).

A última edição do Expresso traz uma entrevista com o Padre João Seabra, que dirige o movimento em Portugal. Não se trata de uma entrevista que faça história. A agressividade de João Seabra parece ter intimidado as jornalistas. Quando lhe perguntaram se podiam assistir às «reuniões» do movimento, replicou: «Claro. Mas se estiver lá com cara de sonsa para depois ir para o EXPRESSO dizer mal, no dia seguinte não a deixo entrar. Mas isso, só porque não sou parvo. (…) reservo-me o direito de me defender de provocadores.» E à questão de saber se a ministra Maria do Carmo Seabra, irmã do entrevistado, é do movimento, disparou à queima-roupa: «Acho uma pergunta impertinente

Nem sequer as múltiplas contradições do entrevistado espicaçaram as jornalistas. Por exemplo, quando sustentou: «Não temos nenhum objectivo de intervenção na sociedade. Apenas queremos educar cristãos adultos.» Mas logo a seguir admite ter criado um colégio e, ao mesmo tempo, desenvolver um programa específico nos liceus: «Acompanhamos os nossos rapazes e raparigas dos liceus com um programa cultural, para formá-los, obrigá-los a ler. (…) Fazemos fins-de-semana de estudos, que é coisa que eles gostam muito.» E nas férias? «Rezamos, fazemos passeios, jogos. São férias muito divertidas.» E intervêm na política? «Temos os deputados Pinheiro Torres e Isilda Pegado», que estão «na política em nome pessoal», muito embora a sua actividade seja predominantemente a de divulgação da organização de que são parte integrante.

Talvez haja apenas um aspecto interessante na entrevista, pelo menos para os eventuais interessados. O Padre João Seabra explica como se seleccionam e recrutam os membros do Movimento Comunhão e Libertação: «Não há convites, nem perfil. Todos podem pedir para aderir. Depois são avaliados por mim sobre a seriedade do seu empenho. É muito simples: a secretária faz-me as folhas e eu digo: "Este sim, este sim. Este não, é preciso esperar um pouco." Depois, os pedidos são mandados para Itália e as pessoas recebidas na comunidade por monsenhor Giussani.» À pertinente questão de saber como avalia as candidaturas, o Padre João Seabra responde: «O amor a Cristo deve ser a única razão para entrar e o meu único critério

O entrevistado não explicita os dons que possui para poder medir, através das «folhas» que a sua secretária lhe faz chegar, o «amor a Cristo». Muito menos explica por que membros influentes da Comunhão e Libertação foram apanhados na Operação Mãos Limpas – e por que, nessa altura, a voz do Padre João Seabra engrossou o coro de protestos regido pela Máfia (a siciliana, é claro).

 

O cardeal



Francis Bacon, Seated figure (the cardinal), 1955

 

Res Publica


Celebridades (I): do Pedro ao Avelino. Fique a saber o essencial sobre os que nos governam.

Celebridades (II): a experiência dos bidons no CCB. Uma forma peculiar de administrar a cultura, com o selo de garantia de Augusta Regina Moura Guedes.

Quando o Paulo saía à rua para proteger a
batata lusa.

Lápis azul:
resposta aos coronéis.

Eles caem que nem tordos. Eis uma tentativa de explicação para o fenómeno.

Recapitulação da matéria dada: prepare-se porque hoje há
chamadas.

Do you like rock 'n' roll music?

terça-feira, novembro 23

 

MOTHER COURAGE


Charles White, Mother Courage II, 1974

 

Pedro Mexia (também) a caminho do Público?


Mais do que o
texto de Pedro Mexia no DN de hoje, escrito em português suave, o que é encantador é a reacção ao artigo, em dose dupla (ali e acolá), por parte dos avençados d’ O Acidental. O alvo a abater foi imediatamente apontado. Agora os Delgados, Resendes & Ferreiras que façam o trabalho sujo. Uma forma muito peculiar de divisão social do trabalho que tem permitido aos avençados acidentais manter na blogosfera a face de bons rapazes, enquanto os Delgados, Resendes & Ferreiras aparecem como os maus da fita. Este estratagema não vos faz lembrar nada?

segunda-feira, novembro 22

 

George Grosz - «For The Fatherland»



 

Vale o que vale, mas...



sexta-feira, novembro 19

 

O que se referenda e não se referenda


A 6.ª revisão constitucional estabeleceu que as «disposições dos tratados que regem a União Europeia e as normas emanadas das suas instituições, no exercício das respectivas competências, são aplicáveis na ordem interna». «Resolvida» esta questão, o referendo terá mais um valor simbólico do que jurídico.

Ainda assim os portugueses vão ser chamados a pronunciar-se sobre o fim das votações por unanimidade. A adopção da «regra das votações por maioria qualificada» traduz-se por uma abdicação da soberania, ou seja, significa que outros podem decidir por «nós» contra a «nossa» vontade, embora com o «nosso» assentimento. É a aceitação desta curva apertada do processo de decisão que vai ser referendada.

 

A pergunta do referendo


Seria inevitável a contestação à pergunta aprovada para o referendo europeu. As rádios e as televisões ajudaram ao festim, com os inquéritos de rua. Cabe perguntar: se, em lugar da pergunta aprovada pelo PSD, PP e PS, as pessoas fossem confrontadas com os programas dos partidos, elas saberiam responder? A verdade é que não irá acontecer neste referendo nada de substancialmente diferente do que se verifica em eleições legislativas. A democracia é mesmo assim…

 

O PS está out?


Quem leia os fazedores de opinião, ou esteja atento ao que se diz pelas ruas, ou acompanhe a balbúrdia no seio do PPD-PSD e na coligação, fica com uma ideia do país que não bate certo com a abulia do PS. Sócrates está convencido que o poder lhe cai no colo sem mais nem menos, sobretudo quando a dupla Santana-Portas está a calar, um a um, todos os órgãos de comunicação social?

 

O fim da aventura


Vasco Pulido Valente no
Público de hoje (link não disponível):

«Apesar da fuga de Guterres, da desordem do PS, da escolha improvisada de Ferro e, sobretudo, da hostilidade geral aos socialistas, Barroso não conseguiu a maioria absoluta. Santana, depois de um governo impopular e fraco, não chegará, excepto por milagre, à sombra do que foram os votos de Barroso. Em intervalos de lucidez, por raros que sejam, ele deve com certeza perceber isto e procurar uma saída, que não o remova para sempre de cena. Mas não há saída. Se o PSD apresentar listas próprias em 2006, já não vai a tempo de recuperar a sua velha identidade histórica, reformista e moderada, que Santana se aplicou a liquidar e manifestamente não representa. Se o PSD escolher listas conjuntas, contra a vontade de uma parte apreciável do seu eleitorado e dos seus militantes, nada o distinguirá da direita de Portas, que os portugueses parecem não estimar.

Em Barcelos, Santana insistiu muito na ideia de “combate” e de “combatentes”. Provavelmente imagina a sua “vanguarda” esmagando um diabólico inimigo. Fora a desagradável origem desta fantasia (o nazismo, para falar francamente), existe ainda um pequeno pormenor: quem é esse inimigo que Santana se propõe tão ardorosamente bater. Um PS pacato e “guterrista”? O minúsculo BE? Um PC defunto? Ou o Estado providência e as leis laborais? Ninguém sabe. Suspeito que nem ele. A direita de Santana e Portas precisa de uma certa histeria para ganhar e crescer. Ora Portugal não está dividido ou radicalizado. Espera pacatamente o dia de correr com a coligação. Uma grande campanha contra a esquerda ou qualquer outro bode expiatório, conduzida por dois demagogos sem crédito ou cabeça, não irá longe. Portugal não é a Inglaterra de Thatcher ou a América de Reagan e de Bush; e esta direita, que chegou ao poder por uma série de acidentes, não assenta numa doutrina, numa cultura, num programa, num descontentamento. Vive no ar. A querela das listas mostra bem que já só se trata de salvar alguma coisa do desastre. O PSD quer salvar uma hipótese de futuro para além de Santana e o PP quer simplesmente salvar a vida. De qualquer maneira, a aventura acabou. Falta a fase do “bunker”: uns meses de governo impotente e cercado, de retórica e delírio.»

quinta-feira, novembro 18

 

The Relocation Camps



Dorothea Lange, The Relocation Camps

Os Estados Unidos entram na II Guerra Mundial em Dezembro de 1941. No ano seguinte, Franklin Roosevelt aprova a criação da War Relocation Authority, a qual força os americanos de origem japonesa a viver em «campos de internamento». Foram construídos 10 campos, tendo estado «internadas» 110 mil pessoas entre 1942 e 1946.


 

A influência dos raios gama sobre o comportamento das Margaridas


Santana Lopes: «
Quero Um País Que Vá Subindo no Seu Astral». É no que dá embrenhar-se na leitura da imprensa cor-de-rosa.

 

Paulo: «Quero cá saber dessas coisas…»


A realidade está virando ficção: «Vamos embora, Fernando!»

quarta-feira, novembro 17

 

A realidade está virando ficção


Arnaldo Jabor no …blogo existo. De leitura obrigatória, como tudo o que o João posta.

 

Muro de Berlim



Weegee (Arthur Fellig), Khrushchev

Os cristãos-novos já se haviam convertido em fanáticos da democracia representativa. Os cristãos-velhos aprontam-se para ir atrás de um novo apóstolo: Jerónimo de Sousa. O comité central do XVII Congresso, em nome do «colectivo», concluiu haver uma «inclinação consensualizada» para entregar ao «deputado-operário» os destinos do «Partido». Trata-se tão-só de «um acto normal de mais uma consulta no processo de construção colectiva de uma solução». Nada de novo, portanto.


terça-feira, novembro 16

 

A máquina tem sempre razão


Bagão alistou-se no Governo com uma carta de recomendação do Caldas. Como ministro, dispôs-se sempre, seja em que pasta for, a cumprir um programa linear: aplicar a máxima «Menos Estado, Melhor Estado» (leia-se, privatizar o que possa dar lucro). A proposta de Orçamento do Estado (OE-2005) é, neste contexto, uma surpresa. Nenhum outro ministro das Finanças fora tão longe na tentativa de cercear os direitos e as garantias dos contribuintes, passando um cheque em branco à máquina fiscal. Como o Pula Pula havia referido, o OE-2005 contempla um conjunto de medidas surpreendente (que inclui a criação de uma polícia fiscal).

Bagão caiu de pára-quedas no Terreiro do Paço e teve de se agarrar, como pôde, à máquina fiscal. A máquina lamenta-se de que quatro (4) anos não é um prazo suficiente para cobrar os impostos: logo Bagão introduz no OE-2005 uma autorização legislativa que permite rever o regime de suspensão ou interrupção da liquidação, o que significa que a máquina pode, mediante meros artifícios, protelar por quantos anos entenda o direito de liquidar e cobrar os impostos. A máquina fiscal, que esteve anos, segundo os jornais, sem solicitar o levantamento do segredo bancário a qualquer contribuinte, lamenta-se de que a lei condiciona a acção da fiscalização dos impostos: logo Bagão introduz no OE-2005 uma autorização legislativa que, na prática, permite que qualquer obscuro funcionário possa espreitar, sem restrições nem controle, as contas bancárias dos contribuintes. A máquina fiscal lamenta-se de que não tem meios para fiscalizar: logo Bagão introduz no OE-2005 uma autorização legislativa que impõe que o ónus da prova recaia sobre o contribuinte.

Bagão, um ministro indicado pelo PP, rendeu-se à máquina fiscal. Está a aplicar o próprio programa dos sectores mais retrógrados (e ineficientes) da máquina fiscal. Ainda havemos de ver o ministro na TV, batendo com a mão no peito, a proclamar: «a máquina tem sempre razão!» Não se surpreendam. Trata-se de uma ideologia reaccionária. Fica bem a Bagão defender o fetichismo da máquina – fiscal, no caso. Aliás com a cobertura explícita de Santana: «Só os inconscientes podem admitir que haja um primeiro-ministro que faça declarações sobre política fiscal sem articular com o ministro das Finanças», disse-o, sem grande convicção, em Barcelos.

[Não é de estranhar que o Contra a Corrente e o Pula Pula estejam de acordo. Sendo tantos os disparates e os atropelos da «barca dos loucos», é natural que se assista à «união de todos os portugueses honrados», como diria Cunhal...]

 

Em defesa dos «blogs anónimos»


O Pula Pula é um blog anónimo porque não quer ficar na insustentável situação do Terras do Nunca: o mundo a desmoronar-se à sua volta e jmf entretido a discorrer sobre Bush, muros, outros órgãos de comunicação e mais umas quantas banalidades. Esperava o fim do Terras do Nunca desde que se deu o assalto ao Diário de Notícias. Só foi pena jmf ter invocado o cansaço para suspender o blog. Quando não se podem revelar os motivos, é melhor não dizer nada do que levar os leitores ao engano. Volte com um blog anónimo, caro jmf… O anonimato não é sinónimo de irresponsabilidade, pode crer.

segunda-feira, novembro 15

 

«Santana é bom»


Nicolau Santos no Expresso On-line:

«A verdade toda é que, havendo alguma consolidação orçamental, ela se reduz em relação aos dois anos anteriores e é inferior ao meio ponto de redução do défice estrutural que foi acordado com Bruxelas. É um dos critérios que não será cumprido em 2005, como o comissário europeu, Joaquin Almunia, já deu nota.

A verdade toda é que a despesa baixa, mas à custa da insuficiência de dotações para certas áreas (a educação e a saúde são os casos mais flagrantes) e da desorçamentação escandalosa na saúde (600 milhões de euros) e do Instituto de Estradas de Portugal (400 milhões de euros). O mais certo é que haverá um orçamento rectificativo na segunda metade de 2005.

A verdade toda é que a dívida pública cresce de 60 para 62%, deixando Portugal de cumprir outro dos critérios que Bruxelas quer impor para avaliação orçamental no próximo ano.

A verdade toda é que este Orçamento estimula o consumo (descida do IRS) em detrimento do investimento (fim da descida do IRC) e da poupança (fim dos PPR, CPH, PPA).

A verdade toda, para infelicidade de Pedro Santana Lopes, é que o governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, considerou este Orçamento insuficiente em matéria de consolidação orçamental.

A verdade toda é que duas agências internacionais anunciaram que descerão o «rating» da República em 2005, se não houver correcções na política económica e no Orçamento do Estado para 2005.»

 

Que têm em comum estes homens?




Santana got them!

 

Uma forma diferente de olhar



Bill Brandt, Eaton Place nude

O quase em português fez um ano. Parabéns (atrasados) ao Lutz.


 

A guerra permanente


O artigo de Vasco Pulido Valente no Público de ontem, domingo, que não está disponível na net:

«A agonia de Arafat foi artificial e arrepiantemente prolongada para dar tempo a que se discutisse o lugar onde devia ser enterrado. A presença dele, até morto, ou sobretudo morto, podia legitimar a exigência de território que Israel considera seu ou (como, por exemplo, em Jerusalém) suscitar uma peregrinação contínua, fatalmente perigosa. Mesmo perante esta evidência, Blair e Bush insistiram em dizer que, a remoção do homem, abria uma “oportunidade” de paz. Não se percebe como esta ideia ocorre ainda a uma cabeça pensante. Excepto, claro, em gente que parte do princípio que todo o problema tem uma solução. Infelizmente, este problema não tem solução. A guerra entre Israel e o mundo árabe vai continuar indefinidamente, qualquer que seja a forma que tomar. Ao contrário do que em geral se pensa, essa guerra começou logo em 1917 com a “declaração Balfour”, que reconhecia, em nome da Inglaterra, o direito do “povo judaico” a uma “casa nacional”. Não custa compreender porquê. A “casa nacional” era a prazo uma evidente ameaça para a população indígena e também uma ingerência inaceitável do poder imperial na comunidade muçulmana. Dali em diante, o ódio ao judeu e, a seguir, ao Estado de Israel não parou de crescer.

Hoje com um Estado de Israel militarmente poderoso e relativamente próspero e um mundo árabe afundado na estagnação e na miséria, sob a hegemonia americana, a situação não mudou. Se alguma coisa, piorou. Por um lado, nenhum palestiniano jamais negociará com Israel uma convivência que acha injusta, humilhante e religiosamente reprovável. E, por outro, sabendo isto, nunca Israel porá em causa a sua segurança. O mundo árabe, na Palestina ou fora dela, quer simplesmente destruir Israel, o símbolo do mal e o bode expiatório do seu fracasso. Israel quer muito logicamente sobreviver. A diplomacia é aqui inútil, quando não é um instrumento de guerra. Só a “Europa” e América acreditam nela. A Inglaterra e a França, que dividiram a seu prazer o Império turco e criaram a presente tragédia; e a América, que as substituiu, com uma singular irresponsabilidade e cegueira. Convém lembrar que Arafat, o terrorista, era a à sua maneira um moderado.»

 

A sociedade civil reage


Uma boa iniciativa do Tugir em português. No entanto, como o e-mail do dr. Santana está indisponível, o LNT sugere que a correspondência siga para o ministro-adjunto.

domingo, novembro 14

 

Postura de Estado (posta à prova)



Robert Lebeck, O sabre roubado, Leopoldville, 1960

 

Em (des)acordo com o MacGuffin


O MacGuffin, autor de um dos blogs que a pulga lê diariamente, mostra-se em desacordo com a quebra do sigilo bancário que o actual governo incluiu na proposta de Orçamento do Estado para 2005. Estou de acordo com o MacGuffin que é inadmissível que um qualquer obscuro funcionário da administração fiscal possa aceder, sem controle, às contas bancárias dos contribuintes. Mas não estou de acordo se as suas palavras querem dizer que um instrumento indispensável ao combate contra a fraude e a evasão fiscais não deve ser utilizado.

Acontece que o acesso a informações e documentos bancários, previsto na Lei Geral Tributária (artigo 63.º-B), foi alterado em 2002 (Decreto-Lei n.º 320-A/2002, de 30 de Dezembro). Parece ter-se encontrado um ponto de equilíbrio entre o direito à privacidade e a necessidade imperiosa de o Estado ter à sua disposição mecanismos de fiscalização.

A proposta agora apresentada é uma violação grosseira do direito à privacidade. Talvez amanhã o Pula Pula possa voltar ao assunto, procurando os motivos por que o social-cristão Bagão se atreve a incluir no Orçamento do Estado esta possibilidade.

[Se o
MacGuffin lesse o Pula Pula, não precisaria de saber pelos jornais a extensão da quebra do sigilo bancário prevista no Orçamento do Estado. A pulga, que lê com atenção os «documentos oficiais», já dera conta da situação.]

 

A diferença


Vasco Pulido Valente analisou ontem no
Público o congresso do PSD, «O Enterro de Barcelos». Sustentava o seguinte:

«Se o PSD já perdia eleições por causa do conúbio com o PP, agora que se tornou de facto num Partido Popular Democrático, com a união mística dos chefes, perderá mais. Santana não percebeu o real radicalismo de Sá Carneiro, que era exclusivamente dirigido ao poder militar e às desordens do PREC. O radicalismo dele é dirigido a uma parte apreciável do seu próprio eleitorado, que lhe agradecerá sem dúvida votando PS. Claro que o congresso tinha maneira de parar, ou moderar, esta corrida sem senso, nem desculpa para a extrema-direita. Infelizmente, como de costume, está preparada a aclamação unânime do homem, a troco de uns meses de Governo e de um desastre certo

VPV parece lamentar o caminho seguido por Santana. Eu não. Faz toda a diferença – e ainda assim continuarei a reproduzir os seus textos sempre que não estiverem disponíveis na net e eu esteja de acordo com o diagnóstico traçado (ou me pareça relevante o que escreve).

[O texto de hoje, «A guerra permanente», não faz parte da versão on-line do Público. Espero que mão amiga colabore com o Pula Pula, copiando-o amanhã.]


sábado, novembro 13

 

Inquisição: o senhor que se segue



William M. Van der Weyde, Dog Training, cerca de 1900

Luís Filipe Menezes alçou-se ao púlpito de Barcelos para anunciar a sua conversão ao santanismo. A prova de que não se trata de um impostor deu-a quando pediu a cabeça do «tipógrafo» que «subiu directamente» a «subdirector» do Expresso, «um tal José António Lima» O tal ex-tipógrafo, profissão que não é do agrado do viscoso edil de Gaia, tem denunciado nas páginas do Expresso o populismo. Nas palavras de Menezes, ele não gosta dos que ganham eleições, como Santana, Jardim, Valentim e o próprio Menezes. As cenas dos próximos capítulos serão decisivas para saber se a «receita Paes do Amaral» também é acatada por Balsemão. Os cães já vagueiam sem açaimo.


sexta-feira, novembro 12

 

«Rapidamente e em força para Angola»


Em 1912, o parlamento português aprovou por unanimidade um projecto que previa a colonização pelos judeus de uma área de 45.000 Km2 no planalto de Benguela. A Jewish Territorial Organisation, uma organização que se dedicava principalmente à procura de um território para instalar os judeus em qualquer parte do mundo, veio a recusar o projecto, por considerar as concessões feitas pelo governo português insuficientes para poder vir a constituir uma «nova pátria judaica».

A História regista várias outras tentativas de alojar os judeus em Angola, designadamente depois de Hitler ter chegado ao poder. Umas dessas tentativas parece ter abortado porque o Daily Herald, jornal inglês, divulgou, na sua edição de 30 de Abril de 1934, as negociações em curso, num artigo com o seguinte título: «Nova casa para 5.000.000 judeus. Projecto de acordo para o oeste de África. Portugal oferece-se para dar terra». A notícia dava conta da existência de negociações secretas entre uma delegação judaica e o governo português para a fundação de um Estado autónomo em Angola, que ficaria sob a presidência da Sociedade das Nações.

Se tivesse vingado a hipótese de fundar um Estado autónomo em território pertencente a Angola, como seria o mundo no início do Século XXI? E como teria sido definida a ideologia que justifica a existência de uma «pátria judaica»?

 

Exposing a Gestapo Informer



Henri Cartier-Bresson, Dessau: Exposing a Gestapo Informer, 1945

quinta-feira, novembro 11

 

O ministro-empresário Álvaro Barreto


«O problema - como Álvaro Barreto demonstra abundantemente nesta entrevista e nem sempre com muita inteligência, apesar da sua reputada maturidade - já não é só a obsessão doentia que Santana Lopes e o seu Governo têm com a comunicação social. O problema é o conceito antidemocrático, cada vez mais patente, que manifestam sobre o relacionamento do poder político e do poder económico com a liberdade de expressão, com uma comunicação social plural e crítica. Não têm, decididamente, emenda.»

É de leitura obrigatória o artigo de José António Lima no
Expresso On-line.

quarta-feira, novembro 10

 

Viver debaixo da ponte



Um casal amigo vive numa casa com história: construída há 150 anos, é a casa de família em Lisboa; Raul Lino fez o projecto de ampliação, acrescentando-lhe um mirante, hoje classificado como património municipal, que cai sobre o rio; Carlos Ramos, mais tarde, concebeu a pormenorização do interior. O que resta dos magníficos jardins que a envolvem faz-nos ainda acreditar que, apesar de tudo, a casa se situa fora do bulício da cidade.

Acontece que a ponte sobre o Tejo é o drama daquela casa com história. Primeiro, os alicerces, em rigor, destruíram os jardins – e sufocaram a casa. Depois, concluída a obra, os mais improváveis objectos chovem dos céus – há dezenas de anos que assim é. Um desafio constante à imaginação. Sucessivos raids aéreos mantiveram em permanente desassossego as gerações que viveram na casa. Tanto pode ser-se surpreendido por uma escada de metal que chega do espaço como ser-se apanhado por um voo de um desgovernado colchão (para cama de casal). O logradouro é um depósito de objectos não identificados (estes os verdadeiros OVNI). É até provável que a própria expressão «it rains cats and dogs» tenha ocorrido a algum inglês que fosse a passar em Alcântara no início do Verão, quando os donos decidem, ao cruzar o rio, desembaraçar-se dos animais domésticos que atrapalham as ansiadas férias. A ponte serve aos fins mais inesperados.

A guerra nos céus de Alcântara acontece perante a indiferença dos responsáveis da Lusoponte (e a a passividade do Estado para com a concessionária das travessias sobre o rio). A ponte não tem protecção – antes uma espécie de decoração para a embelezar. E só um país que se esgota a regulamentar coisas inúteis é que permite que a guarda da ponte seja constituída por travessas horizontais, autênticas escadas para o abismo. Na noite de sexta para sábado, um rapaz galgou o gradeamento e lançou-se da ponte, estatelando-se a escassos metros da casa, no pátio interior. A família recolhera-se momentos antes.

Viver debaixo da ponte é o drama desta família. Que agora levou para casa a tragédia que se abateu sobre uma outra família.

terça-feira, novembro 9

 

A barca dos loucos


Vasco Pulido Valente mudou-se para o Público. As crónicas de sexta e sábado estão disponíveis na net. A de domingo, não. Por isso se reproduz no Pula Pula «A barca dos loucos», publicada no dia 7:

«O Governo publicou um folheto para anunciar à Pátria estupefacta a “intensa actividade” dos seus primeiros cem dias. Curiosamente, não fala no “saneamento” de Marcelo, nem da sua bela obra na PT. Em compensação, parece que adquiriu um atlas, que fechou o túnel do Rossio (grande gesto, esse) e que o sr. Santana, além de tirar um belo retrato oficial, recebeu o sr. Barroso da “Europa”. Estamos, manifestamente, em boas mãos. Houve algumas dificuldades, claro. Ao princípio, houve mesmo “ruído”, porque a “elite portuguesa”, como muito bem observou o sr. Relvas, “não estava preparada para um primeiro-ministro deste tempo”, ou seja, para “um primeiro-ministro que dialoga directamente com as pessoas” com quem “dialoga” e que a elite ignara acusa de “populista por ser popular”. O sr. Relvas tem razão: ninguém em Portugal, e não só a elite, estava preparado para a extraordinária originalidade de Santana e não é natural que tão cedo venha a estar. Não o merecemos. De qualquer maneira, na próxima semana, o PPD/PSD tenciona mostrar o triunfo da fé sobre o cinismo, aclamando em congresso o seu chefe adorado. A ausência de certas criaturas que não pertencem a “este tempo” com certeza que não diminuirá o fervor dos festejos, nem a fecundidade dos trabalhos. Santana sabe perfeitamente o que quer. Quer “modernização”, quer “independentes”, quer uma “plataforma” e quer e não quer uma aliança com PP. A única dúvida que paira sobre o congresso é sobre o futuro do sr. Menezes (o de Gaia). Irá ou não irá ele para a comissão nacional? O sr. Rio do Porto não ficaria se ele fosse e Gaia sofreria se ele não fosse. O Norte, coitado, anda nervoso. Mas Santana reconciliará o Norte. Rio e Menezes já se viram de longe e o Marco António, o procônsul do sítio, já prometeu “jogar ao ataque”. Entretanto, o ministro Sarmento – que se acha simultaneamente da “elite” e “deste tempo” – aspira à posição exaltada de “número dois” do partido e o partido oscila entre a devoção e a desconfiança. Uma coisa é certa: Santana subirá aos céus para confusão do “cavaquismo”. Do “barrosismo”, do “marcelismo” e do PS. A barca dos loucos seguirá aos bordos com imenso alarido e sem destino certo.»

segunda-feira, novembro 8

 

Como em Abu Ghraib


Danny Lyon (cerca de 1967-68),
Conversations with the Dead - Building shakedown

«Um oficial explicou que esse tratamento fazia ‘parte do processo’
 

Portagens em Lisboa e no Porto


Santana, ainda autarca, teve um rasgo: há que introduzir taxas de circulação automóvel à entrada da Lisboa. O Conselho de Ministros da passada quinta-feira aprovou a proposta, metendo o Porto no mesmo saco. Carmona concorda, pois então… É uma boa medida? Ninguém sabe… porque ninguém se deu ao trabalho de pensar no assunto, de o estudar.

Eis 7-boas-razões-7 para rejeitar o último desvario da «barca dos loucos»:

1. É certo que Londres (ou Singapura ou Oslo) tem portagens, mas estas resultaram de estudos consolidados. Foram os poderes públicos, apoiados nos órgãos de planeamento e coordenação públicos, que conduziram o processo e tomaram as decisões. Com Santana (e Mexia, claro), os estudos foram encomendados a privados (as empresas de consultadoria e as empresas fornecedoras), que querem naturalmente impingir soluções e tecnologia. Ao entregar-se a condução do processo a privados, há um risco elevado de os políticos poderem ser enganados. É o mínimo que se pode dizer.

2. O mayor de Londres, Ken Livingstone, estudou o assunto e não se atreveu a introduzir as portagens sem antes referendar a sua proposta (em eleições locais), contrariamente ao que Santana quer fazer.

3. Acresce que é preciso ter em conta as diferenças abissais entre Londres (cidade com 10 milhões de habitantes numa região com 18 milhões) e Lisboa (650 mil habitantes numa região com 2.5 milhões).

4. Por outro lado, é notória a incoerência dos projectos de Santana: o túnel do Marquês convidava o automobilista a entrar na cidade; as portagens barram-lhe a entrada; o anunciado túnel entre a Trafaria e Algés volta a ser um convite à entrada na cidade (e à construção desenfreada na outra margem…).

5. Os especialistas em transportes consideram que a principal variável para o controle do tráfego nas cidades é o estacionamento – pago. Se a Câmara de Lisboa não consegue evitar a vandalização das máquinas de pagamento, não seria de bom senso dotar a EMEL de gente capaz de gerir o estacionamento em Lisboa (em lugar da rapaziada recrutada no Caldas), antes de se querer abalançar a outros voos?

6. Se o objectivo da introdução das portagens é o de reduzir substancialmente o tráfego, há então que, previamente, investir no transporte público. Isto não está definido. Nem sequer está previsto que as receitas da taxa de circulação revertam para a melhoria dos transportes públicos. Aliás o caso EMEL aconselha prudência, para que se não repitam experiências em que os proveitos não cobrem sequer os custos de exploração…

7. Portugal é um país pobre. As classes «média» e «baixa» não estão em condições de suportar mais dificuldades. E neste contexto, como afirmava ao
Público Rio Fernandes, autor de um estudo sobre a mobilidade na Área Metropolitana do Porto, «esta taxa corre ainda o risco de, imposta isoladamente, ser socialmente injusta, prejudicando sobretudo as pessoas de menores recursos que adquiriram casa própria na periferia, em zonas mal servidas por transportes públicos».

Santana, Carmona e Mexia: «cuidado com os rapazes!» Mais cedo ou mais tarde, eles vão à vida. Não veremos obras, mas deixarão os contratos assinados. E quem os vai pagar, quem é?

sexta-feira, novembro 5

 

A vida continua



Anton Bruehl, Dance from a Night-club Act, cerca de 1943

 

Aqui há gato ou gralha?


Sabe-se como Morais Sarmento anda assanhado. Substituiu a administração da holding da RTP e da RDP. Não perdeu tempo, entrou pela RTP2 e virou aquilo do avesso, deixando lá um santanista de segundo plano a fazer de capataz. Depois avisou José Rodrigues dos Santos de que ele estava «em avaliação», o que, por outras palavras, significa que considera insuficientes os fretes que o Telejornal faz. Ao mesmo tempo, incumbiu os cristãos-novos Marques & Marques (Almerindo e Luís) de colocar um vasto conjunto de profissionais competentes na prateleira, para agora os ir «convidando», um a um, a rescindir contrato.

Neste quadro idílico, Vital Moreira escreve um post, no qual dá conta de que o «líder do PS José Sócrates anunciou hoje a intenção de limitar o sector público da comunicação social aos órgãos de serviço público (ou seja, essencialmente a RTP e a RDP), os quais gozam de garantia constitucional e estão sujeitos a um regime próprio que garante a sua independência face ao Governo» [sublinhados do Pula Pula].

Se não se tratasse de Vital Moreira, que pensariam os leitores de alguém que dissesse que a lei garante a independência da RTP e da RDP «face ao Governo», em especial num momento em que os rapazes de Santana estão a pôr a ferro e fogo, como nunca aconteceu desde o 25 de Abril, toda a comunicação social, a «pública» e a «privada»?

 

Sing Sing



William M. Vander Weyde, Electric Chair at Sing Sing, cerca de 1900

 

Malta da discoteca substitui pessoal da via


O management à António Mexia chegou à CP. Os Caminhos de Ferro Portugueses foram esquartejados em «unidades de negócio». «Isso é grave?», perguntará o desprevenido leitor. Não, a não ser para os «utentes», mas admito que isso seja um detalhe irrelevante.

Ana, uma cliente da CP, conta ao
Público que «foi na semana passada visitar os pais a Penafiel e teve que comprar um bilhete da Amadora para a gare do Oriente, outro entre esta estação e Porto Campanhã e um terceiro bilhete para Penafiel. Descobriu que teve de ir a três bilheteiras em três estações porque viajou em três unidades de negócio distintas que operam como se não fossem a mesma empresa CP. Antigamente, quando os administradores não tinham o discurso da "aproximação ao cliente", Ana comprava na Amadora um bilhete para qualquer estação do país.»

Fernando Pedreira, um observador atento da ferrovia, também ouvido pelo Público, ajuda-nos a perceber a estratégia do Governo para eliminar o défice no sector dos transportes. Diz que a CP «está a enxotar os clientes com estas complicações» em vez de lhes facilitar a vida. E conta que antes de 1947, quando havia várias companhias de caminhos de ferro, «o ignorante factor, que tinha apenas a quarta classe, e que tinha como equipamento mais moderno uma caneta de tinta permanente e papel químico, passava um bilhete directo de Viseu para Algés e o dinheiro era devidamente distribuído. Mas agora com os computadores não dá!»

Pois é, «não dá mesmo», a malta da discoteca atrapalha-se com os computadores. Aconteceu o mesmo com a colocação dos professores, ao que se diz.

 

Pretérito mais-que-perfeito



Dylan, The Freewheelin' Bob Dylan, 1963

Masters of War

Come you masters of war
You that build all the guns
You that build the death planes
You that build the big bombs
You that hide behind walls
You that hide behind desks
I just want you to know
I can see through your masks

You that never done nothin'
But build to destroy
You play with my world
Like it's your little toy
You put a gun in my hand
And you hide from my eyes
And you turn and run farther
When the fast bullets fly

Like Judas of old
You lie and deceive
A world war can be won
You want me to believe
But I see through your eyes
And I see through your brain
Like I see through the water
That runs down my drain

[O poema completo está aqui. Pode também aí ser ouvida a música.]

quinta-feira, novembro 4

 

Para lá de terça-feira



Lisette Model, Lower East Side, New York, 1950

 

Guterres, o candidato do Barnabé a Belém



Andy Warhol, Heinz Box, 1964


Ralph Nader foi até ao fim. Daniel Oliveira ficou exasperado com a sua ida às urnas, que se saldou por «resultados quase patéticos». Aproveita a ocasião para ministrar uma lição de teoria política, com uma conclusão aterradora: «a cegueira táctica, na política, tem resultados tão desastrosos como a falta de princípios.» Não tendo identificado os destinatários da lição, é provável que estivesse a falar para o «interior» do BE («a lição para quem julga que as decisões políticas não estão sujeitas a critérios tácticos.»)

Daniel Oliveira não diz uma palavra sobre as propostas de Ralph Nader. Nem se pronuncia sobre a disponibilidade de John Kerry para incluir no seu programa algumas das questões suscitadas por Nader. E dá uma explicação para a ida às urnas que poderia fazer uma excelente manchete do 24 Horas: «a vaidade» traiu «um homem íntegro».

Esqueçamos a vacuidade de um post que põe em evidência que Daniel Oliveira ainda não se desembaraçou de tiques e chavões antigos, quando se trata de sovar «forças hostis», sejam elas quais forem, ou estejam elas onde estiverem.

O que há de interessante (?) a reter é que Daniel Oliveira acaba de anunciar a estratégia do BE (ou do «grupo» parlamentar) para as presidenciais. E Guterres fica a saber que poderá contar com o apoio incondicional (ou seja, sem condições) de Daniel Oliveira. Em nome de «uma situação de urgência cívica». Tendo em conta «a leitura do momento político». E a necessidade de «sujeitar» as «decisões políticas» «a critérios tácticos». Estou desconfiado de que Cavaco e Sócrates andam a partilhar, à socapa, a leitura de Bernstein com Daniel Oliveira. «O movimento é tudo», como se sabe há cerca de cem anos.

quarta-feira, novembro 3

 

Acerca do voto (no delta do Mississipi)



Dorothea Lange, Plantation Owner and His Field Hands near Clarksdale, Mississipi, 1936

 

Quadratura do círculo


Pode estar-se contra Santana e defender Bush?

 

Amor com amor se paga


Há trocas de tabefes que acabam assim: o
Contra a Corrente passa a fazer parte dos links recomendados pelo Pula Pula, se assim se pode dizer. Os «muito cá de casa», que estão aí à esquerda. E deixo-o em muito boa companhia: exactamente entre os indispensáveis Citador e Crítico. Vai sentir-se por aqui como se estivesse em Évora, tenho a certeza. A blogosfera, como o futebol, é assim mesmo. É tudo.

terça-feira, novembro 2

 

Ser conservador



Bill Brandt (1933),
Parlourmaid and Underparlourmaid Ready to Serve Dinner

 

Cantar no duche, a forma suprema de liberdade de expressão


Escrevi meia dúzia de linhas sobre o Contra a Corrente. Escolhi, ao acaso, uma manifestação de fé no conde de Anadia a propósito do «diferendo» com Marcelo. Após uma curta ausência da blogosfera, deparo com uma resposta longa. Eis a resposta à resposta (seguindo o esquema adoptado pelo MacGuffin), esperando que assim possa dar por concluída esta inesperada «polémica»:

PONTO PRÉVIO

O MacGuffin mostrou-se à blogosfera com um
manifesto redigido ao som de «Nénette et Boni», uma desinspirada banda sonora dos Tindersticks. Não fez a coisa por menos: entre as suas múltiplas e sentidas (p)referências, elencou Burke, Tocqueville, Oakeshott, Berlin, Hayek, Aron, Esteves Cardoso, Mónica, Barreto (autores de cabeceira), Vitti, Binoche, Hupert, Nastassja, Bacall e Kelly (por «razões estéticas»). E, claro, Nelson Rodrigues: «Se Nelson fosse vivo, estaria hoje aí, na frente de combate contra a «esquerdite» aguda e a «estalinização» sub-reptícia da sociedade. Contra a palavrosa e cega obsessão, que a esquerda teima em repetir ciclicamente, em torno das mesmas falsas aparências, dos mesmo dogmas, da mesma forma simplista e maniqueísta de olhar o mundo. Contra o seu moralismo de pacotilha e a arrogância de tentar empurrar, por decreto, os seus modelos e as suas certezas superiores, para cima de nós.» Estava, desde logo, esboçado o estilo do Contra a Corrente: «É um bocadinho desse espírito que pretendo trazer para aqui.»*

Tendo em conta esta recheada carteira de autores, é natural que se estranhe que a defesa de Paes do Amaral, conde de Anadia, se tivesse cingido a uma tão desqualificada argumentação. Parece aliás ser «um bocadinho desse espírito» que leva o MacGuffin a socorrer-se do verbo de um tal Pereira Coutinho para lastimar e reprovar o afastamento de Rocco Buttiglione.

SOBRE O POST DO MACGUFFIN

1. O encontro com Marcelo, pedido por Paes do Amaral com a máxima urgência, decorreu no «bar de um hotel». Só «os idiotas da objectividade», explica o MacGuffin, não alcançam que, numa «conversa de amigos», «a latitude do tom e o conteúdo não podem ser extrapolados gratuitamente para outro contexto.» Os elementos e as contradições que, entretanto, vieram a público, «retiradas desse contexto, torcidas e distorcidas aqui e acolá», não são sequer aceites para discussão. O cenário é tudo. E é suficiente para que o MacGuffin forme um juízo – definitivo, parece. Eis como se apazigua, em duas penadas, a consciência.

2. Arrumada a questão da demissão de Marcelo, já nada pode travar o tropel do MacGuffin: «Paes do Amaral tem, ou não tem, o direito de fazer aquele tipo de observações sobre os comentários de Marcelo? Será legítimo que o faça? É óbvio que sim. Para além de amigo, Paes do Amaral é o presidente de uma estação de televisão privada

O conde de Anadia gere uma concessão que está sujeita a determinadas regras? A lei impõe procedimentos inequívocos no relacionamento entre a direcção dos órgãos de comunicação e os que exercem funções no âmbito da Informação? Marcelo fez «comentário» político na TVI durante quase cinco anos e só agora Paes do Amaral se permitiu lembrar-se de o convidar a ser mais «moderado»? O Contra a Corrente não se perde com inúteis detalhes.

3. Chegados a este ponto, o MacGuffin deve ter suspeitado de que estava a fazer propaganda ao elixir da longa vida. Polvilha então o discurso com umas poeiras da realidade: há «muita publicidade do Estado e do para-Estado que tem o seu peso na estrutura de receitas de qualquer estação de televisão. São elementos importantes que podem explicar a conversa de Paes do Amaral com o seu amigo Marcelo Rebelo de Sousa. E são, certamente, elementos que não podem ser ignorados na apreciação que qualquer gestor/patrão faz do contexto onde a sua organização está inserida, bem como dos factores exógenos que condicionam a sua actividade

O MacGuffin é compreensivo para com as pressões do «Estado». Mas, como prefere a Spectator ao
Pula Pula, não sabe que tais pressões não se esgotam na atribuição caritativa da publicidade: a Media Capital tem dois canais da TV Cabo que aguardam homologação; a televisão digital terrestre pode ser o negócio do século (XXI); o conde de Anadia, para não perder a hegemonia na Media Capital, precisa que a CGD lhe ceda, a bom preço, a sua participação na empresa, após o grupo alemão Bertelsmann, que detém a RTL, ter adquirido (de uma forma hostil) 11, 55 por cento do capital; a PT equaciona a venda da Lusomundo, etc., etc..

4. Por fim, como mandam as regras, o MacGuffin sentencia: «Questão de fundo, e mais interessante, é a de se saber até que ponto, em Portugal, certas actividades privadas dependem, em excesso, do condicionamento (in)directo do Estado.» Tanto quanto se consegue entender deste enigmático período, o MacGuffin admite a intromissão do Estado, desde que não seja «em excesso». Mas sossega-nos de imediato: "Mesmo em sociedades caracterizadas aberta e indiscutivelmente pela liberdade de expressão (como é o caso da nossa), os «interesses» e as «estratégias de coabitação» com o «poder» fazem parte do jogo. Fizeram no passado e continuarão a fazer, no futuro. É assim em todo o lado. O que interessa assegurar está assegurado: os espaços de opinião não se esgotam na TVI. Nem na SIC. Nem na RTP. E por aí fora. Marcelo foi, é e continuará a ser livre de dizer o que bem entender." Nem que seja no duche, acrescenta a Pulga.

É este o discurso de um conservador – ou coisa assim. Perante um inaudito cerco do Governo à comunicação social – que, para além de tudo o que vem a público, passa por colocar na prateleira os recalcitrantes, «convidando-os» depois a aceitar a rescisão dos contratos, como está a acontecer na RTP, na Antena 1 e no mundo da Lusomundo –, o Contra a Corrente apresenta este discurso pobrete mas alegrete. O MacGuffin parece membro de uma daquelas seitas totalmente impermeáveis à realidade e à razão. Difundir esta fé, aceite sem exame como é da praxe em qualquer fé, é ir…
Contra a Corrente?

______________
* O Contra a Corrente, se lido ao fim da tarde para descomprimir, tem o seu quê de lúdico. Um só exemplo, para não massacrar o desprevenido leitor. Num post intitulado
O Tio Alberto, MacGuffin assegura que «a Madeira não é, de facto, uma aberração». E discorda dos que sugerem que «o Tio Alberto» seja um «exemplo da fragilidade da democracia.» Mais: «Não é, certamente, um sinal de moléstia ou enfermidade. Por definição, a democracia é frágil.» [O «mal» está na democracia, não no «tio» do MacGuffin?] E por que o MacGuffin não abomina o soba da Madeira? «Há qualquer coisa no seu olhar e no seu sorriso que me impedem (sic) de o abominar.» Mas... «Agora, prestem atenção: eu não estou a defender o modus operandi do tio Alberto.» Antes pelo contrário, como se vê.

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