sexta-feira, outubro 1

 

Reminiscências de 1 de Outubro*


Hoje, há 27 anos, Pelé marca o 1281.º golo e abandona o futebol. Hoje, há 28 anos, é empossado o Governo Regional da Madeira. Hoje, há 30 anos, Gosta Gomes toma posse como presidente da República, após a renúncia de Spínola. Hoje, há 33 anos, é inaugurada, na Florida, a Disneyworld. Hoje, há 34 anos, é dado o primeiro passo para a constituição da Intersindical, quando as direcções do Sindicato Nacional dos Caixeiros do Distrito de Lisboa, do Sindicato Nacional do Pessoal da Indústria dos Lanifícios do Distrito de Lisboa, do Sindicato Nacional dos Técnicos e Operários Metalúrgicos do Distrito de Lisboa e do Sindicato dos Empregados Bancários do Distrito de Lisboa convidam outras direcções sindicais para «comparecerem numa sessão de trabalho para estudo de alguns aspectos da vida sindical cuja discussão lhes parece da maior oportunidade». Hoje, há 55 anos, é proclamada a República Popular da China, alguns dias após Mao Tsé-tung ter afirmado que «o povo chinês, compreendendo um quarto de toda a humanidade, se pôs de pé». Hoje, há 68 anos, Franco assume a chefia do «Governo Nacionalista de Espanha». Hoje, há 144 anos, Camilo Castelo Branco dá entrada na Cadeia da Relação do Porto, acusado de haver seduzido e raptado uma jovem, Ana Plácido, que interesses familiares tinham obrigado a casar com um rico negociante, naquele que tem sido um amor tormentoso [que se prolongaria até ao seu suicídio, trinta anos depois].

Camilo, nas Memórias do Cárcere, escritas «na convalescença duma enfermidade moral», sustenta:

«Este nosso Portugal é um país em que nem pode ser-se salteador de fama, de estrondo, de feroz sublimidade! Tudo aqui é pequeno: nem os ladrões chegam à craveira dos ladrões dos outros países! Todas as vocações morrem de garrote, quando se manifestam e apontam a extraordinários destinos. A Calábria é um desprezado retalho do mundo; mas tem dado salteadores de renome. Toda aquela Itália, tão rica, tão fértil de pintores, escultores, maestros, cantores, bailarinas, até em produzir quadrilhas de ladrões a bafejou o seu bom génio! Aí corre um grosso livro intitulado Salteadores Célebres de Itália. É ver como debaixo daquele céu está abalizada em alto ponto a graduação das vocações. Tudo grande, tudo magnífico, tudo fadado a viver com os vindouros, e a prelibar os deleites de sua imortalidade Schiller, Vítor Hugo, Charles Nodier, se fada má lhes malfadasse o berço em Portugal, teriam de inventar bandoleiros ilustres, a não quererem ir Descrevê-los ao natural nos pináculos da república. Apenas um salteador noviço vinga destramente os primeiros ensaio numa escalada, sai a campo o administrador com os cabos, o alferes com o destacamento, o jornalismo com as lamúrias em defesa da propriedade, e a vocação do salteador gora-se nas mãos da justiça. Faltava o fio eléctrico para tolher que vinguem os génios espicaçados pelo amor ao dinheiro amuado nas arcas dos proprietários, inimigos de empresas industriais e da circulação monetária, artéria de primeira ordem na prosperidade de um país. Faltava o telégrafo para matar à nascença as iniciativas auspiciosas. Apenas lá das povoações serranas desce à vila ou cidade a nova dum roubo, o arame palpita de horror, e a cara do ladrão é para logo litografada na fantasia de todos os esbirros sertanejos. A civilização é a rasa da igualdade: desadora as distinções; é forçoso que os bandoleiros tenham todos os mesmos tamanhos, e roubem civilizadamente, urbanamente. Ladrão de encruzilhada, que traz o peito à bala e o bacamarte apontado ao inimigo, esse há-de ser o bode expiatório dos seus confrades, mais alumiados e aquecidos do sol benéfico da civilização. Roubar industriosamente é engenho; saquear a ferro e fogo é roubo. Os daquela escola tropeçam nas honras, nos títulos, nos joelhos dos servis, que lhes rojam em venal humilhação; os outros, quando escorregam, acham-se encravados nos artigos n.ºs 343, 349, 87, 433, 351, e mais cento e setenta artigos do Código Penal.

Diz algum tanto como exemplo desta lamentável anomalia a história de José Teixeira da Silva do Telhado, o mais afamado salteador deste século.

Vulto de romance não o tem, porque neste país nem se completam ladrões para o romance. Disse-me uma dama francesa de eminente espírito que em Portugal era a natureza, o céu e o ar que faziam os romances. Nem isso, minha senhora. Aqui anda sempre o gume do prosaísmo a podar os rebentões da natureza, mal eles infloram. Frutos de servir para a novela, levantada da comezinha chaneza dum conto à lareira, nem mesmo os deixam amadurar na fama e nas façanhas de um salteador.»
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* Post inspirado nas «Poeiras» do Abrupto.

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