quinta-feira, outubro 21

 

«a política é um capítulo da moral»


A 21 de Setembro do longínquo ano de 2002, Clara Ferreira Alves publicou no Expresso um texto intitulado «A superioridade», no qual analisava o percurso político de Paulo Portas, dando um especial relevo às suas relações com a família Braga Gonçalves da Universidade Moderna. Não o poupava:

"O destino grandioso de Paulo Portas devia tê-lo avisado contra as más companhias. Eu não aceitaria do Júlio Braga Gonçalves, o pai, uma esferográfica emprestada. O homem tresanda a sinistro e mitomania, a falência de carácter, e o dinheiro dos Braga Gonçalves e da Moderna tresandava a má vida e corrupção. (…) Eu nunca esperei ver Paulo Portas ser comprado pelos novos ricos, e nunca acreditei que estes novos ricos em particular, criminosos de patilha, pudessem passar cheques de milhares de contos a Paulo Portas. E ele os pudesse aceitar. Achava que não o faria por duas razões: porque era inteligente e porque era limpo. Porque não estava à venda, e Portugal precisa de políticos que não estejam à venda. Paulo Portas pode argumentar que tudo foi uma operação legítima e legal, mas a política, como disse uma vez Sophia de Mello Breyner e Portas concordaria, «a política é um capítulo da moral»."

A mulher que escreveu isto, há dois anos, parece que acaba de aceitar integrar a máquina de propaganda da dupla Santana/Portas, ficando na directa dependência de outro político impoluto: Luís Delgado. A política já não é um capítulo da moral; é um serviço de infecciologia: afinal, Santana não tem lepra, disse ela.

Eis o artigo completo da «pluma caprichosa»:

"Paulo Portas fez a sua carreira jornalística dizendo coisas desagradáveis para muita gente num estilo descontente. Se não lhe admirava o estilo nem a pose, e não admiro o seu patriotismo bairrista, coexistiam nela uma mistura de puritanismo e ingenuidade que, aliados à sua energia e inteligência, faziam dele às vezes um excelente director de jornal e outras vezes um excelente político. Não existem em Portugal muitos políticos interessantes com a idade dele nem muitos políticos jovens que escapem à estreiteza das figuras burlescas, todos alvoroçados em muita ambição e escasso talento, fazendo a carreira pela linha da sombra. Como director de «O Independente», Paulo Portas foi incómodo e até quixotesco. Foi, também, desnecessariamente cruel na argumentação, quando bastava ter sido violento e persistente. Nunca compreendi muito bem o seu ódio ao cavaquismo, como nunca compreendi o seu incenso dessa figura e baça que dá pelo nome de Manuel Monteiro. Sempre achei que, ao lado de Portas, Monteiro não existia, e que só ele, com a sua capacidade de construir uma realidade negando outra, insistia em ver naquilo um chefe da direita portuguesa. Paulo Portas, se leu os gregos, sabe o significado de duas palavras: hubris e nemesis. As duas palavras que agora explicam a sua queda e que ele esqueceu durante a sua ascensão. Portas carrega nele qualquer coisa de trágico. Não excessivamente trágico, apenas portuguesmente trágico, uma pequena morte por pequenas coisas.
Como jornalista, Portas matou o que tinha criado, «O Independente». Sem ele, e sem a sua energia maníaca e a sua determinação conservadora, o jornal apagou-se e perdeu clientes. Muitos jornalistas perderam o emprego, outros afastaram-se e Portas prosseguiu no caminho que tinha sido o de Monteiro, a sua criatura: chefiar a direita portuguesa, não a de Freitas do Amaral, uma direita portuguesa mistura de tradição e populismo, de feira com chá das cinco. Enquanto ia lendo o «Spectator» e vestindo camisas «Thomas Pink», Portas ia trincando umas bifanas e enfiando uns chapéus. Fê-lo com certa graciosidade e coragem e, continuo a achar, com honestidade. Paulo Portas é, de facto, um político de direita e foi, na sua geração, o político mais brilhante. Digo foi e não digo é porque, depois deste caso da Moderna e da sua trama, Paulo Portas não voltará a ser o que foi. E não sei muito bem o que é. Não consigo compreender que um homem inteligente cometa erros tão estúpidos. Paulo Portas, que admirava Sá Carneiro e Helena Roseta e outros cavaleiros andantes da política, entrou nela de mãos limpas e coração livre. Quando tratou dos políticos, continuou a usar como exemplo e lugar de intransigência absoluta a limpeza dos modos e dos tratos e contratos. Quando fez juízos de intenções nos seus editoriais, fê-los tomando como altivo exemplo a sua própria invulnerabilidade e incorruptibilidade. Portas não ignorava nem ignora que só a esquerda é pecadora e tentada a perdoar pecados e pecadilhos alheios. Sim, a esquerda «alinha» com os drogados, os casais homossexuais, os sem-abrigo, os unidos de facto, as mulheres que abortam, os divorciados, os alcoólicos, os sem-família, os maltrapilhos, os cantores de intervenção, os pobres do terceiro mundo, os miseráveis do quarto mundo. E todos os que não se lavam nem se penteiam e não trabalham. A esquerda é pacifista, ecologista, antiglobalista, anticapitalista, anti-americana, pró-palestiniana, antipatriótica. O facto de ser assim permite à esquerda cometer erros e ser desgraçada à vontade porque, na visão que certa direita engomada tem da esquerda, a esquerda não pensa e não passa de uma sem-vergonha. Uma espécie de mulher perdida, uma prostituta bíblica à espera de ser resgatada pelo dedo do filho de Deus, mais sensível que o Pai às mulheres. Será. Mas até uma pessoa de esquerda é capaz, na sua infinita tolerância pela natureza humana, e no seu infinito sentido da sobrevivência, de olhar para a cara dos Braga Gonçalves, da família completa, e perceber aquilo que, na nossa infância, costumava designar-se por «más companhias». O destino grandioso de Paulo Portas devia tê-lo avisado contra as más companhias. Eu não aceitaria do Júlio Braga Gonçalves, o pai, uma esferográfica emprestada. O homem tresanda a sinistro e mitomania, a falência de carácter, e o dinheiro dos Braga Gonçalves e da Moderna tresandava a má vida e corrupção. Se Paulo Portas fosse de esquerda ainda se percebia, ia buscar com uma mão o que negava com a outra. A esquerda, no seu oportunismo e na sua preguiça, diria Paulo Portas, seria capaz disto. Mas, a direita? Quem diria? A direita que ama os pescadores e o paupérrimo povo? A direita que estima a imaculada família e o depósito bancário certo? A direita que nos quer orgulhosamente sós? A direita que é pela educação e contra a cultura? A direita que zela pela tradição e abomina a novidade? A direita que estima os valores de classe e despreza os arrivistas? A direita que quer os costumes de espartilho e o hino nas escolas? A direita que quer a moral e a religião obrigatórias? Eu nunca esperei ver Paulo Portas ser comprado pelos novos ricos, e nunca acreditei que estes novos ricos em particular, criminosos de patilha, pudessem passar cheques de milhares de contos a Paulo Portas. E ele os pudesse aceitar. Achava que não o faria por duas razões: porque era inteligente e porque era limpo. Porque não estava à venda, e Portugal precisa de políticos que não estejam à venda. Paulo Portas pode argumentar que tudo foi uma operação legítima e legal, mas a política, como disse uma vez Sophia de Mello Breyner e Portas concordaria, «a política é um capítulo da moral». Tenho muita pena que Paulo Portas não tenha seguido o exemplo do político que mais perseguiu e odiou, e não tenha sido, como ele, modesto e honesto. Para atacar Cavaco Silva assim, era preciso ser moralmente superior a Cavaco Silva. Foi esse o ponto de partida de Portas, a superioridade moral. E foi isso que ele perdeu para sempre.
Nota: Escrevo sete dias antes desta «Pluma» ser publicada. O que acontecerá até lá?"

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