quinta-feira, outubro 21

 

«Nunca ouvi um primeiro-ministro a dizer a um presidente da República: “Atreva-se lá a mandar-me embora”»


Extractos da entrevista de Vasco Pulido Valente à Sábado de 15 de Outubro (sexta-feira):

E além deste episódio, a que é que se deve esta situação de mal-estar no País?
É muito simples. Toda a gente sente este Governo como ilegítimo. O facto é que desde o professor Cavaco há uma eleição directa para primeiro-ministro. Constitucionalmente, é indirecta, mas toda a gente sabe que nas eleições legislativas o que estamos a eleger é um primeiro-ministro. É uma coisa absolutamente reconhecida. Tanto é assim que a primeira coisa que o eng. Sócrates disse mal foi eleito líder do PS foi que este Governo não era legítimo, porque este senhor não teve votos. Nenhum argumento vale contra isso. É uma ferida de morte no Governo e no poder. E podem vir 300 constitucionalistas dizer que o dr. Sampaio fez muito bem que não impedem que as coisas sejam vistas nestes termos. Ele renunciou ao semipresidencialismo e a todos os poderes activos que tem à sua disposição.
Acha que o primeiro-ministro Pedro Santana Lopes começa já a dar sinais de que sente um certo complexo de inferioridade pelo facto de não ter sido eleito?
De facto, o dr. Pedro Santana Lopes porta-se como uma pessoa que não está segura de si. Exagera, passa a vida a lamentar-se de que toda a gente o persegue e depois desafia o sr. Presidente da República a pô-lo na rua. Isto é inédito.
Lembra-se de algum episódio deste género, de quase ultimato ao Presidente da República?
Não é bem um ultimato, mas a palavra certa nem me atrevo a dizer. Mas nunca ouvi um primeiro-ministro dizer a um Presidente da República: “Atreva-se lá a mandar-me embora.” No fundo, o que ele disse foi: “Demita-me se é capaz! Ou aceita a minha versão de que isto é uma coisa interna da empresa TVI ou, se não aceita, ponha-me na rua.” Nunca nenhum Presidente da República ouviu isto. Conheci muito bem o general Ramalho Eanes e o dr. Mário Soares, e não os imagino a ouvir aquelas declarações e no dia seguinte não mandarem dizer ao dr. Santana Lopes que dispensavam os serviços dele.
O primeiro-ministro cita muito Sá Carneiro. O que é que há de Sá Carneiro na prática política do PSD de hoje?
Nada. Zero. Eu não sei o que é que o dr. Santana Lopes retirou desse período. Do que retirei, isto não tem nada a ver. A AD em que eu estive e que eu vivi não tem a mais remota semelhança com isto.
Está a falar da natureza dos protagonistas ou das políticas?
Estou a falar das duas coisas. E também das intenções dos primeiro-ministros. A natureza não era esta, as intenções não eram estas, o comportamento não era este, e o que nós queríamos fazer em Portugal e o que esperávamos que fossem as consequências do que fizemos não era nada disto.
Então isto tem que ver com quê?
Isso gostava eu de saber. O grosso das pessoas que estão no Governo não tem passado político que inspire confiança. São pessoas que andaram sempre nas franjas da política portuguesa.
(…)
Como é que isto afecta as bases do regime?
Se isto se aceitar como normal – que o Estado faz a sua clientela económica, que há uma aliança entre o Estado e um certo número de grupos económicos –, então sim, pode ser o princípio da corrupção do regime. É claro que, para essas coisas correrem bem, é preciso que não se saiba. É preciso que as pessoas que chegam à opinião pública estejam bem caladinhas.
Só tem impacto quando há um prof. Marcelo pelo meio, não é?
Com certeza. O problema do dr. Marcelo para o Governo é um problema clássico de um regime repressivo. Começamos pelos maiores ou pelos pequeninos? Eles podiam ter começado pouco a pouco, pelas margens e quando o Marcelo desse por ele estava isolado. Resolveram começar pela cabeça.
Se calhar é porque o Governo tem pressa, porque só tem dois anos atá às eleições legislativas de 2006…
Dois anos em política é muito tempo. O Hitler entrou com todas as regras democráticas em funcionamento e levou pouco mais de seis meses a fazer a ditadura absoluta. Mas eu gostava de introduzir uma questão nesta entrevista, que é o estatuto dos comentadores e a questão do contraditório. Porque é que não há contraditório em Portugal? Porque não há jornais politicamente alinhados. Tirando o Público, que é alinhado à esquerda, não há em Portugal jornais de direita, de esquerda, de centro-direita, centro-esquerda. O contraditório é isso: é uma multiplicação dos órgãos de informação, de maneira que nos dêem uma informação global do que se está a passar. Não apenas na opinião, mas também na maneira como se apresentam os factos."

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